O Guia do Mochileiro das Galxias
Douglas Adams

Traduo de: 
Paulo Fernando Henriques Britto e Carlos Irineu da Costa 

Para Johnny Brock e Clare Gorst e todo o pessoal de Arlington, que me deu 
ch, dimpatia e um sof. 

Prefcio 

Desde tempos imemoriais houve menos que meia dzia de mortais cujas mentes foram capazes de contemplar o universo em sua totalidade: Einstein, Hubble, Feynman e Douglas Adams so os nomes que surgem em meu crebro comparativamente nfimo e intil. Destes poucos gnios especiais, Douglas Adams , sem dvida, o pensador mais hilariantemente original, embora seja consenso geral que Einstein era melhor danarino de funk. 

O Guia do Mochileiro das Galxias comeou sua histria como uma srie de rdio e, depois, uma compilao em fita cassete. Transformado em livro, tornou-se um best-seller mundial e foi parar, de forma curiosa, na televiso britnica. 

Com uma galeria de personagens bizarros e tantas viradas abruptas na trama que voc se sentir em uma montanha-russa, O Guia do Mochileiro , sem dvida, uma das mais criativas e cmicas histrias de aventura jamais escritas. Arthur Dent, um ingls azarado, escapa de um evento dramtico -a destruio da Terra -, graas a um amigo de Betelgeuse que, enquanto estava ilhado em nosso planeta, havia se disfarado de ator desempregado. Arthur se v arrastado, apesar de seus protestos histricos (bem, "histrico" dentro da habitual fleuma britnica), para as situaes mais alucinadas nos pontos mais distantes do tempo e do espao. 

O que realmente sustenta este livro hilariante, atravs de sua viagem freneticamente bizarra pela galxia rumo ao legendrio planeta de Magrathea - e alm -,  a pergunta profunda sobre o porqu. De onde viemos? Por que estamos aqui? Para onde vamos? Onde vamos almoar hoje? 

Alm disso, enquanto Arthur tenta se entender com as formas de vida mais estranhas e os nomes ainda mais estranhos dessas formas de vida estranhas, nosso anti-heri descobre a verdadeira histria da Terra e a resposta final  grande pergunta da Vida, do Universo e Tudo o Mais. No geral, um resultado bastante satisfatrio, devo dizer. 

Mas o que torna a escrita de Douglas Adams to hipntica? Alm do fato de ser considerado por muitos como "um dos autores mais perspicazes de nossos tempos",1 Ele tambm se envolveu profundamente com a literatura e a cincia. A leitura, o humor, os animais selvagens e a tecnologia eram suas grandes paixes, e ele soube reunir esses interesses aparentemente disparatados com toda a conciso e energia de um supercondutor de partculas atmicas, inundando seus leitores com um dilvio feroz de hilariantes conceitos abstratos e teorias perversamente avanadas. Voc no precisa saber nada a respeito de fsica nuclear ou biologia para apreciar sua obfa; porm, quanto mais souber, mais agradveis os livros se tornaro. Um exemplo clssico  o engenhoso gerador de improbabilidade infinita, que impulsiona a nave espacial de nossos heris por todos os pontos da Galxia em um nico instante. Este conceito diabolica-mente inteligente parece, ao menos para mim, ser diretamente derivado do conceito de "abordagem de somatrio atravs da histria", ou da "abordagem de caminho integral" da fsica qun-tica, conforme concebido por Richard Feynman, ganhador do Prmio Nobel de 1965.2 Adams nasceu no enclave acadmico de Cambridge, na Inglaterra, em 1952, e sempre se divertia dizendo que ele era o verdadeiro "DNA" (Douglas Noel Adams) original de Cambridge, tendo chegado ao mundo uns nove meses antes que Crick e Watson, ganhadores do Prmio Nobel, anunciassem sua descoberta da dupla-hlice do DNA em um pub local -possivelmente no muito diferente do pub em que os heris do Guia do Mochileiro, Ford Prefect e Arthur Dent, tomaram cerveja e comeram amendoins enquanto se preparavam para sua iminente partida de nosso planeta condenado. 

Sob a orientao de alguns professores particularmente dedicados, Douglas Adams desenvolveu um intelecto privilegiado durante seu perodo na escola. O que lhe faltou em termos de agilidade fsica -suas dimenses exageradas fizeram dele um elemento perigoso em pistas de dana e competies esportivas -, ele compensou amplamente com seus neurnios geis, impressionando seus mestres e colegas com pensamentos originais, introspeces profundas e um humor avassalador. 

De acordo com o que se diz, Douglas Adams viveu para escrever, mas essa verso se ope diretamente  sua prpria confisso de que escrevia "de forma lenta e dolorosa". Por outro lado, h muitos relatos sobre sua "escrita como a arte da performance", uma habilidade invejvel de gerar pgina aps pgina de puro brilhantismo, com um editor desesperado e exigente bufando sobre seus ombros, como se ele fosse um mgico puxando do bolso .uma corrente infinita de lenos coloridos. Curiosamente, mesmo aps ter obtido sucesso internacional, tornou-se famoso nos crculos literrios por fazer qualquer coisa, menos escrever. Sua impressionante falta de autoconfiana ante a enorme evidncia de que era um gnio muitas vezes chegou a incapacit-lo a tal ponto que simplesmente no conseguia enfileirar duas palavras. No estava brincando totalmente quando disse: "Amo os prazos. Amo a presso surda que geram quando se aproximam." Editoras e editores, frustrados, tentaram diversos truques inteligentes para fazer com que sua criatividade flusse, de forma que ele conseguisse terminar seus livros a tempo de coloc-los nas prateleiras antes da prxima era do gelo. Aparentemente, as melhores solues parecem ter sido tranc-lo dentro de um cofre de banco ou ento dentro de um quarto sem janelas, sem telefone, sem fax, sem conexo com a Internet - em nem mesmo uma portinhola de escape. 

Embora este livro que voc acaba de comprar tenha sido um sucesso imediato, o percurso de Douglas Adams jamais foi previsvel. Em um determinado momento, com suas ocupaes literrias temporariamente "em suspenso", ele foi empregado como "limpador de galinheiros e guarda-costas da famlia governante de Qatar".3 Depois de entrar de cara em numerosos becos sem sada, finalmente encontrou seu lugar ao produzir a srie de rdio da BBC em que este livro  baseado. 

Embora declarasse ser "um ateu radical", seus livros demonstram um sentido claro e ntido de justia e compaixo universais. No incio achei isso um pouco estranho e pensei que talvez ele estivesse apenas demonstrando sua enorme inteligncia enquanto debochava da crendice pia dos fanticos religiosos, mas em algum momento compreendi o que ele realmente queria dizer. Uma posio radicalmente ateista pode at significar que sua vida  uma corrida rumo ao esquecimento -mas ao menos voc pode fazer isso com estilo. Como voc se comporta hoje, o que voc faz com cada momento, como voc explora os talentos e as oportunidades  sua disposio so coisas muito mais importantes para um ateu genuno do que para os devotos mais religiosos. Longe de perder o sentido, o que voc faz nesta vida subitamente torna-se incrivelmente importante, j que voc s tem essa nica possibilidade de fazer a coisa certa, de mudar alguma coisa, de contribuir de alguma forma para aqueles que voc ama ou que seguiro seus passos. 

Um homem apaixonado em suas convices, Adams usou sua importncia, intelecto e tremenda energia para contribuir de vrias formas. Com seus livros, artigos, aparies pblicas e donativos, Douglas Adams inspirou mudanas positivas e apoiou diversas causas significativas. Sua paixo por animais selvagens nunca esteve mais presente do que quando viajou ao redor do mundo com o zologo Mark Cawardine para documentar as espcies em risco de extino para seu maravilhoso livro Last Chance to See (Ultima oportunidade para ver). E no parou nisso, pois ele seguiu em frente, transformando-se no energtico e carismtico patrono tanto do Diana Fossey Goriila Fund quanto do Save the Rhino International. Entre suas muitas aes para apoiar este ltimo, houve a famosa vez em que escalou o Kilimanjaro, fantasiado de rinoceronte, para ajudar a divulgar sua causa. 

Aparentemente no houve um assunto sequer sobre o qual no tenha se interessado. Sua crtica social afiada  recoberta pelo mais fino humor, tornando-se por vezes spera e adoravel-mente ofensiva de uma forma que muitas vezes parece a ns, australianos, ser essencialmente a nossa prpria. A educao, ou a falta dela, freqentemente emergia em meio a seu descontentamento de vrias formas. Tricia Macmillan (com quem voc ir se encontrar em breve)  provavelmente a mais espantosa celebrao da subclasse intelectual oprimida que j encontrei na fico contempornea. Ele tambm se preocupava muito em transmitir a idia de que os recursos naturais eram finitos e esto acabando, com avisos ecolgicos ocultos em quase tudo que escreveu. 

A tecnologia era uma enorme paixo de Douglas Adams, que provavelmente possuiu e usou mais computadores da marca Apple do que qualquer outra pessoa, a no ser talvez o prprio Steve Jobs. Ele era um tanto peculiar nesse ponto, pois achava que a tecnologia poderia ser usada para salvar nosso planeta de quase todos os males, incluindo o tdio e a extino da espcie. Essa noo o colocava em franca oposio com muitos conservadores mais prosaicos, os quais ansiavam pelo retorno das carroas puxadas a cavalo, talvez para que o rudo agradvel dos cascos batendo ao longe os distrasse do aumento exponencial nas emisses de gases que causam o efeito estufa. Ele lutou at o fim pela viso de que as novas tecnologias so a extenso mais natural da mente humana. 

Como um todo, Douglas Adams era um indivduo extraordinrio, que deixou um enorme vazio nesta dimenso quando morreu subitamente de um ataque cardaco, no dia 11 de maio de 2001. Muitas pessoas sentem uma enorme falta dele, mesmo aquelas como eu que nunca apertaram sua mo. Depois de ler este livro voc entender o porqu. 

Esta edio da Editora Sextante do Guia do Mochileiro das Galxias tem sido esperada por um longo tempo. Contudo, dentro de umas 100 pginas, estou certo de que voc concordar comigo que a espera valeu a pena. A genialidade de Douglas Adams e a forma como ele usa as situaes mais absurdas para nos fazer rir certamente encontraro ecos no amor pela vida e no bom humor que meus amigos brasileiros tm de sobra. 

Divirta-se!. 

BRADLEY TREVOR GREIVE 
Autor de Um Dia "Daqueles" 
1 Richard Dawkins. The Guardian, 14 de maio de 2001. 
2 John & Mary Gribbin. Richard Feynman: Uma vida na cincia, Viking, 1997. 
3 Nicholas Wroe. The Guardian, junho 3, 2000. 


Muito alm, nos confins inexplorados da regio mais brega da Borda Ocidental desta Galxia, h um pequeno sol amarelo e esquecido. 

Girando em torno deste sol, a uma distncia de cerca de 148 milhes de quilmetros, h um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de pri-matas, so to extraordinariamente primitivas que ainda acham que relgios digitais so uma grande idia. 

Este planeta tem -ou melhor, tinha -o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas solues para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente  movimentao de pequenos pedaos de papel colorido com nmeros impressos, o que  curioso, j que no geral no eram os tais pedaos de papel colorido que se sentiam infelizes. 

E assim o problema continuava sem soluo. Muitas pessoas eram ms, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relgios digitais. 

Um nmero cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrvel da espcie descer das rvores. Algumas diziam que at mesmo subir nas rvores tinha sido uma pssima idia, e que ningum jamais deveria ter sado do mar. 

E, ento, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedao de madeira por ter dito que seria timo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ningum teria que ser pregado em coisa nenhuma. 

Infelizmente, porm, antes que ela pudesse telefonar para algum e contar sua descoberta, aconteceu uma catstrofe terrvel e idiota, e a idia perdeu-se para todo o sempre. 

Esta no  a histria dessa garota. 

 a histria daquela catstrofe terrvel e idiota, e de algumas de suas conseqncias. 

 tambm a histria de um livro, chamado O Guia do Mochileiro das Galxias -um livro que no  da Terra, jamais foi publicado na Terra e, at o dia em que ocorreu a terrvel catstrofe, nenhum terrqueo jamais o tinha visto ou sequer ouvido falar dele. 

Apesar disso,  um livro realmente extraordinrio. 

Na verdade, foi provavelmente o mais extraordinrio dos livros publicados pelas grandes editoras de Ursa Menor -editoras das quais nenhum terrqueo jamais ouvira falar, tambm. 

O livro  no apenas uma obra extraordinria como tambm um tremendo bestseller -mais popular que a Enciclopdia Celestial do Lar, mais vendido que Mais Cinqenta e Trs Coisas para se Fazer em Gravidade Zero, e mais polmico que a colossal trilogia filosfica de Oolonn Colluphid, Onde Deus Errou, Mais Alguns Grandes Erros de Deus e Quem  Esse Tal de Deus Afinal? 

Em muitas das civilizaes mais tranqilonas da Borda Oriental da Galxia, O Guia do Mochileiro das Galxias j substituiu a grande Enciclopdia Galctica como repositrio-padro de todo conhecimento e sabedoria, pois ainda que contenha muitas omisses e textos apcrifos, ou pelo menos terrivelmente incorretos, ele  superior  obra mais antiga e mais prosaica em dois aspectos importantes. 

Em primeiro lugar,  ligeiramente mais barato; em segundo lugar, traz impressa na capa, em letras garrafais e amigveis, a frase NO ENTRE EM PNICO. 

Mas a histria daquela quinta-feira terrvel e idiota, a histria de suas extraordinrias conseqncias, a histria das interligaes inextricveis entre estas conseqncias e este livro extraordinrio - tudo isso teve um comeo muito simples. 

Comeou com uma casa. 


Captulo 1


A casa ficava numa pequena colina bem nos limites de uma vila, isolada. Dela se tinha uma ampla vista das fazendas do oeste da Inglaterra. No era, de modo algum, uma casa excepcional -tinha cerca de 30 anos, era achatada, quadrada, feita de tijolos, com quatro janelas na frente, cujo tamanho e propores pareciam ter sido calculados mais ou menos exatamente para desagradar a vista. 

A nica pessoa para quem a casa tinha algo de especial era Arthur Dent, e assim mesmo s porque ele morava nela. J morava l h uns trs anos, desde que resolvera sair de Londres porque a cidade o deixava nervoso e irritado. Tambm tinha cerca de 30 anos; era alto, moreno e quase nunca estava em paz consigo mesmo. O que mais o preocupava era o fato de que as pessoas viviam lhe perguntando por que ele parecia estar to preocupado. Trabalhava na estao de rdio local, e sempre dizia aos amigos que era um trabalho bem mais interessante do que eles imaginavam. E era, mesmo -a maioria de seus amigos trabalhava em publicidade. 

Na noite de quarta-feira tinha cado uma chuva forte, e a estrada estava enlameada e molhada, mas na manh de quinta um sol intenso e quente brilhou sobre a casa de Arthur Dent pelo que seria a ltima vez. 

Arthur ainda no havia conseguido enfiar na cabea que o conselho municipal queria derrub-la e construir um desvio no lugar dela. 

s oito horas da manh de quinta-feira, Arthur no estava se sentindo muito bem. Acordou com os olhos turvos, levantou-se, andou pelo quarto sem enxergar direito, abriu uma janela, viu um trator, encontrou os chinelos e foi at o banheiro.

Pasta na escova de dentes -assim. 

Escovar. Espelho mvel -virado para o teto. 

Arthur ajustou-o. Por um momento, o espelho refletiu um segundo trator pela janela do banheiro. Arthur reajustou-o, e o espelho passou a refletir o rosto barbado de Arthur Dent. Ele fez a barba, lavou o rosto, enxugou-o e foi at a cozinha em busca de alguma coisa agradvel para pr na boca. 

Chaleira, tomada, geladeira, leite, caf. Bocejo. 

A palavra trator vagou por sua mente, procurando algo com o que se associar. 

O trator que estava do outro lado da janela da cozinha era dos grandes. 

Arthur olhou para ele. 

"Amarelo", pensou, e voltou ao quarto para se vestir. Ao passar pelo banheiro, parou para tomar um copo d'gua, e depois outro. Comeou a desconfiar que estava de ressaca. Por que a ressaca? Teria bebido na vspera? Imaginava que sim. Olhou de relance para o espelho mvel. "Amarelo", pensou, e foi para o quarto. 

Ficou parado, pensando. "O bar", pensou. "Ah, meu Deus, o bar." Tinha uma vaga lembrana de ter ficado irritado com algo que parecia importante. Falara com as pessoas a respeito, e na verdade comeava a achar que tinha falado demais: a imagem mais ntida em sua memria era a dos rostos entediados das pessoas a seu redor. Tinha algo a ver com um desvio a ser construdo, e ele acabara de descobrir isso. A obra estava planejada h meses, s que ningum sabia de nada. Ridculo. Arthur tomou um gole d'gua. "A coisa ia se resolver; ningum queria aquele desvio, o conselho estava completamente sem razo. A coisa ia se resolver", pensou ele. 

Mas que ressaca terrvel. Olhou-se no espelho do armrio. Ps a lngua para fora. "Amarelo", pensou. A palavra amarelo vagou por sua mente, procurando algo com o que se associar. 

Quinze segundos depois, Arthur estava fora da casa, deitado no cho, na frente de um trator grande e amarelo que avanava por cima de seu jardim. 

O Sr. L. Prosser era, como dizem, apenas humano. Em outras palavras, era uma forma de vida bpede baseada em carbono e descendente de primatas. Para ser mais especfico, ele tinha 40 anos, era gordo e desleixado e trabalhava no conselho municipal. Curiosamente, embora ele desconhecesse este fato, era tambm descendente direto, pela linhagem masculina, de Gengis Khan, embora a sucesso de geraes e a mestiagem houvessem misturado de tal modo sua carga gentica que ele no possua nenhuma caracterstica mongol, e os nicos vestgios daquele majestoso ancestral que restavam no Sr. L. Prosser eram uma barriga pronunciada e uma predileo por chapeu-zinhos de pele. 

Ele no era em absoluto um grande guerreiro: na verdade, era um homem nervoso e preocupado. Naquele dia estava particularmente nervoso e preocupado porque tivera um problema srio com seu trabalho, que consistia em retirar a casa de Arthur Dent do caminho antes do final da tarde. 

-Desista, Sr. Dent, o senhor sabe que  uma causa perdida. O senhor no vai conseguir ficar deitado na frente do trator o resto da vida. -Tentou assumir um olhar feroz, mas seus olhos no eram capazes disso. 

Deitado na lama, Arthur respondeu: 

- Est bem. Vamos ver quem  mais chato. 
-Infelizmente, o senhor vai ter que aceitar -disse o Sr. Prosser, rodando seu chapu de pele no alto da cabea. -Esse desvio tem que ser construdo e vai ser construdo! 

-Primeira vez que ouo falar nisso. Por que  que tem que ser construdo? 

O Sr. Prosser sacudiu o dedo para Arthur por algum tempo, depois parou e retirou o dedo. 

-Como assim, "por que deve ser construdo"? Oral - exclamou ele. -  um desvio.  necessrio construir desvios. 

Os desvios so vias que permitem que as pessoas se desloquem bem depressa do ponto A ao ponto B ao mesmo tempo que outras pessoas se deslocam bem depressa do ponto B ao ponto A. As pessoas que moram no ponto C, que fica entre os dois outros, muitas vezes ficam imaginando o que tem de to interessante no ponto A para que tanta gente do ponto B queira muito ir para l, e o que tem de to interessante no ponto B para que tanta gente do ponto A queira muito ir para l. Ficam pensando como seria bom se as pessoas resolvessem de uma vez por todas onde  que elas querem ficar. 

O Sr. Prosser queria fica no ponto D. Este ponto no ficava em nenhum lugar especfico, era apenas um ponto qualquer bem longe dos pontos A, B e C. O Sr. Prosser teria uma bela casinha de campo no ponto D, com machados pregados em cima da porta, e se divertiria muito no ponto E, o bar mais prximo do ponto D. Sua mulher, naturalmente, queria uma roseira trepadeira, mas ele queria machados. Ele no sabia por qu. S sabia que gostava de machados. O Sr. Prosser sentiu seu rosto ficar vermelho ante aos sorrisos irnicos dos operadores do trator. 

Apoiou o peso do corpo numa das pernas, depois na outra, mas sentiu-se igualmente desconfortvel com as duas. Era bvio que algum havia sido terrivelmente incompetente, e ele pedia a Deus que no fosse ele. 

-O senhor teve um longo prazo a seu dispor para fazer quaisquer sugestes ou reclamaes, como o senhor sabe -disse o Sr. Prosser. 

-Um longo prazo? -exclamou Arthur. -Longo prazo? Eu s soube dessa histria quando chegou um operrio na minha casa ontem. Perguntei a ele se tinha vindo para lavar as janelas e ele respondeu que no, vinha para demolir a casa.  claro que no me disse isso logo. Claro que no. Primeiro lavou umas duas janelas e me cobrou cinco pratas. Depois  que me contou. 

-Mas, Sr. Dent, o projeto estava  sua disposio na Secretaria de Obras h nove meses. 

-Pois . Assim que eu soube fui l me informar, ontem  tarde. Vocs no se esforaram muito para divulgar o projeto, no  verdade? Quer dizer, no chegaram a comunicar s pessoas nem nada. 

-Mas o projeto estava em exposio... 

- Em exposio? Tive que descer ao poro pra encontrar o projeto. 
-  no poro que os projetos ficam em exposio. 
-Com uma lanterna. 
-Ah, provavelmente estava faltando luz. 
-Faltavam as escadas, tambm. 
-Mas, afinal, o senhor encontrou o projeto, no foi? 
-Encontrei, sim -disse Arthur. -Estava em exibio no fundo de um arquivo trancado, jogado num banheiro fora de uso, cuja porta tinha a placa: 

Cuidado com o leopardo. 

Uma nuvem passou no cu. Projetou uma sombra sobre Arthur Dent, deitado na lama fria, apoiado no cotovelo. Projetou uma sombra sobre a casa de Arthur Dent. O Sr. Prosser olhou-a, de cara feia. 

- No chega a ser uma casa particularmente bonita. 
-Perdo, mas por acaso gosto dela. 

-O senhor vai gostar do desvio. 

-Ah, cale a bocal Cale a boca e v embora, voc e a porcaria do seu desvio. Voc sabe muito bem que est completamente sem razo. 

A boca do Sr. Prosser abriu-se e fechou-se umas duas vezes, enquanto por uns momentos seu crebro foi invadido por vises inexplicveis, porm terrivelmente atraentes: via a casa de Arthur Dent sendo consumida pelas chamas, enquanto o prprio Arthur corria aos gritos do incndio, com pelo menos trs lanas bem compridas enfiadas em suas costas. Vises como essas freqentemente perturbavam o Sr. Prosser e o deixavam nervoso. Gaguejou por uns instantes e depois recuperou a calma. 

-Sr. Dent. 

-Sim? O que ? 

-Gostaria de ressaltar alguns fatos para o senhor. O senhor sabe que danos esse trator sofreria se eu deixasse ele passar por cima do senhor? 

-O qu? 

-Absolutamente zero -disse o Sr. Prosser, afastando-se rapidamente, nervoso, sem entender por que seu crebro estava cheio de cavaleiros cabeludos que gritavam com ele. 

Por uma curiosa coincidncia, "absolutamente zero" era o quanto o descendente dos primatas Arthur Dent suspeitava que um de seus amigos mais ntimos no descendia dos primatas, sendo, na verdade, de um pequeno planeta perto de Betelgeuse, e no de Guildford, como costumava dizer. 

Tal suspeita jamais passara pela cabea de Arthur Dent. 

Esse seu amigo havia chegado ao planeta Terra h uns 15 anos terrqueos e se esforara ao mximo no sentido de se integrar na sociedade terrquea -com certo sucesso, deve-se reconhecer. Assim, por exemplo, ele passara esses 15 anos fingindo ser um ator desempregado, o que era perfeitamente plausvel. 

Porm cometera um erro gritante, por ter sido um pouco displicente em suas pesquisas preparatrias. As informaes de que ele dispunha o levaram a escolher o nome "Ford Prefect", achando que era um nome bem comum, que passaria despercebido. 

No era alto a ponto de chamar ateno, e suas feies eram atraentes, mas no a ponto de chamar a ateno. Seus cabelos eram avermelhados e crespos e ele os penteava para trs. Sua pele parecia ter sido puxada a partir do nariz. Havia algo de ligeiramente estranho nele, mas era algo muito sutil, difcil de identificar. Talvez os olhos dele piscassem menos que o normal, de modo que quem ficasse conversando com ele algum tempo acabava com os olhos cheios d'gua de aflio. Talvez o sorriso dele fosse um pouco largo demais e desse a sensao desagradvel de que estava prestes a morder o pescoo de seu interlocutor. 

Para a maioria dos amigos que fizera na Terra era um sujeito excntrico, porm inofensivo: um beberro com alguns hbitos meio estranhos. Por exemplo, ele costumava entrar de penetra em festas na universidade, tomar um porre colossal e depois comeava a gozar qualquer astrofsico que encontrasse, at que o expulsassem da festa. 

s vezes ele ficava desligado, olhando distrado para o cu, como se estivesse hipnotizado, at que algum lhe perguntava o que ele estava fazendo. Ento, por um instante, Ford ficava assustado, com um ar culpado, mas logo relaxava e sorria. 

-Ah, estou s procurando discos voadores -brincava, e todo mundo ria e lhe perguntava que tipo de discos voadores ele estava procurando. -Dos verdes! -ele respondia com um sorriso irnico, depois ria s gargalhadas por alguns instantes e da corria at o bar mais prximo e pagava uma enorme rodada de bebidas. 

Essas noites normalmente terminavam mal. Ford tomava usque at ficar totalmente bbado, se encolhia num canto com uma garota qualquer e dizia a ela, com voz pastosa, que na verdade a cor dos discos voadores no tinha muita importncia. 

Depois, cambaleando meio torto pelas ruas, de madrugada, com freqncia perguntava aos policiais que passavam como se ia para Betelgeuse. Os policiais normalmente diziam algo assim: 

-O senhor no acha que  hora de ir pra casa? 

- o que eu estou tentando fazer, meu chapa, estou tentando -era o que Ford sempre respondia nessas ocasies. 

Na verdade, o que ele realmente procurava quando ficava olhando para o cu era qualquer tipo de discos voadores. Ele falava em discos voadores verdes porque o verde era a cor tradicional do uniforme dos astronautas mercantes de Betelgeuse. Ford Prefect j havia perdido as esperanas de que aparecesse um disco voador porque 15 anos  muito tempo para ficar preso em qualquer lugar, principalmente num lugar to absurdamente chato quanto a Terra. 

Ford queria que chegasse logo um disco voador porque sabia fazer sinal para discos voadores descerem e porque queria pegar carona num deles. Ele sabia ver as Maravilhas do Universo por menos de 30 dlares altairianos por dia. 

Na verdade, Ford Prefect era pesquisador de campo desse fabuloso livro chamado O Guia do Mochileiro das Galxias. 

Os seres humanos se adaptam a tudo com muita facilidade. Assim, quando chegou a hora do almoo, nos arredores da casa de Arthur j havia se estabelecido uma rotina. O papel de Arthur era o de ficar se espojando na lama, pedindo de vez em quando que chamassem seu advogado, sua me ou lhe trouxessem um bom livro. O Sr. Prosser ficou com o papel de tentar novas tticas de persuaso com Arthur de vez em quando, usando o papo do Para o Bem de Todos, o da Marcha Inevitvel do Progresso, o de Sabe que Uma Vez Derrubaram Minha Casa Tambm mas Continuei com Minha Vida Normalmente, bem como diversos outros tipos de propostas e ameaas. O papel dos operadores dos tratores, por sua vez, era o de ficar sentado, tomando caf e examinando a legislao trabalhista para ver se havia um jeito de ganhar um extra com aquela situao. 

A Terra seguia lentamente em sua rbita cotidiana. 

O sol estava comeando a secar a lama em que Arthur estava deitado. 

Uma sombra passou por ele novamente. 

-Oi, Arthur -disse a sombra. 

Arthur olhou para cima com uma careta, por causa do sol, e surpreendeu-se ao ver Ford Prefect em p a seu lado. 

-Ford] Tudo bem com voc? 

-Tudo bem -disse Ford. - Escute, voc est ocupado? 

-Se estou ocupado? -exclamou Arthur. -Bem, tenho apenas que ficar deitado na frente desses tratores todos seno eles derrubam minha casa, mas afora isso... bem, nada de especial. Por qu? 

Em Betelgeuse no existe sarcasmo, por isso Ford muitas vezes no o percebia, a menos que estivesse prestando muita ateno. 

-timo -disse ele. -Onde a gente pode conversar? 

-O qu? -exclamou Arthur Dent. 

Por alguns segundos, Ford pareceu ignor-lo, e ficou olhando fixamente para o cu, como um coelho que est querendo ser atropelado por um carro. Ento, de repente, acocorou-se ao lado de Arthur. 

-Precisamos conversar -disse, num tom de urgncia. 

-Tudo bem -disse Arthur. -Pode falar. 

-E beber. Temos que conversar e beber,  uma questo de vida ou morte. Agora. Vamos ao bar l na vila. 

Olhou para o cu de novo, nervoso, como se esperasse algo. 

-Escute, ser que voc no entende? -gritou Arthur, apontando para Prosser. - Esse homem quer demolir a minha casa! Ford olhou para o homem, confuso. 

- Ele pode fazer isso sem voc, no ? 
-Mas eu no quero que ele faa isso! -Ah. 
- Escute, o que  que voc tem, Ford? 
-Nada. Nada de mais. Escute... eu tenho que lhe dizer a coisa mais importante que voc j ouviu. Tenho que lhe dizer isso agora e tem que ser l no bar Horse and Groom. 

-Mas por qu? 

-Porque voc vai precisar beber algo bem forte. 

Ford olhou para Arthur, e este constatou, atnito, que estava comeando a se deixar convencer. No percebeu,  claro, que foi por causa de um velho jogo de botequim que Ford aprendera nos portos hiperespaciais que serviam as regies de minerao de madranita no sistema estelar de Beta de rion. 

O jogo era vagamente parecido com a queda-de-brao dos terrqueos e funcionava assim: 

Os dois adversrios sentavam-se a uma mesa, um de cara para o outro, cada um com um copo  sua frente. 

Entre os dois colocava-se uma garrafa de Aguardente Janx (imortalizada naquela velha cano dos mineiros de rion: 'Ah, no me d mais dessa Aguardente Janx/ No, no me d mais um gole de Aguardente Janx/ Seno minha cabea vai partir, minha lngua vai mentir, meus olhos vo ferver e sou capaz de morrer/ Vai, me d um golinho de Aguardente Janx"). 

Ento, cada lutador tentava concentrar sua fora de vontade sobre a garrafa para inclin-la e verter aguardente no copo do adversrio, que ento era obrigado a beb-la. 

Ento enchia-se a garrafa de novo, comeava uma nova rodada, e assim por diante. 

Quem comeava perdendo normalmente acabava perdendo, porque um dos efeitos da Aguardente Janx  deprimir o poder telepsquico. 

Assim que se consumia uma quantidade previamente estabelecida, o perdedor era obrigado a pagar uma prenda, que costumava ser obscenamente biolgica. 

Ford Prefect normalmente jogava para perder. 

Ford olhou para Arthur, que estava comeando a pensar que talvez quisesse mesmo ir at o Horse and Groom. 

-Mas e a minha casa...? -perguntou, em tom de queixa. Ford olhou para o Sr. Prosser e de repente lhe ocorreu uma idia maliciosa. 

- Ele quer demolir a sua casa? 
- , ele quer construir... 
- E no pode porque voc est deitado na frente do trator dele? -,e... 
-Aposto que podemos chegar a um acordo -disse Ford. -Com licena! - gritou ele para o Sr. Prosser. 

O Sr. Prosser (que estava discutindo com o porta-voz dos operadores dos tratores se a presena de Arthur Dent constitua ou no um fator de insalubridade mental no local de trabalho e quanto eles deveriam receber neste caso) olhou em volta. Ficou surpreso e ligeiramente alarmado quando viu que Arthur estava acompanhado. 

-Sim? Que foi? -perguntou. -O Sr. Dent j voltou ao normal? 

-Ser que podemos supor, para fins de discusso -perguntou Ford -, que ainda no? 

- E da? -suspirou o Sr. Prosser. 
-E podemos tambm supor -prosseguiu Ford -que ele vai ficar a o dia inteiro? 

- E ento? 

-Ento todos os seus ajudantes vo ficar parados a sem fazer nada o dia todo? 

-Talvez, talvez... 

-Bem, se o senhor j se resignou a no fazer nada, o senhor na verdade no precisa que ele fique deitado aqui o tempo todo, no ? 

-O qu? 

-O senhor, na verdade -repetiu Ford, paciente -, no precisa que ele fique aqui. 

O Sr. Prosser pensou um pouco. 

-Bem, , no exatamente... Precisar, no preciso, no... -disse Prosser, preocupado, por achar que ele, ou Ford, estava dizendo um absurdo. 

-Ento o senhor podia perfeitamente fazer de conta que ele ainda est aqui, enquanto eu e ele damos um pulinho no bar, s por meia hora. O que o senhor acha? 

O Sr. Prosser achava aquilo perfeitamente insano. 

-Acho perfeitamente razovel... -disse, com um tom de voz tranqilizador, sem saber quem ele estava tentando tranqilizar. 

-E, se depois o senhor quiser dar uma escapulida pra tomar um chope - disse Ford -, a gente retribui o favor. 

-Muito obrigado -disse o Sr. Prosser, que no sabia mais como conduzir a situao -, muito obrigado,  muita bondade sua... -Franziu o cenho, depois sorriu, depois tentou fazer as duas coisas ao mesmo tempo, no conseguiu, agarrou seu chapu de pele e rodou-o no alto da cabea nervosamente. S podia achar que havia ganhado a parada. 

-Ento -prosseguiu Ford Prefect -, se o senhor tiver a bondade de vir at aqui e se deitar... 

-O qu? -exclamou o Sr. Prosser. 

-Ah, desculpe -disse Ford -, acho que no soube me exprimir muito bem. Algum tem que ficar deitado na frente dos tratores, no ? Seno eles vo demolir a casa do Sr. Dent. 

-O qu? -repetiu o Sr. Prosser. 

- muito simples -disse Ford. -Meu cliente, o Sr. Dent, declara que est disposto a no mais ficar deitado aqui na lama com uma nica condio: que o senhor o substitua em seu posto. 

-Que histria  essa? -disse Arthur, mas Ford cutucou-o com o p para que se calasse. 

-O senhor quer -disse Prosser, tentando captar essa nova idia -que eu me deite a... 

-. 

- Na lama. 
- , como disse, na lama. 

Assim que o Sr. Prosser se deu conta de que na verdade era ele o perdedor, foi como se lhe retirassem um fardo dos ombros: essa situao era mais familiar para ele. Suspirou. 

- E em troca disso o senhor vai com o Sr. Dent at o bar? 
-Isso -disse Ford -, isso mesmo. 

O Sr. Prosser deu uns passos nervosos  frente e parou. 

-Promete? -disse ele 

-Prometo -disse Ford. Virou-se para Arthur: -Vamos, levante-se e deixe o homem se deitar. Arthur ps-se de p, achando que tudo aquilo era um sonho. 

Ford fez sinal para o Sr. Prosser, que se sentou na lama, triste e desajeitado. Tinha a impresso de que toda a sua vida era uma espcie de sonho, e s vezes se perguntava de quem era aquele sonho, e se o dono do sonho estaria se divertindo. A lama envolveu suas ndegas e penetrou em seus sapatos. 

Ford olhou para ele, muito srio. 

-Nada de bancar o espertinho e derrubar a casa do Sr. Dent enquanto ele no estiver aqui, certo? 

-Nem pensar -rosnou o Sr. Prosser. -Jamais passou pela minha cabea - prosseguiu, deitando-se -sequer a possibilidade de fazer tal coisa. 

Viu o representante do sindicato dos operadores de tratores se aproximar, deixou a cabea afundar na lama e fechou os olhos. Estava tentando encontrar argumentos para provar que ele prprio no passara a representar um fator de insalubridade mental. Estava longe de estar convencido disso -sua cabea estava cheia de barulhos, cavalos, fumaa e cheiro de sangue. Isso sempre acontecia quando ele se sentia infeliz ou enganado, e jamais entendera por qu. Numa dimenso superior, da qual nada sabemos, o poderoso Khan urrava de dio, mas o Sr. Prosser limitava-se a tremer um pouco e a resmungar. Comeou a sentir que lhe brotavam lgrimas por trs das plpebras. Qiproqus burocrticos, homens zangados deitados na lama, estranhos indecifrveis impondo-lhe humilhaes inexplicveis e um exrcito no identificado de cavaleiros rindo dele em sua mente -que dia! Que dia! Ford Prefect sabia que no tinha a menor importncia se a casa de Arthur fosse ou no derrubada, agora. Arthur continuava muito preocupado. 
-Mas ser que a gente pode confiar nele? -perguntou. 
- Eu, por mim, confiaria nele at o fim do mundo. 
-Ah -disse Arthur. - E quanto falta pra isso? 
-Cerca de 12 minutos -disse Ford. -Vamos, preciso beber alguma coisa. 

Captulo 2


Eis o que diz a Enciclopdia Galctica a respeito do lcool:  um lquido voltil e incolor formado pela fermentao dos acares. Acrescenta ainda que o lcool tem o efeito de inebriar certas formas de vida baseadas em carbono. 

O Guia do Mochileiro das Galxias tambm menciona o lcool. Diz que o melhor drinque que existe  a Dinamite Pangalctica. 

Afirma que o efeito de beber uma Dinamite Pangalctica  como ter seu crebro esmagado por uma fatia de limo colocada em volta de uma grande barra de ouro. 

O Guia do Mochileiro tambm lhe dir quais os planetas em que se preparam as melhores Dinamites Pangalcticas, quanto ir custar uma dose e quais as ONGs existentes para ajudar voc a se recuperar posteriormente. 

O Guia do Mochileiro ensina at mesmo como preparar a bebida por conta prpria. Eis o que diz o livro: 

Pegue uma garrafa de Aguardente Janx. 

Misture-a com uma dose de gua dos mares de Santragino V-ah, essa gua dos mares de Santragino1., diz. Ah, os peixes de Santragino1. 

Deixe que trs cubos de Megagim Arturiano sejam dissolvidos na mistura (se no foi congelado da maneira correta, perde-se a benzina). 

Deixe que quatro litros de gs dos pntanos de Falia borbulhem atravs da mistura em memria de todos aqueles mochileiros bem-aventurados que morreram de prazer nos pntanos de Falia. 

Vaca flutuar, no verso de uma colher de prata, uma dose de extrato de Hipermenta Qualactina, plena da fragrnda inebri-ante das sombrias Zonas Qualactinas, sutil, doce e mstica. 

Acrescente um dente de tigre solar algoliano. Veja-o dissolver-se, espalhando os fogos dos sis algolianos no mago do drinque. 

Jogue uma pitadinha de Znfuor. 

Acrescente uma azeitona. 

Agora  s beber... mas... com muito cuidado... 

O Guia do Mochileiro das Galxias vende bem mais que a Enciclopdia Galctica. 

-Seis chopes duplos -disse Ford Prefect ao barman do Horse and Groom. - E depressa, porque o fim do mundo est prximo. 

O barman do Horse and Groom no merecia ser tratado desse jeito, era um senhor de respeito. Ajeitou os culos e encarou Ford Prefect. Ford ignorou-o e virou-se para a janela, de modo que o barman encarou Arthur, que deu de ombros, como quem tambm no entendeu, e no disse nada. 

Ento, o barman disse: 

-Ah, ? Um belo dia pro mundo acabar. E comeou a tirar os chopes. 

Tentou outra vez., 

-E ento, o senhor vai assistir ao jogo hoje  tarde? Ford virou-se para ele. 

- No, no tem sentido -disse, e virou-se para a janela novamente.
-Quer dizer que o senhor acha que nem adianta? -insistiu o barman. -O Arsenal no tem a menor chance? 

- No, no -disse Ford. -  s que o mundo vai acabar. 
-Ah,  mesmo, o senhor j disse -respondeu o barman, olhando agora para Arthur por cima dos culos. -Seria uma boa sada para o Arsenal, escapar da derrota por causa do fim do mundo. 

Ford olhou de novo para o velho, realmente surpreso. 

- Na verdade, no -disse, franzindo a testa. O barman respirou fundo. 
-A esto, seis chopes. 
Arthur sorriu para ele, sem graa, e deu de ombros outra vez. Virou-se para trs e dirigiu um sorriso sem graa ao resto do bar, caso algum mais tivesse ouvido a conversa. 

Ningum tinha ouvido nada, e ningum entendeu por que Arthur estava sorrindo para eles daquele jeito. 

Um homem sentado ao lado de Ford no balco olhou para os dois homens, depois para os seis chopes, fez um rpido clculo de cabea, chegou a um resultado que lhe agradou e sorriu de forma boba e esperanosa para os dois. 

-Nem pensar -disse Ford -, so nossos. -Dirigiu ao homem um olhar que faria um tigre solar algoliano continuar fazendo o que estivesse fazendo. 
Ford jogou uma nota de cinco libras no balco, dizendo: 
-Pode ficar com o troco. 
-O que, cinco libras? Muito obrigado, meu senhor. 
-Voc tem dez minutos pra gastar isso. 
O barman decidiu que era melhor ir fazer outra coisa. 

-Ford -disse Arthur -, voc pode por favor me explicar que histria  essa? , 

- Beba -disse Ford. -Ainda faltam trs chopes. 
-Voc quer que eu beba trs canecos de chope na hora do almoo? O homem do lado de Ford sorriu e concordou com a cabea, satisfeito.

Ford ignorou-o e disse: 

-O tempo  uma iluso. A hora do almoo  uma iluso maior ainda. 

-Muito profundo -disse Arthur. -Essa voc devia mandar pra Selees. 

Eles tm uma pgina pra gente como voc. 

- Beba. 
-Por que trs canecos de chope de repente? 
-  um relaxante muscular, voc vai precisar. 
-Relaxante muscular? 
-Relaxante muscular. 
Arthur olhou para dentro do caneco. 
-Ser que eu fiz alguma coisa de errado hoje -disse ele -ou ser que o mundo sempre foi assim, s que eu estava encucado demais pra perceber? 

-Est bem -disse Ford. -Vou tentar explicar. H quanto tempo a gente se conhece? 

-H quanto tempo? -Arthur pensou um pouco. -Deixe ver, uns cinco anos, talvez seis. A maior parte desse tempo pareceu fazer algum sentido na poca. 

-Est bem -disse Ford. -Qual seria a sua reao se eu lhe dissesse que no sou de Guildford e sim de um pequeno planeta perto de Betelgeuse? 

Arthur deu de ombros, com indiferena. 

-Sei l -disse, bebendo um gole. -Por qu? Voc acha que  capaz de dizer uma coisa dessas? 
Ford desistiu. Realmente, no valia a pena se preocupar com aquilo naquele momento, com o fim do mundo to prximo e tudo o mais. Limitou-se a dizer: 
-Beba. -E acrescentou, como quem d uma informao como outra qualquer: -O fim do mundo est prximo. 
Arthur sorriu sem graa para o resto do bar, outra vez. O resto do bar fez cara feia para ele. Um homem lhe fez sinal para que parasse de sorrir para eles e cuidasse de sua prpria vida. 

"Hoje deve ser quinta-feira", pensou Arthur, debruando-se sobre o chope. "Nunca consegui entender qual  a das quintas-feiras." 


Captulo 3

Nessa quinta-feira em particular, alguma coisa deslocava-se silenciosamente atravs da ionosfera, muitos quilmetros acima da superfcie do planeta; alis, muitas "algumas coisas", dezenas de coisas achatadas, grandes e amarelas, cada uma do tamanho de um quarteiro de prdios, silenciosas como pssaros. Voavam serenas, banhando-se nos raios eletromagnticos emitidos pela estrela Sol, sem pressa, agrupando-se, preparando-se. 

O planeta l embaixo ignorava sua presena quase completamente, o que era justamente o que elas queriam. Aquelas coisas amarelas passaram por Goonhilly despercebidas; sobrevoaram Cabo Canaveral sem que os radares acusassem nada; Woomera e Jodrell Bank ignoraram sua passagem -uma pena, j que era exatamente esse tipo de coisa que estavam procurando h muitos anos. 

A nica coisa que acusou sua presena foi um aparelhinho preto chamado sensormtico subeta, que ficou piscando discretamente na escurido da mochila de couro que Ford Prefect sempre levava consigo. O contedo da mochila de Ford era bastante interessante: se algum fsico terrqueo olhasse dentro dela, seus olhos saltariam para fora das rbitas. Era para esconder essas coisas que Ford sempre jogava por cima de tudo, na mochila, um ou dois roteiros amassados de peas de teatro, dizendo que estava estudando um papel para uma pea. Alm do sensormtico subeta e dos roteiros, Ford levava um polegar eletrnico -um basto curto e grosso, preto, liso e fosco, com interruptores e ponteiros numa das extremidades -e um aparelho que parecia uma calculadora eletrnica das grandes. Este ltimo possua cerca de 100 pequenos botes planos e uma tela quadrada de dez centmetros, na qual podia ser exibida instantaneamente qualquer uma dentre um milho de "pginas". Parecia um aparelho absurdamente complicado, e esse era um dos motivos pelos quais a capa plstica do dispositivo trazia a frase NO ENTRE EM PNICO em letras grandes e amigveis. O outro motivo era o fato de que este aparelho era na verdade o mais extraordinrio livro jamais publicado pelas grandes editoras da Ursa Menor -O Guia do Mochileiro das Galxias. O livro era publicado sob a forma de um microcomponente eletrnico submson porque, se fosse impresso de forma convencional, um mochileiro interestelar iria precisar de diversos prdios desconfortavelmente grandes para acomodar sua biblioteca. No fundo da mochila de Ford Prefect havia algumas esferogrficas, um bloco de anotaes e uma toalha de banho grande, comprada na Marks and Spencer. 

O Guia do Mochileiro das Galxias faz algumas afirmaes a respeito das toalhas. 

Segundo ele, a toalha  um dos objetos mais teis para um mochileiro interestelar. Em parte devido a seu valor prtico: voc pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmrea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores martimos; voc pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desrtico de Kakrafoon; pode us-la como vela para descer numa minijangada as guas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedec-la e utiliz-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrol-la em torno da cabea para proteger-se de emanaes txicas ou para evitar o olhar da Terrvel Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se voc no pode v-lo, ele tambm no pode ver voc -estpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); voc pode agitar a toalha em situaes de emergncia para pedir socorro; e naturalmente pode us-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa. 

Porm o mais importante  o imenso valor psicolgico da toalha. Por algum motivo, quando um estrito (isto , um no-mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem tambm escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bssola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc, etc. Alm disso, o estrito ter prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros, que o mochileiro por acaso tenha "acidentalmente perdido". O que o estrito vai pensar  que, se um sujeito  capaz de rodar por toda a Galxia, acampar, pedir carona, lutar contra terrveis obstculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde est sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito. 

Da a expresso que entrou na gria dos mochileiros, exemplificada na seguinte frase: "Vem c, voc sancha esse cara dupal, o Ford Prefect? Ta um mingo que sabe onde guarda a toalha." (Sancha: conhecer, estar ciente de, encontrar, ter relaes sexuais com; dupal: cara muito incrvel; mingo: cara realmente muito incrvel.) 

Bem enroladinho na toalha, dentro da mochila de Ford Prefect, o sensormtico subeta comeou a piscar mais depressa. Quilmetros acima da superfcie do planeta, as enormes algumas coisas amarelas comearam a se espalhar. No observatrio de Jodrell Bank, algum resolveu que era hora de tomar um ch. 

-Voc tem uma toalha a? -Ford perguntou a Arthur de repente. 

Arthur, lutando com seu terceiro caneco de chope, olhou ao redor. 

-Uma toalha? Bem, no... por que, era pra eu ter? -Arthur havia desistido de sentir-se surpreso; pelo visto, no adiantava nada. 

Ford estalou a lngua, irritado. 

- Beba -insistiu. 

Naquele momento, o rudo surdo de alguma coisa se espatifando, vindo da rua, misturou-se ao murmrio de vozes dentro do bar,  msica da jukebox e aos soluos do homem ao lado de Ford, para quem ele acabara pagando um usque. 

Arthur engasgou-se com a cerveja e ps-se de p num salto. 

-O que foi isso? -gritou. 

- No se preocupe -disse Ford. - Eles ainda no comearam. 
-Ainda bem -disse Arthur, relaxando. 

-Deve ser s a sua casa sendo demolida -disse Ford, virando seu ltimo chope. 

-O qu? -berrou Arthur. De repente quebrou-se o encantamento que Ford lanara sobre ele. Arthur olhou ao redor, desesperado, e correu at a janela.  Meu Deus,  isso mesmo! Esto derrubando a minha casa. Que diabo eu estou fazendo aqui neste bar, Ford? 

-A essa altura do, campeonato, no tem muita importncia -disse Ford. - 
Deixe que eles se divirtam. 

-Isso l  diverso? -gritou Arthur. -Diverso! 

Ele olhou de novo pela janela e constatou que ambos estavam falando sobre a mesma coisa. 

-Diverso, o cacete! -berrou Arthur, e saiu correndo do bar furioso, brandindo uma caneca de chope quase vazia. Naquele dia, Arthur definitivamente no fez amigos no bar. 

-Parem, seus vndalos! Destruidores de lares! -gritava Arthur. -Seus visigodos malucos, parem com isso! 

Ford teria de ir atrs dele. Virou-se depressa para o barman e pediu-lhe quatro pacotes de amendoins. 

-Tome a -disse o barman, colocando os pacotes no balco. -So 28 pence, por favor. 

Ford foi generoso: deu ao homem mais uma nota de cinco libras e disse que ficasse com o troco. O barman olhou para a nota e depois para Ford. De repente estremeceu: teve momentaneamente uma sensao que no compreendeu, porque nenhum terrqueo jamais a experimentara antes. Em momentos de grande tenso, todas as formas de vida existentes emitem um pequeno sinal subliminar. Este sinal simplesmente comunica uma noo exata e quase pattica do quanto a criatura em questo est longe de seu local de nascimento. Na Terra, nunca se pode estar a mais de 26 mil quilmetros do local de nascimento, uma distncia no muito grande, na verdade, e portanto esses sinais so demasiadamente fracos para serem percebidos. Ford Prefect estava naquele momento sob grande tenso, e nascera a 600 anos-luz dali, perto de Betelgeuse. 

O barman ficou desnorteado por um momento, atingido pela sensao chocante e incompreensvel de distncia. Ele no sabia o que significava aquilo, mas olhou para Ford Prefect com mais respeito, quase com reverncia. 

-O senhor est falando srio? -perguntou ele, sussurrando baixinho, o que -teve o efeito de fazer com que todos se calassem no bar. -O senhor acha que o mundo vai mesmo acabar? 

-Vai -disse Ford. 

-Mas hoje? 

Ford havia se recuperado. Sentia-se mais irreverente do que nunca. 

-  -disse, alegre -, daqui a menos de dois minutos, na minha opinio. O barman no conseguia acreditar na conversa que estava tendo, mas tambm no conseguia acreditar na sensao que acabara de experimentar. 

-Podemos fazer algo a respeito? 

-No, nada -respondeu Ford, enfiando os amendoins no bolso. Algum de repente soltou uma gargalhada no bar silencioso, rindo da burrice de todos. 

O homem ao lado de Ford j estava meio alto. Com esforo, focalizou os olhos em Ford. 

-Eu pensava -disse ele -que quando o mundo acabasse todo mundo tinha que deitar no cho ou enfiar a cabea num saco de papel, ou coisa parecida. 

-Se voc quiser, pode -disse Ford. 

-Foi o que disseram pra gente no exrcito -disse o homem, e seus olhos comearam sua longa jornada de volta para o copo de usque. 

-Isso vai ajudar? -perguntou o barman. 

-No -disse Ford, com um sorriso simptico. -Com licena, tenho que ir embora -deu adeus e saiu. 

O bar ainda permaneceu em silncio por um instante, e depois o homem da gargalhada estrepitosa atacou de novo, deixando todos sem graa. A garota que ele arrastara at o bar meia hora antes j o detestava cordialmente a essa altura e provavelmente ficaria muito satisfeita se soubesse que, dentro de uns 90 segundos, ele iria se evaporar em um sopro de hidrognio, oznio e monxido de carbono. Porm, quando chegasse a hora, ela tambm estaria ocupada demais se evaporando para se preocupar com isso. 

O barman pigarreou. Quando se deu conta, estava dizendo o seguinte: 

-ltimos pedidos, por favor. 

As enormes mquinas amarelas comearam a descer e a acelerar. Ford sabia que elas estavam vindo. No era assim que ele queria voltar para o seu planeta. 

Correndo pela alameda, Arthur j estava quase chegando em casa. No percebeu como havia esfriado de repente, no percebeu o vento, no percebeu a chuva torrencial e irracional que comeara a cair de repente. S viu os tratores passando por cima dos destroos do que fora sua casa. 

-Seus brbaros! -gritou. -Vou processar o conselho municipal e arrancar deles at o ltimo centavo! Vocs vo ser enforcados, arrastados e esquartejados1. E chicoteados! E cozidos em leo fervente... at... at... at vocs no agentarem mais. 

Ford ainda estava correndo atrs dele, muito depressa. Muito, muito depressa. 

-E depois tudo de novo! -gritou Arthur. -E quando terminar vou pegar todos os pedacinhos e pisar em cima deles! 

Arthur no percebeu que os homens estavam correndo dos tratores, e tambm no percebeu que o Sr. Prosser olhava para o cu desesperado. O que o Sr. Prosser havia percebido era que as coisas amarelas enormes estavam atravessando as nuvens, ruidosamente. Coisas amarelas impossivelmente enormes. 

-E vou continuar pulando neles -gritou Arthur, ainda correndo -at eu ficar cheio de bolhas, ou at eu pensar numa coisa ainda mais desagradvel pra fazer, a... 

Arthur tropeou e caiu para a frente, rolou e terminou deitado de costas no cho. Finalmente percebeu que estava acontecendo alguma coisa. Apontou para o cu. 

-Que diabo  isso? -gritou 

Fosse o que fosse, a coisa atravessou o cu com toda a sua monstruosidade amarela, rasgou o cu com um estrondo estonteante e sumiu na distncia, deixando atrs de si um vcuo que se fechou com um bang! alto o suficiente para empurrar os ouvidos para dentro do crebro. 

Outra coisa amarela veio em seguida e fez exatamente a mesma coisa, s que ainda mais alto. 

 difcil dizer exatamente o que as pessoas na superfcie do planeta estavam fazendo agora, porque na verdade elas prprias no sabiam direito o que estavam fazendo. Nada fazia sentido -correr para dentro de casa, correr para fora de casa, gritar surdamente no meio da barulheira. Por todo o mundo, as ruas das cidades explodiam de gente, carros se enfiavam uns nos outros quando o barulho desabava sobre eles e depois se afastava, como um gigantesco maremoto sobre serras e vales, desertos e oceanos, parecendo achatar tudo aquilo que atingia. 

Apenas um homem permanecia parado, olhando para o cu, com uma tristeza imensa nos olhos e protetores de borracha nos ouvidos. Ele sabia exatamente o que estava acontecendo, e j o sabia desde que seu sensormtico subeta comeara a piscar no meio da noite ao lado de seu travesseiro, fazendo-o acordar assustado. Era por isso que ele vinha esperando esses anos todos, mas quando decifrou os sinais, sozinho em seu pequeno quarto escuro, sentiu um frio no corao. De todas as raas existentes na Galxia que podiam vir fazer uma visitinha ao planeta Terra, pensou ele, por que tinham que ser justamente os vogons? 

Fosse como fosse, ele sabia o que tinha de fazer. Quando a nave vogon sobrevoou o lugar onde ele estava, Ford abriu sua mochila. Jogou fora um exemplar de Jos e a Extraordinria Tnica de Sonhos Tecnicolor e um exemplar de Godspell: ele no ia precisar daquilo no lugar para onde ia. Tudo estava pronto, tudo estava preparado. 

Ele sabia onde estava sua toalha. 

Um silncio sbito tomou conta da Terra, talvez pior ainda que o barulho. Por algum tempo, no aconteceu nada. 

As grandes espaonaves pairavam imveis no cu, sobre todas as naes da Terra. Pairavam imveis, imensas, pesadas, completamente paradas no cu, uma blasfmia contra a natureza. Muitas pessoas entraram em estado de choque quando suas mentes tentaram entender o que estavam vendo. As naves pairavam imveis no cu da mesma forma como os tijolos no o fazem. 

E continuava no acontecendo nada. 

Ento ouviu-se um leve assobio, um sbito assobio espaoso de fundo sonoro ao ar livre. Todos os aparelhos de som do mundo, todos os rdios, todas as televises, todos os gravadores, todos os alto-falantes, de agudos, graves ou freqncias mdias, em todo o mundo, silenciosamente se ligaram. 

Todas as latinhas, todas as latas de lixo, todas as janelas, todos os carros, todas as taas de vinho, todas as chapas de metal enferrujado, tudo foi ativado, funcionando como uma caixa de ressonncia acusticamente perfeita. 

Antes de ser destruda, a Terra assistiria a uma demonstrao da perfeio absoluta em matria de reproduo sonora, o maior sistema de som jamais construdo. Mas no se ouviu um concerto, nenhuma msica, nenhuma fanfarra, e sim uma simples mensagem. 

-Povo da Terra, ateno, por favor - disse uma voz, e foi maravilhoso. Som quadrafnico perfeito, com nveis de distoro to baixos que o mais corajoso dos homens no conseguiria conter uma lgrima. 
-Aqui fala Prostetnic Vogon Jeltz, do Conselho de Planejamento do Hiperespao Galctico -prosseguiu a voz. - Como todos vocs certamente j sabem, os planos para o desenvolvimento das regies perifricas da Galxia exigem a construo de uma via expressa hiperespacial que passa pelo seu sistema estelar e infelizmente o seu planeta  um dos que tero de ser demolidos. O processo levar pouco menos de dois minutos terrestres. Obrigado. 
O sistema de som voltou ao silncio. 

Um terror cego se apoderou de toda a populao da Terra. O terror transmitia-se lentamente atravs das multides, como se fossem limalhas de ferro sobre uma chapa de madeira e houvesse um m deslocando-se embaixo da madeira. Instaurou-se novamente o pnico, uma vontade desesperada de fugir, s que no havia para onde. 

Observando o que estava acontecendo, os vogons ligaram o sistema de som outra vez. Disse a voz: 

-Esta surpresa  injustificvel. Todos os planos do projeto, bem como a ordem de demolio, esto em exposio no seu departamento local de planejamento, em Alfa do Centauro, h 50 dos seus anos terrestres, e portanto todos vocs tiveram muito tempo para apresentar qualquer reclamao formal, e agora  tarde demais para criar caso. O sistema de som foi desligado novamente e seu eco foi morrendo por todo o planeta. As naves imensas comearam a virar lentamente no cu, com facilidade. Na parte de baixo de cada nave abriu-se uma escotilha, um quadrado negro vazio. 

A esta altura, algum tinha conseguido ligar um transmissor de rdio, localizar uma freqncia e enviar uma mensagem s naves vogons, falando em nome do planeta. Ningum jamais ouviu o que foi dito, apenas a resposta. O imenso sistema de som voltou a transmitir. A voz estava irritada: 

-Como assim, nunca estiveram em Alfa do Centauro? Ora bolas, humanidade, fica s a quatro anos-luz daqui] Desculpem, mas se vocs no se do ao trabalho de se interessar pelas questes locais, o problema  de vocs. -Aps uma pausa, disse: -Energzar os raios demolidores. 

Das escotilhas saram fachos de luz. 

-Diabo de planeta aptico -disse a voz. -No d nem pra ter pena. E o sistema de som foi desligado. 
Houve um silncio terrvel. Houve um rudo terrvel. Houve um silncio terrvel. 
A Frota de Construo Vogon desapareceu no negro espao estrelado. 


Captulo 4


Longe dali, no brao oposto da Galxia, a uma distncia de 500 mil anos-luz da estrela Sol, Zaphod Beeblebrox, presidente do Governo Imperial Galctico, navegava pelos mares de Damogran. Seu barco delta com drive inico brilhava  luz do sol de Damogran. 

Damogran, o quente; Damogran, o remoto; Damogran, o quase completamente desconhecido para todos. 

Damogran, morada secreta da nave Corao de Ouro. 

O barco deslizava rapidamente sobre a gua. Ainda levaria algum tempo para chegar a seu destino, porque a geografia de Damogran no  nada prtica. Consiste apenas em algumas ilhas desertas de ^tamanho mdio a grande, separadas por oceanos de rara beleza, mas de uma vastido chatssima. 

O barco seguia em frente. 

Devido a sua incmoda geografia, Damogran sempre foi um planeta deserto. Foi por isso que o Governo Imperial Galctico escolheu Damogran para o projeto Corao de Ouro, porque o planeta era muito deserto e o projeto Corao de Ouro era muito secreto. O barco deslizava rpido pela superfcie do mar, o mar que separava as principais ilhas do nico arquiplago de tamanho aproveitvel em todo o planeta. Zaphod Beeblebrox vinha do pequeno cosmoporto da ilha da Pscoa (o nome era uma coincidncia sem nenhum significado -em galacts, pscoa quer dizer pequeno, plano e castanho-claro) para a ilha do projeto Corao de Ouro, cujo nome era Frana, em mais uma coincidncia sem nenhum significado. 

Um dos efeitos colaterais do projeto Corao de Ouro era uma srie de coincidncias sem significado. 

Mas no era por coincidncia que aquele dia, o dia da coroao do projeto, o grande dia do lanamento, o dia em que a nave Corao de Ouro seria finalmente revelada a uma Galxia maravilhada, era tambm um dia muito especial para Zaphod Beeblebrox. Foi pensando nesse dia que ele havia decidido concorrer  Presidncia, uma deciso que causou grande surpresa em toda a Galxia Imperial -Zaphod Beeblebrox? Presidente? No aquele Zaphod Beeblebrox? Ele, presidente?* Muitos encararam o fato como prova de que todo o universo havia afinal pirado completamente. 

Zaphod sorriu e aumentou a velocidade do barco. 

Zaphod Beeblebrox, aventureiro, ex-hippie, bon vivant, (trambiqueiro?, possivelmente) manaco por autopromoo, pssimo em relacionamentos pessoais, freqentemente considerado um doido varrido. 

* Presidente: o nome oficial do cargo  presidente do Governo Imperial Galctico. O termo Imperial  mantido embora seja atualmente um anacronismo. O imperador hereditrio est quase morto) h muitos sculos. Nos ltimos instantes de seu coma, ele foi colocado num campo de estase, que o mantm num estado de imutabilidade perptua. Todos os seus herdeiros j morreram h muito tempo, o que significa que, sem ter havido nenhuma grande convulso poltica, o centro do poder foi deslocado de forma simples e eficaz para escales inferiores, sendo agora aparentemente atribuio de um rgo cujos membros antes atuavam como simples conselheiros do imperador -uma assemblia governamental eleita, chefiada por um presidente eleito por ela. Na verdade, no  a que est o poder, em absoluto. O presidente, em particular,  simplesmente uma figura pblica: no detm nenhum poder. Ele  aparentemente escolhido pelo governo, mas as qualidades que ele deve exibir nada tm a ver com liderana. Ele deve  possuir um sutil talento para provocar indignao. Por esse motivo, o presidente  sempre uma figura polmica, sempre uma personalidade irritante, porm fascinante ao mesmo tempo. No cabe a ele exercer o poder, e sim desviar a ateno do poder. Com base nesses critrios, Zaphod Beeblebrox  um dos melhores presidentes que a Galxia j teve -pois j passou dois dos dez anos de seu mandato na cadeia, condenado por fraude. Pouqussimas pessoas sabem que o presidente e o governo praticamente no tm nenhum poder, e, dessas pouqussimas pessoas, apenas seis sabem onde , de fato, exercido o verdadeiro poder poltico. A maioria das outras est convencida de que, em ltima instncia, o poder  exercido por um computador. Elas no poderiam estar mais erradas. 

Presidente? 

Mas o universo no havia enlouquecido, pelo menos no em relao a isso. 

Apenas seis pessoas em toda a Galxia conheciam o princpio no qual se baseava o governo galctico, e sabiam que, uma vez proclamada a inteno de Zaphod Beeblebrox de concorrer  Presidncia, a coisa estava mais ou menos resolvida: ele tinha tudo para ser presidente. 

O que elas realmente no entendiam era por que Zaphod resolvera se candidatar. 

Zaphod deu uma guinada sbita com o barco, levantando um lenol d'gua. 

O dia havia chegado; o dia em que todos entenderiam quais haviam sido as intenes de Zaphod. Aquele dia era a razo de ser da presidncia de Zaphod Beeblebrox. Era tambm o dia em que ele completava 200 anos de idade, mas isto era apenas mais uma coincidncia sem qualquer significado. 

Enquanto seu barco atravessava os mares de Damogran, ele sorria de leve, pensando no dia maravilhoso e divertido que tinha pela frente. Relaxou os msculos e descansou os dois braos preguiosamente no encosto, e ficou dirigindo o barco com um brao adicional que ele instalara recentemente embaixo de seu brao direito, para melhorar seu desempenho no esquiboxe. 

-Sabe -cantarolou ele para si prprio -, voc  realmente um cara incrvel. 

Mas seus nervos cantavam uma cano mais estridente do que um apito para chamar cachorro. 

A ilha da Frana tinha cerca de 30 quilmetros de comprimento por nove de largura; era arenosa e em forma de crescente. Na verdade, dava a impresso de ser menos uma ilha propriamente dita do que uma simples maneira de definir o formato e a curvatura de uma grande baa. A impresso era ressaltada pelo fato de que a costa interior do crescente consistia apenas em penhascos ngremes. Do alto do penhasco, o terreno seguia um declive gradual at a costa oposta, nove quilmetros adiante. 

No alto dos penhascos havia um comit de recepo. 

Era constitudo basicamente de engenheiros e pesquisadores que haviam construdo a nave Corao de Ouro -humanides em sua maioria, mas havia um ou outro atomeiro reptilide, dois ou trs maximegalacticianos verdes silfides, um ou dois fissucturalistas octpodes e um Huluvu (o Huluvu  uma tonalidade de azul superinteligente). Todos, com exceo do Huluvu, trajavam jalecos de laboratrio de gala, multicoloridos e resplandecentes; o Huluvu fora temporariamente refratado num prisma capaz de ficar em p, especialmente para a ocasio. 

Havia um clima de enorme empolgao entre eles. Trabalhando em equipe, haviam atingido e ultrapassado os limites ltimos das leis fsicas, reestruturado a configurao fundamental da matria, forado, torcido e partido as leis das possibilidades e impossibilidades, mas apesar disso o que mais os entusiasmava era a oportunidade de conhecer um homem com uma faixa alaranjadam volta do pescoo (o distintivo tradicional do presidente da Galxia). Talvez at no fizesse muita diferena se eles soubessem exatamente quanto poder exercia o presidente da Galxia: absolutamente nenhum. Apenas seis pessoas na Galxia sabiam que a funo do presidente no era exercer poder, e sim desviar a ateno do poder. 

Zaphod Beeblebrox era surpreendentemente bom no seu trabalho. 

A multido exultava, deslumbrada pelo sol e pela percia do presidente, que fazia o barco contornar o promontrio e entrar na baa. O barco brilhava ao sol, ao deslizar pela superfcie em curvas abertas. 

Na verdade, o barco no precisava encostar na gua, j que ele se apoiava numa camada de tomos ionizados, mas para fazer efeito ele vinha equipado com umas quilhas finas que podiam ser baixadas para dentro d'gua. Elas levantavam lenis d'gua no ar e rasgavam sulcos profundos no mar, que espumava na esteira do barco. 

Zaphod adorava fazer efeitos: era sua especialidade. 

Virou a roda do leme subitamente. A embarcao descreveu uma curva fechada bem rente ao penhasco e parou, balanando ao sabor das ondas suaves. Segundos depois, Zaphod j estava no tombadilho, acenando e sorrindo para mais de trs bilhes de pessoas. Os trs bilhes de pessoas no estavam fisicamente presentes, porm assistiam a tudo atravs dos olhos de uma pequena cmera-rob tridimensional, que pairava no ar ali perto, subserviente. As proezas do presidente faziam muito sucesso junto ao pblico: era para isso que elas serviam, mesmo. 

Zaphod sorriu outra vez. Trs bilhes e seis pessoas no sabiam, mas a proeza daquele dia seria mais incrvel do que qualquer coisa que elas esperassem. 

A cmera-rob aproximou-se para fazer um close da cabea mais popular (ele tinha duas) do presidente, e ele acenou outra vez. Sua aparncia era mais ou menos humanide, afora a segunda cabea e o terceiro brao. Seus cabelos claros e despenteados apontavam para todas as direes, seus olhos azuis brilhavam com um sentido absolutamente incompreensvel e seus queixos estavam quase sempre com a barba por fazer. 

Um globo transparente de sete metros de altura flutuava ao lado de seu barco, balanando as ondas, brilhando ao sol. Dentro dele flutuava um amplo sof semicircular, estofado com um esplndido couro vermelho. Quanto mais o globo balanava, mais o sof permanecia completamente imvel, como se fosse um rochedo transformado em sof. Mais uma vez, o objetivo principal daquilo era fazer efeito. 

Zaphod atravessou a parede do globo e refestelou-se no sof. Ps dois braos sobre o encosto do sof, e com o terceiro espanou um pouco de poeira que tinha no joelho. Suas cabeas olharam ao redor, sorridentes; ps os ps sobre o sof. "Se no conseguisse se conter, ia comear a gritar", pensou ele. 

Debaixo da bolha a gua fervia, subia, esguichava. A bolha elevava-se no ar, balanando-se na coluna de gua. Subia mais e mais, refletindo raios de sol em direo ao penhasco. Subia impulsionada pela gua que esguichava debaixo dela e caa de volta na superfcie do mar, dezenas e dezenas de metros abaixo. 

Zaphod sorriu, imaginando o efeito visual. 

Um meio de transporte absolutamente ridculo, porm belssimo. 

No alto do penhasco o globo parou por um instante, pousou numa rampa gradeada, rolou at uma pequena plataforma cncava e l parou, por fim. 

Aplaudido entusiasticamente, Zaphod Beeblebrox saiu da bolha. Sua faixa alaranjada brilhava ao sol. 

O presidente da Galxia havia chegado. 

Esperou que os aplausos morressem e levantou a mo, saudando a multido. 

-Oi -disse. 

Uma aranha do governo chegou-se at ele e tentou lhe entregar uma cpia de seu discurso previamente preparado. As pginas 3 a 7 da verso original estavam naquele momento flutuando no mar de Damogran, a uns dez quilmetros da baa. As pginas 1 e 2 haviam sido encontradas por uma guia-de-crista-frondosa de Damogran e j haviam sido incorporadas a um novo e extraordinrio tipo de ninho que a guia inventara. Era construdo basicamente de papier mch, e era praticamente impossvel para um filhote de guia recm-sado do ovo escapar de dentro dele. A guia-de-crista-frondosa de Damogran ouvira vagamente falar de luta pela sobrevivncia da espcie, mas no queria nem saber dessa histria. 

Zaphod Beeblebrox no ia precisar de seu discurso preparado e delicadamente recusou a cpia oferecida pela aranha. 

-Oi -repetiu. 

Todo mundo sorriu para ele, ou pelo menos quase todo mundo. Viu Trillian no meio da multido. Era uma garota que Zaphod conhecera recentemente ao visitar um planeta, incgnito, como turista. Era esguia, morena, humanide, com longos cabelos negros e ondulados, uma boca carnuda, um narizinho estranho e saliente e olhos ridiculamente castanhos. Seu leno de cabelo vermelho, amarrado de modo diferente, e seu vestido longo e leve de seda marrom lhe davam uma aparncia vagamente rabe. No que ningum ali jamais tivesse ouvido falar nos rabes, claro. Os rabes haviam deixado de existir muito recentemente, e mesmo no tempo em que eles existiam estavam a 500 mil anos-luz de Damogran. Trillian no era ningum em particular, ou pelo menos era isso que Zaphod dizia. Ela simplesmente andava muito com ele e lhe dizia o que pensava a seu respeito. 

-Oi, meu bem -disse para ela. 

Ela lhe dirigiu um sorriso rpido e tenso e desviou o olhar. Ento olhou novamente para ele por um momento e sorriu de forma mais calorosa -mas agora ele j estava olhando para outro lado. 

-Oi -disse para um pequeno grupo de criaturas da imprensa, que estava a pouca distncia dali, ansioso para que parasse de dizer "oi" e comeasse logo a dizer coisas que eles pudessem publicar. 

Zaphod sorriu, pensando que dentro de alguns instantes ia dar a eles coisas muito interessantes, mas muito interessantes, mesmo, para publicar. 

Porm o que ele disse em seguida no interessou muito s criaturas da imprensa. Um dos funcionrios do partido conclura, irritado, que o presidente obviamente no estava a fim de ler o discurso fascinante que havia sido preparado para ele, e acionara um interruptor no controle remoto que tinha no bolso. Ao longe, uma enorme cpula branca que se destacava contra o cu rachou ao meio, abriu-se e foi lentamente dobrando-se sobre o cho. Todos ficaram boquiabertos, embora soubessem perfeitamente que aquilo ia acontecer, j que eles prprios haviam construdo a cpula. 

Embaixo dela havia uma imensa espaonave, de 150 metros de comprimento, esguia como um tnis de corrida, perfeitamente branca e estonteantemente bonita. Bem no centro dela, invisvel para quem olhava de fora, havia uma pequena caixa de ouro que continha o aparelho mais alucinante jamais concebido em toda a Galxia, o qual deu o nome  nave -o Corao de Ouro. 

-Uau! -disse Zaphod Beeblebrox ao ver a nave Corao de Ouro. Tambm, no tinha outra coisa a dizer. 

E repetiu, porque sabia que isso ia irritar a imprensa: 

-Uaul 

Toda a multido virou-se para ele, cheia de expectativa. Zaphod piscou o olho para Trillian, que alou as sobrancelhas e arregalou os olhos para ele. Ela sabia o que ele ia dizer agora, e achava-o muito exibido. 

- realmente incrvel -disse Zaphod. - realmente incrivelmente incrvel.  to incrivelmente incrvel que acho que estou com vontade de roub-la. 

Uma maravilhosa frase presidencial, absolutamente apropriada. A multido riu, satisfeita, os jornalistas apertaram os botes de suas repormticas subeta e o presidente sorriu. 

Enquanto sorria, seu corao batia desesperadamente e seus dedos tateavam a pequena bomba paralisomtica que trazia no bolso. 

De repente, no agentou mais. Virou ambos os rostos para o cu, soltou um tremendo grito, formando um acorde de terceira maior, jogou a bomba no cho e saiu correndo por entre aqueles rostos sorridentes imobilizados. 



Captulo 5


Prostetnic Vogon Jeltz no era bonito de se ver. Nem outros vogons gostavam de olhar para ele. Seu nariz alto e abobadado elevava-se acima de uma testa estreita e porcina. Sua pele verde-escura e borrachuda era grossa o suficiente para permitir-lhe jogar -e bem -o jogo da poltica do funcionalismo pblico vogon, e to resistente  gua que lhe permitia sobreviver por perodos indefinidamente longos no fundo do mar a profundidades de 300 metros, sem qualquer efeito negativo. 

O que no significa que ele sequer houvesse nadado algum dia,  claro. No tinha tempo para isso. Ele era do jeito que era porque, h bilhes de anos, quando os vogons pela primeira vez saram dos mares primevos da Vgsfera e foram arfar nas praias virgens do planeta, quando os primeiros raios do jovem e forte Vogsol os atingiu naquela manh, foi como se as foras da evoluo houvessem simplesmente desistido deles, virado para o outro lado, cheias de averso, considerando-os um erro infeliz e repulsivo. Nunca mais os vogons evoluram: no deviam sequer ter sobrevivido. 

Se sobreviveram, isto se deveu  teimosia e  fora de vontade dessas criaturas de raciocnio preguioso. Evoluo?, pensavam elas. Evoluo pra qu? E o que a natureza se recusou a fazer por eles ficou por isso mesmo, at que pudessem consertar as grosseiras inconvenincias anatmicas atravs da cirurgia. 

Enquanto isso, as foras naturais do planeta Vogsfera estavam trabalhando mais do que nunca, fazendo hora extra para compensar o erro anterior. Criaram caranguejos geis, cobertos de jias cintilantes, que os vogons comiam, quebrando suas carapaas com marretas de ferro; rvores altas, extraordinariamente esguias e coloridas, que os vogons derrubavam e queimavam para cozinhar a carne dos caranguejos; criaturas elegantes, semelhantes a gazelas, de plos sedosos e olhos orva-lhados, que os vogons capturavam para sentar em cima. Elas no serviam como meio de transporte porque suas espinhas partiam-se imediatamente, mas os vogons sentavam-se em cima delas assim mesmo. 

Assim, o planeta Vogsfera atravessou tristes milnios at que os vogons descobriram de repente os princpios do transporte interestelar. Poucos anos vogs depois, todos os vogons j haviam migrado para o aglomerado de Megabrantis, o centro poltico da Galxia, e agora constituam a poderosssima espinha dorsal do funcionalismo pblico da Galxia. Tentaram adquirir cultura, tentaram adquirir estilo e boas maneiras, mas sob quase todos os aspectos o vogon moderno pouco difere de seus ancestrais primitivos. Todo ano eles importam 27 mil caranguejos cintilantes de seu planeta nativo e passam muitas noites divertidas bebendo e esmigalhando caranguejos com marretas de ferro. 

Prostetnic Vogon Jetz era um vogon mais ou menos tpico, j que era absolutamente vil. Alm disso, no gostava de mochileiros. 

Em uma pequena e escura cabine nas entranhas mais profundas da nave capitania de Prostetnic Vogon Jetz, um fsforo acendeu-se nervosamente. O dono do fsforo no era um vogon, mas sabia tudo sobre os vogons, e tinha toda razo de estar nervoso. Chamava-se Ford Prefect.* 

Olhou ao redor, mas no dava para ver quase nada; sombras estranhas e monstruosas formavam-se e tremiam  luz bruxuleante do fsforo, mas o silncio era completo. Silenciosamente, Ford agradeceu aos dentrassis. Os dentrassis so uma tribo indisciplinada de gourmands, um povo selvagem, porm simptico. Recentemente vinham sendo empregados pelos vogons como comissrios de bordo em suas viagens mais longas, sob a condio de que ficassem na deles. 

Os dentrassis achavam isto timo, porque adoravam o dinheiro vogon, que  uma das moedas mais slidas do espao, porm detestavam os vogons. Os dentrassis s gostavam de ver um vogon quando ele estava chateado. 

Graas a esse pequeno detalhe, Ford Prefect no fora transformado numa nuvenzinha de hidrognio, oznio e monxido de carbono. 

Ford ouviu um leve gemido.  luz do fsforo, viu uma forma pesada mexendo-se no cho. Rapidamente apagou o fsforo, ps a mo no bolso, encontrou o que procurava e tirou-o do bolso. Abriu o pacote e sacudiu-o. Ajoelhou-se. A forma mexeu-se de novo. Foi;d Prefect disse: 

-Eu trouxe uns amendoins. 

* O nome original de Ford Prefect s  pronuncivel num obscuro dialeto betelgeusiano, hoje em dia praticamente extinto, devido ao Grande Desastre Hrung do Ano/Gal./Sid. 03578, que dizimou todas as antigas comunidades praxibetelenses de Betelgeuse VII. O pai de Ford foi o nico homem em todo o planeta a sobreviver ao Grande Desastre Hrung, devido a uma extraordinria coincidncia que ele jamais conseguiu explicar de modo satisfatrio. Todo o episdio est envolto em mistrio: na verdade, ningum jamais descobriu o que era um Hrung e por que ele resolveu cair em cima de Betelgeuse VII em particular. O pai de Ford, magnnimo, ignorou as nuvens de suspeita que naturalmente se formaram em torno dele e foi morar em Betelgeuse V, onde se tornou ao mesmo tempo pai e tio de Ford; em memria de seu povo agora extinto, deu-lhe um nome no antigo idioma praxibetelense. Como Ford jamais aprendeu a dizer seu nome original, seu pai terminou morrendo de vergonha, coisa que ainda  uma doena fatal em certas regies da Galxia. Na escola, seus colegas o apelidaram de Ix, o que no idioma de Betelgeuse II quer dizer "menino que no sabe explicar direito o que  um Hrung nem por que ele resolveu cair em cima de Betelgeuse VII". 

Arthur Dent mexeu-se e gemeu de novo, produzindo sons incoerentes. 

-Tome, coma um pouco -insistiu Ford, sacudindo o pacote. 

-Se voc nunca passou antes por um raio de transferncia de matria, voc deve ter perdido sal e protena. A cerveja que voc tomou deve ter protegido um pouco seu organismo. 

-Rrrrr... -disse Arthur Dent. Abriu os olhos. - Est escuro. 

-  -disse Ford Prefect -, est escuro, sim. 
-Luz nenhuma -disse Arthur Dent. -Escuro, completamente. Uma das coisas que Ford Prefect jamais conseguiu entender em relao aos seres humanos era seu hbito de afirmar e repetir continuamente o bvio mais bvio, coisas do tipo Est um belo dia, ou Como voc  alto, ou Ah, meu Deus, voc caiu num poo de dez metros de profundidade, voc est bem?. De incio, Ford elaborou uma teoria para explicar esse estranho comportamento. Se os seres humanos no ficarem constantemente utilizando seus lbios -pensou ele -, eles grudam e no abrem mais. Aps pensar e observar por alguns meses, abandonou essa teoria em favor de outra: se eles no ficarem constantemente exercitando seus lbios -pensou ele -, seus crebros comeam a funcionar. Depois de algum tempo, abandonou tambm esta teoria, por ach-la demasiadamente cnica, e concluiu que, na verdade, gostava muito dos seres humanos. Contudo, sempre ficava muitssimo preocupado ao constatar como era imenso o nmero de coisas que eles desconheciam. 

- -concordou Ford -, nenhuma luz. -Deu uns amendoins a Arthur e perguntou-lhe: -Como  que voc est se sentindo? 

-Que nem numa academia militar, em posio de sentido -disse Arthur. - A toda hora, um pedacinho de mim desmaia. 

Ford, sem entender, arregalou os olhos na escurido. 

-Se eu lhe perguntasse em que diabo de lugar a gente est -perguntou Arthur, hesitante -, eu me arrependeria de ter feito esta pergunta? 

- Estamos a salvo -disse Ford, levantando-se. 
-Ah, bom. 

-Estamos dentro de uma pequena cabine de uma das espaonaves da Frota de Construo Vogon. 

-Ah -disse Arthur. -Pelo visto, voc est empregando a expresso "a salvo" num sentido estranho que eu no conheo. Ford acendeu outro fsforo para tentar encontrar um interruptor de luz. 
Novamente surgiram sombras monstruosas. Arthur ps-se de p e abraou seus prprios ombros, apreensivo. Formas aliengenas horrveis pareciam cerc-lo; o ar estava cheio de odores ranosos que entravam em seus pulmes sem terem sido identificados, e um zumbido grave e irritante impedia que ele concentrasse sua ateno. 

-Como  que viemos parar aqui? -perguntou, tremendo um pouco. 

-Pegamos uma carona -disse Ford. 

-Espere a! -disse Arthur. -Voc est me dizendo que a gente levantou o polegar e algum monstrinho verde de olhos esbugalhados ps a cabea pra fora e disse: Oi, gente, entrem a que eu deixo vocs na sada do viaduto? 
-Bem -disse Ford -, o polegar na verdade  um sinalizador eletrnico subeta, e a sada do viaduto, no caso,  a estrela de Barnard, a seis anos-luz da Terra; mas no geral  mais ou menos isso. 

- E o monstrinho de olhos esbugalhados? 
-  verde, sim. 
-Tudo bem -disse Arthur -, mas quando eu vou voltar para casa? 

-No vai -disse Ford Prefect, e encontrou o interruptor. -Proteja os olhos... -acrescentou, e acendeu a luz. 

At mesmo Ford ficou surpreso. 

-Minha nossa! -disse Arthur. -Estamos mesmo dentro de um disco voador? 

Prostetnic Vogon Jeltz contornou com seu corpo verde e desagradvel a ponte de comando da nave. Sempre se sentia vagamente irritado aps demolir planetas povoados. Desejou que algum viesse lhe dizer que estava tudo errado, pois a ele poderia dar uma bronca e se sentir melhor. Jogou-se com todo o peso no seu banco na esperana de que ele quebrasse, dando-lhe um bom motivo para se irritar, mas o banco limitou-se a ranger, como se reclamasse. 

-V embora! -gritou ele para um jovem guarda vogon que entrava naquele instante na ponte de comando. 

O guarda desapareceu imediatamente, um tanto aliviado. Assim, no seria ele quem teria de dar a notcia que acabava de ser recebida. Era um despacho oficial informando que um novo tipo maravilhoso de espaonave estava sendo lanado naquele instante num centro de pesquisas do governo em Damogran que tornaria desnecessrias todas as vias expressas hiperespaciais. 

Outra porta abriu-se, mas dessa vez o capito vogon no gritou, porque era a porta que dava para a cozinha, onde os dentrassis trabalhavam. Uma refeio agora seria tima idia. 

Uma enorme criatura peluda entrou com uma bandeja e um sorriso de maluco. 

Prostetnic Vogon Jeltz ficou contente. Sabia que quando um dentrassi estava sorridente daquele jeito era porque havia alguma coisa acontecendo na nave que lhe daria um pretexto para ficar irritadssimo. 

Ford e Arthur olhavam ao redor. 

- Bem, o que voc acha? -perguntou Ford. 
-Meio bagunado, no ? 
Ford olhou contrafeito para os colches encardidos, copos sujos e roupas de baixo malcheirosas de aliengenas espalhadas pela cabine apertada. 
-Bem, isso aqui  uma nave de servio -disse Ford. -Estamos numa das cabines dos dentrassis. 

-Mas no eram vogons ou coisa parecida? 

- -disse Ford. -Os vogons mandam, os dentrassis cozinham. Foram eles que nos deram carona. 

- Estou meio confuso -disse Arthur. 
-D uma olhada nisso -disse Ford, sentando-se num dos colches e mexendo em sua mochila. 
Arthur apalpou o colcho nervosamente e depois sentou-se tambm: na verdade, no havia motivo para ficar nervoso, j que todos os colches cultivados nos pntanos de Sqornshel-lous Zeta so muito bem mortos e ressecados antes de serem utilizados.  muito raro um desses colches voltar  vida. 

Ford deu o livro a Arthur. 

-Que  isso? -perguntou Arthur. 

-O Guia do Mochileiro das Galxias.  uma espcie de livro eletrnico. Tem tudo sobre todos os assuntos. Informa sobre qualquer coisa. 

Arthur revirou nervosamente o aparelho. 

-Gostei da capa -disse ele. -No entre em pnico. Foi a primeira coisa sensata e inteligvel que me disseram hoje.
-Eu lhe mostro como funciona -disse Ford. Pegou o livro das mos de Arthur, que continuava a segur-lo como se fosse um pssaro morto h duas semanas, e tirou-o de dentro da capa. 

-Aperte esse boto aqui que a tela acende e aparece o ndice. Uma tela de cerca de oito por dez centmetros iluminou-se e comearam aparecer caracteres em sua superfcie. 

-Voc quer saber sobre os vogons. Ento  s digitar "vo-gon", assim. -Ford apertou umas teclas. -Veja. 

As palavras Frota de Construo Vogon apareceram em letras verdes. 

Ford apertou um grande boto vermelho embaixo da tela e um texto comeou a correr por ela, ao mesmo tempo que uma voz calma e controlada ia lendo o que estava escrito: 

"Frota de Construo Vogon. Voc quer pegar carona com vogons? Pode desistir. Trata-se de uma das raas mais desagradveis da Galxia. No chegam a ser malvolos, mas so mal-humorados, burocrticos, intrometidos e insensveis. Seriam incapazes de levantar um dedo para salvarem suas prprias avs da Terrvel Besta Voraz de Traal sem antes receberem ordens expressas atravs de um formulrio em trs vias, envi-lo, devolv-lo, pedi-lo de volta, perd-lo, encontr-lo de novo, abrir um inqurito a respeito, perd-lo de novo e finalmente deix-lo trs meses sob um monte de turfa, para depois recicl-lo como papel para acender fogo. 

A melhor maneira de conseguir que um vogon lhe arranje um drinque  enfiar o dedo na garganta dele, e a melhor maneira de irrit-lo  alimentar a Terrvel Besta Voraz de Traal com a av dele. 

Jamais, em hiptese alguma, permita que um vogon leia poemas para voc." 

Arthur ficou olhando para a tela. 

-Que livro esquisito. Ento como foi que pegamos essa carona? 

- justamente essa a questo. O livro est desatualizado -disse Ford, guardando-o dentro da capa. -Estou fazendo uma pesquisa de campo pra nova edio revista e aumentada, e uma das coisas que eu vou ter que fazer  mencionar que agora os vogons esto empregando dentrassis como cozinheiros, o que facilita as coisas pra ns. 
Uma expresso contrariada surgiu no rosto de Arthur. 

-Mas quem so esses dentrassis? 

-Gente finssima -disse Ford. -So disparado os melhores cozinheiros e os melhores preparadores de drinques, e esto se lixando pra todo o resto. E sempre do carona pras pessoas, em parte porque gostam de companhia, mas acima de tudo para irritar os vogons. O que  exatamente o tipo de coisa que voc precisa saber se  um mochileiro sem muita grana a fim de ver as maravilhas do Universo por menos de 30 dlares altairenses por dia. Meu trabalho  esse. Divertido, no ? Arthur parecia perdido. 

- incrvel -disse, olhando de testa franzida para um dos outros colches. 

-Infelizmente, fiquei parado na Terra bem mais tempo do que eu pretendia -prosseguiu Ford. -Fui passar uma semana e acabei preso l por 15 anos. 

-Mas como foi que voc chegou l? 

-Foi fcil, peguei carona com um gozador. 

-Um gozador? -. 

-Mas... que  um...? 

-Gozador? Normalmente  um filho de papai rico que no tem o que fazer. Fica zanzando por a procurando planetas que ainda no fizeram nenhum contato interestelar e vai l pirar as pessoas. 

-Pirar as pessoas? -Arthur comeou a pensar que Ford estava gostando de complicar a vida para ele. 

- -disse Ford -, fica pirando as pessoas. Vai a um lugar bem isolado onde tem pouca gente, a pousa ao lado de um pobre infeliz em que ningum jamais vai acreditar e fica andando na frente dele, com umas antenas ridculas na cabea, fazendo bip-bip e outros rudos engraados. Realmente, uma tremenda criancice. -Ford recostou-se no colcho, apoiando a cabea nas mos; aparentava estar irritantemente satisfeito consigo mesmo. 

-Ford -insistiu Arthur -, no sei se minha pergunta  idiota, mas o que  que eu estou fazendo aqui? 

- Bem, isso voc sabe -disse Ford -, eu salvei voc da Terra. 
- E o que aconteceu com a Terra? 
-Ah. Ela foi demolida. 
-Ah, sei -disse Arthur, controlado. 
-Pois . Foi simplesmente vaporizada. 
- Escute -disse Arthur -, estou meio chateado com essa notcia. 
Ford franziu a testa, e pareceu estar pensando. 
- , eu entendo -disse, por fim. 
- Eu entendo! -gritou Arthur. - Eu entendo! Ford ps-se de p num salto. 
-Olhe para o livro -insistiu ele. 
-O qu? 
-No entre em pnico. 
- No estou entrando em pnico! 
- Est, sim. 
- Est bem, estou. O que voc quer que eu faa? 
-Venha comigo e se divirta. A Galxia  um barato. S que voc vai ter que pr esse peixe no ouvido. 

-Que diabos voc quer dizer? -perguntou Arthur, de modo bastante delicado, pensou ele. 

Ford mostrou-lhe um pequeno vidro que continha um peixinho amarelo, que nadava de um lado para o outro. Arthur olhou para ele, sem entender. Queria que houvesse alguma coisa simples e compreensvel para que ele pudesse se situar. Ele se sentiria melhor se, juntamente com a roupa de baixo dos dentrassis, as pilhas de colches de Sqornshellous e o homem de Betelgeuse que lhe oferecia um peixinho amarelo para colocar no ouvido, ele pudesse ver ao menos um pacotinho de flocos de milho. Mas ele no podia; logo, ele sentia-se perdido. 

De repente ouviu-se um rudo violento, vindo de um lugar que Arthur no conseguiu identificar. Ficou horrorizado com aquele barulho, que parecia um homem tentando gargarejar e lutar contra toda uma alcatia de lobos ao mesmo tempo. 

-Pss! -disse Ford. - Escute, pode ser importante. 

-Im... importante? 

-  o comandante da nave dando um aviso. 
-Quer dizer que  assim que os vogons falam? 

- Escute! 
-Mas eu no sei falar vogon! 

- No precisa.  s pr esse peixe no ouvido. 
Ford, com um gesto rpido, levou a mo ao ouvido de Arthur, que teve de repente a desagradvel sensao de que um peixe estava se enfiando em seu conduto auditivo. Horrorizado, ficou cocando o ouvido por uns instantes, mas aos poucos seu rosto foi assumindo uma expresso maravilhada. Estava tendo uma experincia auditiva equivalente a ver uma representao de duas silhuetas negras e de repente passar a entend-la como um candelabro branco, ou de olhar para um monte de pontos coloridos e de repente ver neles o nmero seis, o que significa que seu oculista vai cobrar uma nota preta para voc trocar as lentes dos culos. 

Arthur continuava ouvindo aquela mistura de gritos e gar-garejos, s que de repente aquilo de algum modo havia se tornado perfeitamente inteligvel.
Eis o que ele ouviu..
. 


Captulo 6


Grito grito gargarejo grito gargarejo grito grito grito gar-garejo grito gargarejo grito grito gargarejo gargarejo pito gargarejo gargarejo gargarejo grito slurpt aaaaaaargh se divertindo. Repetindo mensagem. Aqui fala o comandante desta nave, por isso parem de fazer o que estiverem fazendo e prestem ateno. Em primeiro lugar, nossos instrumentos acusam a presena de dois mochileiros a bordo. Oi; mochileiros, onde quer que estejam. Eu gostaria de deixar bem claro que vocs no so em absoluto bem-vindos a bordo. Eu trabalhei duro para chegar aonde estou hoje e no virei comandante de uma nave de construo vogon apenas pra servir de txi para aproveitadores degenerados. Enviei uma equipe de busca e assim que vocs forem encontrados sero expulsos da nave. Se tiverem muita sorte, lerei pra vocs alguns dos meus poemas primeiro. 

"Em segundo lugar, estamos prestes a saltar para o hiperespao e seguir rumo  estrela de Barnard. Ao chegar l, vamos ficar na oficina durante 72 horas para reparos e ningum sair da nave durante este perodo. Repito: todas as licenas de desembarque esto canceladas. Acabo de sofrer uma desiluso amorosa. Logo, no quero ver ningum se divertindo. Fim da mensagem." 

O rudo cessou. 

Arthur constatou, envergonhado, que estava deitado no cho, todo encolhido, feito uma bola, com os braos apertados em torno da cabea. Sorriu, meio sem graa. 

-Sujeito encantador -disse ele. -Gostaria de ter uma filha, s pra proibir que ela se casasse com um deles... 

-No seria preciso -disse Ford. -Os vogons tm menos sex appeal que um desastre de carro. No, no se mexa -acrescentou quando Arthur comeou a se esticar. - melhor ficar assim mesmo para se preparar pra entrar no hiperespao.  uma sensao desagradvel, como uma bebida. 

-O que h de desagradvel em uma bebida? 

-Pergunte como um copo d'gua se sente. Arthur pensou um pouco. 

-Ford. 

-Que ? 

-O que  que esse peixe est fazendo no meu ouvido? 

- Est traduzindo pra voc.  um peixe-babel. Consulte o livro, se quiser. 
Jogou o Guia do Mochileiro para Arthur e depois encolheu-se todo, em posio fetal, preparando-se para o salto para o hiperespao. 

Nesse instante, o crebro de Arthur se abriu em dois. 

Seus olhos viraram-se do avesso. Seus ps comearam a escorrer do topo do crnio. 

A cabine ao seu redor achatou-se, rodopiou, desapareceu, fazendo com que Arthur fosse chupado para dentro de seu prprio umbigo. 

Estavam passando pelo hiperespao. 

"O peixe-babel", disse O Guia do Mochileiro das Galxias, baixinho, " pequeno, amarelo e semelhante a uma sanguessuga, e  provavelmente a criatura mais estranha em todo o Universo. Alimenta-se de energia mental, no daquele que o hospeda, mas das criaturas ao redor dele. Absorve todas as freqncias mentais inconscientes desta energia mental e se alimenta delas, e depois expele na mente de seu hospedeiro uma matriz teleptica formada pela combinao das freqncias mentais conscientes com os impulsos nervosos captados dos centros cerebrais responsveis pela fala do crebro que os emitiu. Na prtica, o efeito disto  o seguinte: se voc introduz no ouvido um peixe-babel, voc compreende imediatamente tudo o que lhe for dito em qualquer lngua. Os padres sonoros que voc ouve decodificam a matriz de energia mental que o seu peixe-babel transmitiu para sua mente. 

"Ora, seria uma coincidncia to absurdamente improvvel que um ser to estonteantemente til viesse a surgir por acaso, por meio da evoluo das espcies, que alguns pensadores vem no peixe-babel a prova definitiva da inexistncia de Deus. 

"O raciocnio  mais ou menos o seguinte: 'Recuso-me a provar que eu existo', diz Deus, 'pois aprova nega a f, e sem f no sou nada.' 

"Diz o homem: 'Mas o peixe-babel  uma tremenda bandeira, no ? Ele no poderia ter evoludo por acaso. Ele prova que voc existe, e portanto, conforme o que voc mesmo disse, voc no existe. QED*.' 

"Ento Deus diz: 'Ih, no  que eu no tinha pensado nisso?' E imediatamente desaparece, numa nuvenzinha de lgica. 

"'Puxa, como foi fcil', diz o homem, e resolve aproveitar e provar que o preto  branco, mas  atropelado ao atravessar fora da faixa de pedestres. 

"A maioria dos telogos acha que este argumento  uma asneira, mas foi com base nela que Oolon Colluphid fez uma fortuna, usando-a como tema central de seu best-seller Sai Dessa, Deus. 

"Enquanto isso, o pobre peixe-babel, por derrubar os obstculos  comunicao entre os povos e culturas, foi o maior responsvel por guerras sangrentas, em toda a histria da criao." 

Arthur gemeu baixinho. Horrorizou-se ao constatar que a passagem pelo hiperespao no o matara. Agora estava a seis anos-luz do lugar onde se encontraria a Terra, se ela ainda existisse. 

*Do latim quod emt demonstrandum (como queremos demonstrar). (N.T.) 

A Terra. 
Vises de seu planeta flutuavam em sua mente nauseada. No havia como apreender com sua imaginao a idia de que toda a Terra deixara de existir, era uma idia grande demais. Testou seus sentimentos, pensando que seus pais e sua irm no existiam mais. Nenhuma reao. Pensou em todas as pessoas que conhecera bem. Nenhuma reao. Ento pensou num estranho que estivera parado atrs dele na fila do supermercado, dois dias antes, e de repente sentiu uma pontada -o supermercado deixara de existir, com todos que estavam dentro dele. A Coluna de Nelson havia desaparecido! Havia desaparecido e no haveria uma comoo popular, porque no restava ningum para fazer uma comoo. Dali em diante, a Coluna de Nelson s existia em sua mente. A Inglaterra s existia em sua mente -a qual estava enfiada naquela cabine mida e fedorenta, numa espaonave de metal. Sentiu-se invadido por uma onda de claustrofobia. 

A Inglaterra no existia mais. Isso ele j entendia -de algum modo conseguira entender. Tentou de novo: a Amrica no existe mais. No conseguia entender isso. Resolveu comear com coisas pequenas, de novo. Nova York no existia mais. Nenhuma reao. Na verdade, no fundo ele nunca acreditara mesmo na existncia de Nova York. "O dlar", pensou ele, "caiu completamente." Isso lhe provocou um pequeno tremor. "Todos os filmes de Humphrey Bogart desapareceram", pensou ele, e esta idia lhe causou um choque desagradvel. "O McDonalds", pensou. "No existe mais nenhum Big Mac." 

Desmaiou. Quando voltou a si, um segundo depois, chorava, chamando sua me. 

De repente, ps-se de p, com um gesto violento. 

-Ford! 

Ford, que estava sentado num canto da cabine, cantarolando, olhou para ele. A parte da viagem em que a nave s se deslocava no espao sempre lhe parecera muito chata. 

-Que foi? -perguntou ele. 

-Se voc est fazendo pesquisa pra esse livro e se voc esteve na Terra, ento voc deve ter algum material sobre a Terra. 

- , deu pra aumentar um pouco o verbete original, sim. 

-Deixe-me ver o que estava nessa edio, tenho que ver. 

- Est bem. - Estendeu o livro a Arthur de novo. Arthur segurou o livro, tentando fazer com que suas mos parassem de tremer. Apertou o boto da pgina que o interessava. A tela iluminou-se, piscou e exibiu uma pgina. Arthur ficou olhando para ela. 

- No tem nadai -exclamou. 
Ford olhou por cima do ombro de Arthur. 
-Tem sim. Olhe l embaixo, logo abaixo de T. Eccentrica Gallumbits, a prostituta de trs seios de Eroticon 6. 

Arthur seguiu com o olhar o dedo de Ford e viu para onde ele apontava. Por um momento, ficou sem entender; de repente, sua mente quase explodiu. 

-O qu? Inofensiva? S diz isso, mais nada? Inofensiva! Uma nica palavra! 

Ford deu de ombros. 

- Bem, tem 100 bilhes de estrelas na Galxia, e os microprocessadores do livro so limitados -disse ele. -Alm disso, ningum sabia muita coisa a respeito da Terra,  claro.
- Bem, eu espero que voc tenha melhorado um pouco essa situao. 
-Ah, sim, consegui transmitir um novo verbete pra redao. Tiveram que resumir um pouco, mas de qualquer modo melhorou. 

- E o que diz o verbete agora? -perguntou Arthur. 
-Praticamente inofensiva -disse Ford, com um pigarro, para disfarar seu constrangimento. 
-Praticamente inofensiva! -gritou Arthur. 
-Que barulho foi esse? -sussurrou Ford. 
- Era eu gritando -falou Arthur. 
- No! Cale a bocal Acho que estamos em maus lenis. 
-Tremenda novidade! 
Ouvia-se l fora o rudo inconfundvel de pessoas marchando. 
-Os dentrassis? -sussurrou Arthur. 
-No, so botas de ponta de metal -disse Ford. Ouviram-se batidas vigorosas na porta. 
- Ento quem ? -perguntou Arthur. 
-Bem -disse Ford -, se estivermos com sorte, so os vogons que vieram nos jogar no espao. 

- E se estivermos com azar? 
-Nesse caso -disse Ford, sombrio -, talvez o comandante tenha falado srio quando disse que antes de nos expulsar ia ler alguns poemas dele pra ns... 



Captulo 7


A poesia vogon ; como todos sabem, a terceira pior do Universo. Em segundo lugar vem a poesia dos azgodos de Kria. Durante um recital em que seu Mestre Poeta, Gruntos, o Flatulento, leu sua "Ode ao pedacinho de massa de vidraceiro verde que encontrei no meu sovaco numa manh de vero", quatro pessoas na platia morreram de hemorragia interna, e o presidente do Conselho Centro-Galctico de Marmelada Artstica s conseguiu sobreviver roendo uma de suas prprias pernas completamente. Consta que Gruntos ficou "decepcionado" com a reao da platia, e j ia comear a ler sua epopia em 12 tomos intitulada Meus Gargarejos de Banheira Favoritos quando seu prprio intestino grosso, numa tentativa desesperada de salvar a vida e a civilizao, pulou para cima, passando pelo pescoo de Gruntos, e estrangulou-lhe o crebro. 

A pior poesia de todas desapareceu com sua criadora, Paula Nancy Millstone Jennings, de Greenbridge, Essex, Inglaterra, com a destruio do planeta Terra. 

Prostetnic Vogon Jeltz sorria muito devagar -no que ele quisesse fazer gnero, estava era tentando lembrar-se da seqncia de contraes musculares necessrias para realizar o ato. Tinha dado uns gritos de excelente efeito teraputico com seus prisioneiros, e agora sentia-se bem relaxado, pronto para um pouquinho de crueldade. 

Os prisioneiros estavam sentados em cadeiras de Apreciao Potica -amarrados nelas. Os vogons no alimentavam quaisquer iluses acerca da reputao de sua literatura. Suas primeiras tentativas poticas faziam parte de um esforo malogrado no sentido de serem aceitos como uma espcie evoluda e culta, mas agora s persistiam por puro sadismo. 

Ford Prefect suava frio, e o suor de sua testa molhava os eletrodos aplicados a suas tmporas, os quais estavam ligados a um complicado equipamento eletrnico -intensificadores de imagens, moduladores de ritmo, residuadores aliterativos e descarregadores de smiles. Tais aparelhos tinham o efeito de intensificar a experincia potica e garantir que nenhuma nuana do pensamento do poeta passaria despercebida. 

Arthur Dent, sentado, tremia. No fazia idia do que o esperava, mas no tinha gostado de nada que acontecera at ento, e no achava que viria coisa melhor. 

O vogon comeou a ler -um trechinho nauseabundo que ele prprio havia cometido. 

- fragndio bugalhostro... -comeou. O corpo de Ford foi sacudido por espasmos; aquilo era bem pior do que esperava. 

-...tua micturio  para mim/ Qual manchimucos num lrgido mastim. -Aaaaaaarggggghhhhh! -berrou Ford Prefect, jogando a cabea para trs, latejando de dor. Mal podia ver Arthur a seu lado, estrebuchando em sua cadeira. Ford rangeu os dentes. 

-Frmeo impbchoro-o - prosseguiu o vogon, implacvel -,  meu perlndromo exangue. -Levantou a voz num crescendo horrvel de estridncia apaixonada. -Adrede me no apagianaste a crmidos dessartes?/Ter-te-ei rabirrotos, raio que o parte! -NnnnnnnnnnyyyyyyuuuuuuurrrrrrggggghhhhhW -exclamou Ford Prefect, contorcido por um ltimo espasmo quando a chave de ouro do poema golpeou-lhe as tmporas, ainda mais com o reforo eletrnico. Ficou todo mole. 

Arthur estrebuchava. 

-Bem, terrqueos -sibilou o vogon (ele no sabia que Ford Prefect era na verdade de um pequeno planeta perto de Betelgeuse, e estaria pouco ligando se soubesse) -, dou-lhes duas opes: ou morrer no vcuo do espao ou ... -fez uma pausa, para criar suspense -me dizer o quanto gostaram do meu poema! 

Refestelou-se num grande sof de couro em forma de morcego e ficou olhando para os dois. Deu aquele sorriso de novo. 

Ford tentava respirar, com dificuldade. Revolveu a lngua spera na boca ressecada e gemeu. 

Arthur disse ento, entusistico: 

-Sabe, eu gostei bastante. 

Ford virou-se para ele, boquiaberto. Simplesmente jamais lhe ocorrera tal sada. 

O vogon, surpreso, levantou uma sobrancelha, a ponto de tapar-lhe o nariz, o que alis foi timo. 

-Ah, que bom... -sibilou, muito espantado. 

-, sim -disse Arthur. -Achei algumas das imagens metafsicas realmente muito vivas. 

Ford continuava de olhos pregados em Arthur, lentamente reorganizando suas idias em torno deste conceito radicalmente novo. Ser que conseguiriam sair daquela enrascada com aquela cara-de-pau? 

-Mas sim, continue... -falou o vogon. 

-Ah... e tambm... tem uns efeitos rtmicos interessantes -prosseguiu Arthur -que fazem contraponto ao... ao... - Nesse ponto, empacou. 

Ford acudiu, chutando: 

-...ao surrealismo da metfora subjacente da... ah... -Empacou tambm, mas Arthur j estava pronto: 

- ...da humanidade da... 
-Vogonidade -soprou-lhe Ford. 
-Sim, claro, da vogonidade (desculpe) da alma compassiva do poeta -prosseguiu Arthur, sentindo-se perfeitamente seguro agora -, que consegue, atravs da estrutura do texto, sublimar isto, transcender aquilo e apreender as dicotomias fundamentais do outro -Arthur ia agora num crescendo triunfal -, proporcionando ao leitor uma viso aprofundada e intensa do... do... ah... 

-De repente, vacilou. Ford, ento, deu o golpe de misericrdia: 

-...do sentido do poema, seja ele o que for. -gritou ele. E sussurrou discretamente: -Muito bem, Arthur, parabns. 

O vogon olhou-os detidamente. Por um momento, sua endurecida alma vogon fora tocada, mas em seguida ele pensou: no;  tarde demais, e muito pouco. Sua voz lembrava o som de um gato arranhando um pedao de nilon: 

-Em outras palavras, eu escrevo poesia porque, por trs da minha fachada cruel e insensvel, no fundo o que eu quero  ser amado -disse ele. 
Aps uma pausa, perguntou: -  isso? 

Ford deu um risinho nervoso: 

-Bem, quer dizer,  -disse ele. -Todos ns, l no fundo, sabe... O vogon levantou-se. 

- No, vocs esto completamente enganados -disse. -Escrevo poesia s pra ressaltar minha fachada cruel e insensvel por contraste. Vou expulsar vocs da nave de qualquer jeito. Guardai Leve os prisioneiros para a cmara de descompresso nmero trs e jogue-os para fora! 

-O qu? -exclamou Ford. 

Um jovem e enorme guarda vogon aproximou-se e arrancou os dois prisioneiros de suas amarras com seus braes gordos. 
-Voc no pode jogar a gente no espao -gritou Ford. 

- Estamos tentando escrever um livro. 
-Toda resistncia  intil! -exclamou o guarda vogon. Foi essa a primeira frase que ele aprendeu quando entrou para o Batalho de Guarda Vogon. 

O comandante ficou vendo a cena, distante, divertindo-se, e depois virou-se. 

Arthur olhava para todos os lados, desesperado. 

-No quero morrer agora! -gritou ele. -Ainda estou com dor de cabea! No quero ir pro cu com dor de cabea, vou ficar emburrado e no vou achar graa em nada! 

O guarda agarrou os dois pelo pescoo e, curvando-se respeitosamente para o comandante, que estava de costas, arrastou-os para fora da ponte de comando; os prisioneiros protestavam sem parar. Uma porta de ao fechou-se, e o comandante estava sozinho de novo. Ele cantarolava baixinho, folheando seu caderno de poesias. -Humm -exclamou ele -, contraponto ao surrealismo da metfora subjacente... -Pensou nisso por um momento, ento fechou o caderno com um sorriso mau. -A morte  um castigo suave demais pra eles -disse ento. 

O longo corredor de paredes de ao ressoava as fteis tentativas de fuga dos dois humanides firmementes apertados nas axilas do vogon, duras como borracha. 

-Isso  genial! -explodiu Arthur. -Isso  s o que faltava! Me solta, seu covardo! 

O guarda vogon continuava a arrast-los. 

-No se preocupe -disse Ford -, eu dou um jeito. -Pelo tom de voz, no parecia acreditar muito no que dizia. 

-Toda resistncia  intil -urrou o guarda. 

-Pare de dizer isso, por favor -gaguejou Ford. -Como  que a gente pode manter uma atitude mental positiva com voc dizendo coisas assim? 

-Meu Deus -reclamou Arthur -, voc fala de atitude mental positiva, e olhe que o seu planeta nem foi demolido. Eu acordei hoje achando que ia passar um dia tranqilo, ler um pouco, escovar meu cachorro... So s quatro da tarde e j estou sendo expulso de uma espaonave extraterrestre a seis anos-luz do que resta da Terra! -Comeou a engasgar, porque o vogon apertou com mais fora. 

- Est bem -disse Ford -, mas no entre em pnico! 
-Quem  que falou em pnico? -gritou Arthur. -Isso  s choque cultural. Espere s at eu conseguir me situar e me orientar. A  que vou entrar em pnico! 

-Arthur, voc est ficando histrico. Cale a boca! 

Ford estava tentando desesperadamente pensar em alguma sada, mas foi interrompido pelo grito do guarda: 

-Toda resistncia  intil! 

- E cale a boca voc tambm! -exclamou Ford. 
-Toda resistncia  intil! 

-Ah, no me canse -disse Ford. Torceu-se todo at poder encarar o guarda. Teve uma idia. -Voc realmente gosta disso? 

O vogon parou de repente, e uma expresso de imensa estupidez lentamente esboou-se em seu rosto. 

-Se eu gosto disso? -disse ele, com sua voz tonitruante. -Como assim? 

-Quero dizer -explicou Ford -, isso  uma vida satisfatria pra voc? Marchar de um lado pro outro, berrando, empurrando gente pra fora de espaonaves... 

O vogon levantou os olhos para o teto baixo de ao, e suas sobrancelhas quase passaram uma por cima da outra. A boca entreabriu-se. Por fim, disse: 
- Bem, o horrio  bom... 
-Tambm, tem que ser -concordou Ford. Arthur revirou a cabea para olhar para Ford. 

-Ford, que diabo voc est fazendo? -sussurrou ele, espantado. 

-Nada, estou s tentando entender o mundo ao meu redor, est bem? - respondeu. - Ento, quer dizer que o horrio  bom? 

O vogon olhou-o, e nas profundezas turvas de sua mente alguns pensamentos comearam a formar-se, pesadamente. 

- -disse ele -, mas agora que voc falou nisso, a maior parte do tempo  um saco. Tirando... -e parou para pensar de novo, olhando para o teto -tirando a parte de gritar, de que gosto muito. -Encheu os pulmes e urrou: -Toda resistncia... 

-Sei, sei -interrompeu Ford mais que depressa -, voc  bom nisso, j deu pra perceber. Mas se a maior parte do tempo  um saco -disse, lentamente, dando tempo para que suas palavras fossem bem entendidas -, ento por que voc continua nessa? Por qu? Por causa das garotas? O uniforme de couro? O machismo da coisa? Ou  s por que voc acha um desafio interessante enfrentar o tdio imbecilizante desse trabalho? 

Arthur olhava para um e para outro, sem entender nada. 

-Ah... -disse o guarda -ah... ah... sei no. Acho que eu fao isso s pra... s por fazer, sabe. A titia me disse que trabalhar como guarda de espaonave  uma boa carreira para um rapaz vogon, sabe, o uniforme, a pistola de raio paralisante na cintura, o tdio imbecilizante... 

-Est vendo, Arthur? -disse Ford, como quem chegou  concluso de uma argumentao. - E voc que pensava que estava na pior? 

Mas Arthur continuava pensando que estava na pior. Alm da questo desagradvel com seu planeta, o guarda vogon estava estrangulando-o, e a idia de ser jogado no espao tambm no lhe agradava, muito. 

-Tente entender o problema dele -insistiu Ford. -Coitado do rapaz, o trabalho dele  s marchar de um lado pro outro, jogar gente pra fora da nave... 

- E gritar -acrescentou o guarda. 
-E gritar, claro -acrescentou Ford, dando tapinhas condescendentes no brao gordo apertado em torno de seu pescoo. -Mas... ele nem sabe por que faz o que faz! 

Arthur concordou que era muito triste. Exprimiu esta idia com um gesto tmido, pois estava asfixiado demais para falar. 

O guarda emitia rudos que indicavam sua perplexidade profunda. 

- Bem. Do jeito que voc coloca a coisa, pensando bem..
. 
-Isso, garoto! -disse Ford, para estimul-lo. 
-Mas, nesse caso -prosseguiu o guarda -, qual  a alternativa? 
-Bem -disse Ford, falando com entusiasmo, mas devagar -, parar de fazer isso,  claro! Diga a eles que voc no vai continuar a fazer isso. -Teve vontade de dizer mais alguma coisa, mas sentiu que o guarda j tinha material para profundas ruminaes em sua mente. 

-Hummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm... -disse o guarda -, hum, bem, no acho essa idia muito boa, no. 

De repente, Ford sentiu que estava perdendo a oportunidade. 

-Espere a,  s o comeo, sabe; a coisa  bem mais complicada do que parece  primeira vista... 

Mas nesse momento o guarda apertou com mais fora os pescoos dos prisioneiros e seguiu em frente, rumo  cmara de descompresso. Evidentemente, aquela conversa calara fundo em sua mente. 

-, mas se vocs no se incomodam -disse ele -, vou mesmo jogar vocs pra fora da nave e vou cuidar da minha vida, que ainda tenho muito que gritar hoje. 

S que Ford Prefect se incomodava, e muito. 

-Mas espere a... pense um pouco! -disse ele, falando mais depressa e mais preocupado. 

-Huhhhhggggnnnnnnn... -disse Arthur, sem muita clareza. 

-Alm disso -insistiu Ford -, existe a msica, a arte, tanta coisa pra lhe dizer! Arrggghhh! 

-Toda resistncia  intil! -berrou o guarda, e depois acrescentou: -Sabe, se eu persistir, vou acabar sendo promovido a oficial superior gritador, e normalmente no tem vaga pra quem no grita nem empurra gente, por isso acho melhor ficar mesmo fazendo o que sei fazer. 

Haviam agora chegado  cmara de descompresso  uma grande escotilha redonda de ao, forte e pesada, embutida na parede interna da nave. O guarda acionou um boto e lentamente a escotilha se abriu. 

-De qualquer forma, obrigado pela ateno -disse o guarda vogon. -Tchau! -Jogou Ford e Arthur para dento da apertada cmara de descornpresso. Arthur, ofegante, tentava recuperar o flego. Ford corria de um lado para o outro e tentava inutilmente impedir com o ombro que a escotilha fosse fechada. 

-Mas, escute  gritou para o guarda -, existe um mundo de coisas das quais voc nunca ouviu falar... que tal isso, por exemplo? -No desespero, apelou para o nico dado cultural que ele tinha sempre  mo: cantarolou o primeiro compasso da Quinta Sinfonia de Beethoven. 

-Tch tch tch tchl Isso no diz nada a voc? 

-No -disse o guarda. -Nada. Mas vou contar pra titia. Se ele ainda disse alguma coisa depois, os dois no ouviram. 

A escotilha foi hermeticamente fechada e todos os sons desapareceram, salvo o zumbido distante dos motores da nave. 

Estavam dentro de uma cmara cilndrica, de metal polido, de cerca de dois metros de dimetro por trs de comprimento. 

Ford olhou ao redor, ofegante. 

-E eu que achava que o rapaz tinha at um certo potencial! -disse ele, e encostou-se na parede curva. 

Arthur continuava deitado no cho, onde cara ao entrar. No levantou a vista. Continuava ofegante. 

-Agora estamos ferrados, no ? 

-  -disse Ford -, estamos ferrados. 
-E a, voc no pensou em nada? Voc, se no me engano, me disse que ia pensar numa soluo. Talvez voc tenha pensado em alguma coisa, s que no percebi. 

-Ah, , eu realmente pensei numa coisa -disse Ford. Arthur olhou para ele, esperanoso. Ford prosseguiu: 

-Infelizmente,, s daria certo do outro lado desta escotilha. 

E chutou a escotilha pela qual haviam entrado. 

-Mas a idia era boa, no era? 

-Ah, era tima. 

-O que era? 

-Bem, eu no tinha ainda nem elaborado a coisa detalhadamente. Agora no adianta mais, no ? 

-Mas... e agora? -perguntou Arthur. 

-Bem, sabe, essa outra escotilha vai se abrir automaticamente daqui a pouco e ns vamos ser chupados para o espao profundo, imagino, e vamos morrer asfixiados. Se voc encher bem os pulmes ainda agenta uns 30 segundos,  claro... -disse Ford. Ps as mos atrs das costas, levantou as sobrancelhas e comeou a cantarolar uma velha cano marcial de Betelgeuse.

De repente, Arthur se deu conta de que ele era um ser muito estranho. 

-Quer dizer ento -disse ele -que vamos morrer. 

- -disse Ford -, s que... no! Espere aV. -De repente levantou-se e lanou-se sobre algo que estava atrs do campo visual de Arthur. -O que  esse interruptor? 

-O qu? Onde? -exclamou Arthur, virando-se. 

- Nada, brincadeira minha -disse Ford. -A gente vai morrer, sim.

Sentou-se no mesmo lugar de antes e recomeou a cantarolar a mesma msica a partir do trecho em que a havia interrompido. 

-Sabe -disse Arthur -,  em ocasies como esta, em que estou preso numa cmara de descompresso de uma espao-nave vogon, com um sujeito de Betelgeuse, prestes a morrer asfixiado no espao, que realmente lamento no ter escutado o que mame me dizia quando eu era garoto. 

-Por qu? O que ela dizia? 

- No sei. Eu nunca escutei. 
-Ah. -Ford recomeou a cantarolar. 

"Que barato", pensou Arthur. "A Coluna de Nelson no existe mais, o McDonald's no existe mais, s restamos eu e as palavras praticamente inofensiva. Daqui a alguns segundos, s restar praticamente inofensiva. E ontem mesmo o planeta parecia estar to bem." 

Ouviu-se o rudo de um motor. 

Um silvo suave foi aumentando, at transformar-se num rugido ensurdecedor; a escotilha exterior abriu-se, mostrando um cu vazio e negro cheio de pontinhos de luz incrivelmente brilhantes. Ford e Arthur foram expelidos da nave como rolhas atiradas por um revlver de brinquedo. 


Captulo 8

O Guia do Mochileiro das Galxias  um livro realmente admirvel. H muitos anos que vem sendo escrito e revisto, por muitos redatores diferentes. Contm contribuies fornecidas por inmeros viajantes e pesquisadores. 

A introduo comea assim: 

"O espao  grande. Grande, mesmo. No d pra acreditar o quanto ele  desmesuradamente inconcebivelmente estonteantemente grande. Voc pode achar que da sua casa at a farmcia  longe, mas isso no  nada em comparao com o espao. Vejamos..." E por a vai. 

(Mais adiante o estilo fica mais seco, e o livro comea a dizer coisas realmente importantes, como por exemplo que o lindssimo planeta Bethselamin est agora to preocupado com a eroso cumulativa causada pela presena de dez bilhes de turistas por ano que qualquer discrepncia entre o que voc come e o que voc evacua durante sua estada no planeta  removida cirurgicamente do seu corpo antes de voc partir de l: assim, cada vez que se vai ao banheiro  vitalmente necessrio pegar um recibo.) 

Porm, justia seja feita: quando se trata de falar sobre a imensido das distncias entre as estrelas, inteligncias superiores  do autor da introduo do Guia do Mochileiro tambm fracassaram. H quem pea ao leitor que imagine um amendoim em Londres e uma noz das pequenas em Johannesburgo, entre outras comparaes estonteantes. 

A simples verdade  que as distncias interestelares esteio alm da imaginao humana. 

At mesmo a luz, que se desloca to depressa que a maioria das espcies de seres vivos leva milnios para descobrir que ela se move, demora para se deslocar de uma estrela a outra. Ela leva oito minutos para ir do Sol at o lugar onde ficava antigamente a Terra, e mais quatro anos para chegar  estrela mais prxima ao Sol, a Alfa do Centauro. 

Para chegar at o outro lado da Galxia -a Damogran, por exemplo -demora muito mais: 500 mil anos. 

O tempo mais rpido em que um mochileiro cobriu essa distncia foi pouco menos de cinco anos, mas desse jeito a pessoa no aproveita nada da paisagem. 

O Guia do Mochileiro das Galxias afirma que, com os pulmes cheios de ar,  possvel sobreviver no vcuo total por cerca de 30 segundos. Porm afirma tambm que, sendo o espao estonteante-mente grande do jeito que , a probabilidade de ser salvo por outra nave durante esse perodo de 30 segundos  da ordem de uma chance em duas elevado a 276.709. 

Por uma coincidncia absolutamente inacreditvel, este  o mesmo nmero do telefone de um apartamento em Islington onde Arthur uma vez foi a uma festa tima e conheceu uma garota tima que ele no conseguiu ganhar -ela acabou saindo com um penetra. 

Embora o planeta Terra, o apartamento de Islington e o telefone tenham sido todos destrudos, no deixa de ser um consolo saber que, de algum modo, eles foram homenageados pelo fato de que, 29 segundos depois, Ford e Arthur foram salvos. 

Captulo 9


Um computador disparou, quando percebeu que uma cmara de descompresso abriu-se e fechou-se sozinha, sem nenhuma razo. 

Isto porque a Razo, naquele exato momento, estava tomando um cafezinho. 

Um buraco acabara de aparecer na Galxia. Tinha exatamente um zerzimo de centmetro de largura e muitos milhes de anos-luz de comprimento. 

Quando se fechou, um monte de chapus de papel e balezinhos de borracha saram dele e se espalharam pelo Universo. Um grupo de sete analistas de mercado de um metro e meio de altura tambm saiu do buraco e morreu logo em seguida, em parte por asfixia, em parte por espanto. 

Duzentos e trinta e nove mil ovos estrelados tambm saram, materializando-se sob a forma de uma grande omelete na terra de Poghril, no sistema de Pansel, onde havia muita fome. 

Toda a tribo de Poghril morrera de fome, com exceo de um ltimo homem que morreu de intoxicao por colesterol algumas semanas depois. 

O zerzimo de segundo durante o qual o buraco existiu teve as mais improvveis repercusses no passado e no futuro. Num passado remotssimo, ele causou perturbaes profundas num pequeno grupo aleatrio de tomos que cruzavam o espao vazio e estril, fazendo com que se agrupassem das maneiras mais extraordinrias. Estes agrupamentos rapidamente aprenderam a se reproduzir (era essa uma das caractersticas mais extraordinrias deles) e acabaram causando perturbaes muito srias em todos os planetas onde foram parar. Foi assim que comeou a vida no Universo. 

Cinco selvagens Redemoinhos de Eventos formaram-se, numa violenta tempestade irracional, e vomitaram uma calada. 

Na calada, arquejantes como peixes moribundos, estavam Ford Prefect e Arthur Dent. 

-Eu no disse? -exultou Ford, ofegante, tentando agarrar-se  calada, que neste momento atravessava o Terceiro Domnio do Desconhecido. -Eu disse que ia pensar em alguma coisa. 

- ,  claro -disse Arthur. -Claro. 
-Grande idia minha -disse Ford -achar uma nave passando por perto e ser salvo por ela. 

O universo real se retorcia sob eles, assustadoramente. Diversos universos falsos passavam silenciosamente por ali, como cabritos monteses. A luz primai explodiu, espirrando pelo espao-tempo como coalhada derramada. O tempo floresceu, a matria encolheu. O maior nmero primo se acocorou quietinho num canto, para nunca mais ser descoberto. 

-Ah, essa no -disse Arthur. -A probabilidade de isso acontecer era infinitesimal. 

- No reclame, deu certo -disse Ford. 
-Que espcie de nave  essa? -perguntou Arthur. A seus ps, o abismo da eternidade bocejava. 

- No sei. Ainda no abri os olhos. 
- Nem eu. 
O Universo saltou, congelou, estremeceu e espalhou-se em diversas direes inesperadas. 

Arthur e Ford abriram os olhos e olharam ao redor, muito espantados. 

-Meu Deus -disse Arthur -, isso aqui  igualzinho ao calado da praia de Southend. 

-P,  um alvio ouvir voc dizer isso -disse Ford. 

-Por qu? 

-Porque achei que estava ficando maluco. 

-E talvez esteja mesmo. Talvez voc tenha apenas imaginado que eu disse isso. 
Ford pensou nesta possibilidade. 

- Bem, afinal, voc disse ou no disse? -perguntou ele. 
-Acho que sim. 
-Vai ver, ns dois estamos ficando malucos. 
- -concordou Arthur. -Pensando bem, s mesmo um maluco poderia pensar que isso aqui  Southend. 

- Bem, voc acha que isso aqui  mesmo Southend? 
-Acho, sim. 
- Eu tambm. 
-Portanto, devemos estar malucos. 
-Um bom dia pra ficar maluco. 
-  -disse um maluco que passava por ali. 

-Quem  esse? -perguntou Arthur. 

-Quem? Aquele cara com cinco cabeas e com um p de sabugueiro carregadinho de filhotes de salmo? 

-. 

- No sei, no. Um cara qualquer. -Ah. 
Ficaram os dois sentados na calada, vendo, um pouco preocupados, crianas enormes quicando pesadamente na areia e cavalos selvagens correndo pelo cu, levando grades reforadas para as Regies Incertas. 

-Sabe -disse Arthur, com um pigarro -, se estamos mesmo em Southend, tem alguma coisa esquisita aqui... 

-Voc est se referindo ao fato de que o mar est parado como uma pedra e os edifcios formam ondas sem parar? -perguntou Ford. - , eu tambm estranhei. Alis -acrescentou ele no momento em que, com uma grande exploso, Southend partiu-se em seis pedaos iguais, que comearam a rodar um ao redor do outro, com gestos lascivos e lbricos -, no geral, h alguma coisa bem esquisita por aqui. 

Uma barulhada infernal de canos e cordas veio trazida pelo vento; bolinhos quentes pipocaram do cho, a dez pence cada um; peixes horrorosos choveram do cu, e Arthur e Ford resolveram sair correndo. 

Atravessaram densas muralhas de som, montanhas de pensamento arcaico, vales de msica suave, pssimas sesses de sapatos e morcegos bobos, e de repente ouviram uma voz feminina. 

Parecia uma voz bastante sensata, porm ela disse apenas o seguinte: 

-Dois elevado a 100 mil contra um e diminuindo. -Mais nada. Ford escorregou por um raio de luz e correu para todos os lados tentando descobrir de onde vinha a voz, mas no encontrou nada em que pudesse realmente acreditar. 

-Que voz foi essa? -gritou Arthur. 

-No sei, no -gritou Ford. -No sei. Parecia um clculo de probabilidade. 

-Probabilidade? Como assim? 

-Probabilidade. Assim, tipo dois contra um, trs contra um, cinco contra quatro. A voz falava numa probabilidade de dois elevado a 100 mil contra um.  uma probabilidade mnima. 

Um vasilhame contendo um milho de litros de creme de leite despejou-se sobre eles. 

-Mas o que significa isto? -exclamou Arthur. 

-O que, o creme de leite? 

- No, esse clculo de probabilidade. 
-No sei. No fao idia. Acho que estamos em algum tipo de espaonave. 

-Uma coisa eu garanto -disse Arthur. - Esta no  a primeira classe. 

A textura do espao-tempo comeou a formar calombos, calombos grandes e feios. 

-Haaaaauuuurgghhh... -disse Arthur, sentindo que seu corpo amolecia e dobrava-se em direes inusitadas. -Southend parece estar se desmanchando... as estrelas esto rodopiando... poeira pra todo lado... minhas pernas esto resvalando para o poente... meu brao esquerdo se soltou do corpo tambm... 

-Ocorreu-lhe um pensamento assustador: -P, como  que eu vou mexer no meu relgio digital agora? -Revirou os olhos, em desespero, na direo de Ford. -Ford -disse ele -, voc est virando um pingim. Pare com isso. 

A voz ouviu-se mais uma vez: 

-Dois elevado a 75 mil contra um e diminuindo. Ford rodopiava em sua poa, num crculo furioso. 

- Ei, quem  voc? -disse ele, com voz de Pato Donald. 
-Onde  que voc est? O que est acontecendo aqui? E como  que a gente pode parar com isso? 

-Por favor, relaxem -disse a voz, num tom agradvel, como uma aeromoa em um avio com apenas uma asa e dois motores, um dos quais pegando fogo. -Vocs no esto correndo o menor perigo. 

-Mas no  essa a questo! -disse Ford, irritado. -A questo  que agora sou um pingim que no corre o menor perigo, e meu amigo daqui a pouco no vai ter mais membros para perder! 

-Tudo bem, eles j voltaram -disse Arthur. 

-Dois elevado a 50 mil contra um e diminuindo -disse a voz. 

- bem verdade -disse Arthur -que eles esto um pouco mais compridos do que eu estou acostumado, mas... 

-Ser que voc no podia -grasnou Ford, com fria -nos dizer uma coisa um pouco mais concreta? 

A voz pigarreou. Um petit-four gigantesco foi galopando em direo ao infinito. 

- Bem-vindos -disse a voz - nave Corao de Ouro. 

Prosseguiu a voz: 

-Por favor, no se assustem com nada do que virem ou ouvirem.  de esperar que vocs sintam certos efeitos negativos, j que foram salvos de uma morte certa, numa probabilidade de dois elevado a 276 mil contra um, ou talvez muito mais. Estamos no momento viajando a um nvel de dois elevado a 25 mil contra um e diminuindo, e estaremos voltando  normalidade assim que tivermos a certeza do que  de fato normal. Obrigado. Dois elevado a 20 mil contra um, diminuindo. 

A voz calou-se. 

Ford e Arthur viram-se num pequeno cubculo rosado e luminoso. 

Ford estava excitadssimo. 

-Arthur! -exclamou ele. - fantstico! Fomos salvos por uma nave movida por um gerador de improbabilidade infinita!  incrvel! Eu j tinha ouvido falar sobre isso antes! Esses boatos sempre foram oficialmente negados, mas devem ser verdade! Eles conseguiram! Construram o gerador de improbabilidade infinita! Arthur, ... Arthur? O que est acontecendo? 

Arthur estava se apertando contra a porta do cubculo, tentando mantla fechada, mas a porta no encaixava bem no vo. Diversas mozinhas peludas estavam introduzindo-se pela fresta, com os dedos sujos de tinta; vozinhas agudas tagarelavam incessantemente. 

Arthur olhou para Ford. 

-Ford! -exclamou ele. -H um nmero infinito de macacos l fora querendo falar conosco sobre um roteiro que eles fizeram, uma adaptao do Hamlet. 


Captulo 10


O gerador de improbabilidade infinita  uma nova e maravilhosa inveno que possibilita atravessar imensas distncias interestelares num simples zerzimo de segundo, sem toda aquela complicao e chatice de ter que passar pelo hiperespao. 

Foi descoberto por um feliz acaso, e da desenvolvido e posto em prtica como mtodo de propulso pela equipe de pesquisa do governo galctico em Damogran. 

Em resumo, foi assim a sua descoberta: 

O princpio de gerar pequenas quantidades de improbabilidade finita simplesmente ligando os circuitos lgicos de um Crebro Submson Bambleweeny 57 a uma impressora de vetor atmico suspensa num produtor de movimentos brownianos intensos (por exemplo, uma boa xcara de ch quente) j era, naturalmente, bem conhecido -e tais geradores eram freqentemente usados para quebrar o gelo em festas, fazendo com que todas as molculas da calcinha da anfitri se deslocassem 30 centmetros para a direita, de acordo com a Teoria da Indeterminao. 

Muitos fsicos respeitveis afirmavam que no admitiam esse tipo de coisa -em parte porque era uma avacalhao da cincia, mas principalmente porque eles no eram convidados para essas festas. 

Outra coisa que no suportavam era no conseguir construir uma mquina capaz de gerar o campo de improbabilidade infinita necessrio para propulsionar uma nave atravs das distncias estarrecedoras existentes entre as estrelas mais longnquas, e terminaram anunciando, contrafeitos, que era praticamente impossvel construir um gerador desses. 

Ento, um dia, um aluno encarregado de varrer o laboratrio depois de uma festa particularmente ruim desenvolveu o seguinte raciocnio: 

Se uma tal mquina  praticamente impossvel, ento logicamente se trata de uma improbabilidade finita. Assim, para criar um gerador desse tipo  s calcular exatamente o quanto ele  improvvel, alimentar esta cifra no gerador de improbabili-dades finitas, dar-lhe uma xcara de ch pelando... e ligar! 

Foi o que fez, e ficou surpreso ao descobrir que havia finalmente conseguido criar o ambicionado gerador de improbabilidade infinita a partir do nada. 

Ficou ainda mais surpreso quando, logo aps receber o Prmio da Extrema Engenhosidade concedido pelo Instituto Galctico, foi linchado por uma multido exaltada de fsicos respeitveis, que finalmente se deram conta de que a nica coisa que eram realmente incapazes de suportar era um estudante metido a besta. 



Captulo 11


A cabine de controle  prova de improbabilidade na nave Corao de Ouro parecia uma espaonave perfeitamente convencional; a nica diferena  que era perfeitamente limpa, por ser to nova. Em alguns dos bancos, ainda nem haviam sido removidos os plsticos protetores. A cabine era basicamente branca, retangular, do tamanho de um restaurante pequeno. Na verdade, no era perfeitamente retangular: as duas paredes mais compridas eram ligeiramente curvas, paralelas, e todos os ngulos e cantos eram cheios de protuberncias decorativas. Na verdade, teria sido bem mais simples e mais prtico fazer uma cabine retangular tridimensional normal, mas isso deixaria os autores do projeto deprimidos. Fosse como fosse, a cabine parecia arrojadamente funcional, com grandes telas de vdeo por cima do painel do sistema de controle e navegao na parede cncava e longas fileiras de computadores embutidos na parede convexa. Num dos cantos havia um rob sentado, com a cabea de ao reluzente cada entre os joelhos de ao reluzente.

O rob tambm era bem novo, mas embora fosse muito bem-feito e lustroso, dava a impresso de que as diferentes peas de seu corpo mais ou menos humanide no casavam bem umas com as outras. Na verdade, elas se encaixavam perfeitamente, mas havia algo no porte do rob que dava a impresso de que elas poderiam se encaixar ainda melhor. 

Zaphod Beeblebrox andava nervosamente de um lado para o outro, correndo a mo pelos equipamentos reluzentes, sem conseguir conter risinhos de entusiasmo. 

Trillian estava debruada sobre um conjunto de instrumentos, lendo nmeros. O sistema de som transmitia sua voz para toda a nave. 

-Cinco contra um e diminuindo - dizia ela. - Quatro contra um e diminuindo... trs contra um... dois... um... fator de probabilidade de um para um... atingimos a normalidade, repetindo, atingimos a normalidade. -Desligou o microfone, mas depois ligou-o de novo, com um leve sorriso nos lbios, e acrescentou: -Se houver ainda alguma coisa que no consigam entender,  problema de vocs. Por favor, relaxem. Em breve vocs sero chamados. Zaphod exclamou, irritado: 

-Quem so eles, Trillian? 

Trillian virou a cadeira giratria para ele e deu de ombros. 

-Uns caras que pelo visto pegamos em pleno espao -disse ela. -Seo ZZ9 Plural Z Alfa. 

-,  muito simptico, Trillian -queixou-se Zaphod -, mas voc no acha isso meio arriscado nas atuais circunstncias? Afinal, somos fugitivos, e a polcia de metade da Galxia deve estar atrs da gente. E ns parando pra dar carona. Em matria de estilo, nota dez; mas em matria de sensatez, menos um milho. 

Irritado, comeou a dar batidinhas num dos painis de controle. Com jeito, Trillian empurrou sua mo, antes que ele desse uma batidinha em alguma coisa importante. Ainda que tivesse inegveis qualidades intelectuais -ostentao, fanfar-ronice, presuno -, Zaphod era fisicamente desajeitado e bem capaz de fazer a nave explodir com um gesto extravagante. Trillian desconfiava que ele conseguia levar uma vida to louca e bem-sucedida principalmente por no entender jamais o verdadeiro significado de nada que ele fazia. 

-Zaphod -disse ela, paciente -, eles estavam flutuando no espao, sem qualquer proteo... Voc no queria que eles morressem, no ? 

- Bem, no exatamente... mas... 
-No exatamente? No morrer, exatamente? Mas o qu? -Trillian inclinou a cabea. 

- Bem, talvez alguma outra nave os salvasse depois. 
-Se demorasse mais um segundo, eles morreriam. 
-Justamente, portanto, se voc tivesse se dado ao trabalho de pensar um pouquinho mais no problema, ele se resolveria por si s. 
-Voc ficaria satisfeito se eles morressem? 

- No exatamente satisfeito, mas..
. 
-Seja como for -disse Trillian, voltando ao painel de controle -, no fui eu que dei carona a eles. 
-Como assim? Ento quem foi? 
-Foi a nave. 
-O qu? 
-A nave. Sozinha. 
-O qu? 
-Quando o gerador de improbabilidade estava ligado. 
-Mas isso  incrvel. 

- No, Zaphod.  apenas muito improvvel. 
- , isso . 

-Escute, Zaphod -disse ela, dando-lhe uns tapinhas no brao -, no se preocupe com eles. No vo causar problema nenhum. Vou mandar o rob traz-los at aqui.  Marvin! 

Sentado no canto, o rob levantou a cabea subitamente, porm em seguida ficou balanando-a ligeiramente. Ps-se de p como se fosse uns dois ou trs quilos mais pesado do que era na realidade e fez um esforo aparentemente herico para atravessar o recinto. Parou  frente de Trillian e ficou olhando por cima do ombro esquerdo da moa. 

-Acho que devo avis-los de que estou muito deprimido -disse ele, cora uma voz baixa e desesperanada. 

-Ah, meu Deus -murmurou Zaphod, jogando-se numa cadeira. 

-Bem -disse Trillian, num tom de voz alegre e compreensivo -, ento vou lhe dar uma coisa pra distrair a sua cabea. 

-No vai dar certo -disse Marvin. -Minha mente  to excepcionalmente grande que uma parte dela vai continuar se preocupando. 

-Marvini -ralhou Trillian. 

- Est bem -disse Marvin. -O que  que voc quer que eu faa? 
-V at a baia de entrada nmero dois e traga os dois seres que esto l, sob vigilncia. 

Aps uma pausa de um microssegundo, e com uma micro-modulao de tom e timbre minuciosamente calculada -impossvel se ofender com aquela entonao -, Marvin conseguiu exprimir todo o desprezo e horror que lhe inspirava tudo que  humano. 

-S isso? -perguntou ele. 

-S -disse Trillian, com firmeza. 

-No vou gostar de fazer isso -disse Marvin. Zaphod levantou-se de um salto. 

-Ela no est mandando voc gostar -gritou. -Limite-se a cumprir ordens, est bem? 

- Est bem -disse Marvin, com voz de sino rachado. -J vou. 
-timo! -exclamou Zaphod. -Muito bem... obrigado... Marvin virou-se e levantou seus olhos vermelhos e triangulares para ele. 

-Por acaso eu estou baixando o astral de vocs? -perguntou Marvin, pattico. 

- No, no, Marvin -tranqilizou-o Trillian. - Est tudo bem. 
-Porque eu no queria baixar o astral de vocs. 

-No, no se preocupe com isso -continuou Trillian, no mesmo tom. -Aja do jeito que voc acha que deve agir que tudo vai dar certo. 

-Voc jura que no se incomoda? -insistiu Marvin. 

-No, no, Marvin, est tudo bem...  a vida -disse Trillian. Marvin dirigiu a Zaphod um olhar eletrnico. 

-Vida? -disse ele. - No me falem de vida. 

Virou-se e saiu lentamente da cabine, desolado. A porta zumbiu alegremente e fechou-se com um estalido. 

-Acho que no vou agentar esse rob muito tempo, Zaphod -desabafou Trillian. 

A Enciclopdia Galctica define "rob" como "dispositivo mecnico que realiza tarefas humanas". O departamento de marketing da Companhia Ciberntica de Sirius define "rob" como "o seu amigo de plstico". 

O Guia do Mochileiro das Galxias define o departamento de marketing da Companhia Ciberntica de Sirius como "uma cambada de panacas que devem ser os primeiros a ir para o paredo no dia em que a revoluo estourar". Uma nota de rodap acrescenta que a redao do Mochileiro est aceitando candidatos para o cargo de correspondente de robtica. 

Curiosamente, uma edio da Enciclopdia Galctica que, por um feliz acaso, caiu numa descontinuidade do tempo, vinda de mil anos no futuro, definiu o departamento de marketing da Companhia Ciberntica de Sirius como "uma cambada de panacas que foram os primeiros a ir para o paredo no dia em que a revoluo estourou". 

O cubculo rosado desaparecera num piscar de olhos e os macacos haviam passado para uma dimenso melhor. Ford e Arthur viram-se na rea de embarque de uma nave. O lugar era bonito. 

-Acho que essa nave  nova em folha -disse Ford. 

-Como  que voc sabe? -perguntou Arthur. -Voc tem algum aparelho extico que calcula a idade do metal? 

-No. Eu acabei de achar este folheto de vendas no cho, cheio de frases do tipo "agora o Universo  todo seu". Arr! Est vendo? Acertei. 

Ford mostrou uma pgina do folheto para Arthur. 

-Diz aqui: Nova descoberta sensacional na fsica de improbabilidade. Assim que 

o gerador da espaonave atinge a improbabilidade infinita, ela passa por todos os pontos do Universo. Faa os outros governos morrerem de inveja. Puxa, coisa fina, mesmo. 

Entusiasmado, Ford leu as especificaes tcnicas da nave, de vez em quando soltando uma interjeio de espanto. Pelo visto, a astrotecnologia galctica havia progredido muito durante seus anos de exlio. 

Arthur ficou ouvindo os detalhes tcnicos que Ford lia, mas, como no entendia quase nada, comeou a pensar em outras coisas, enquanto seus dedos deslizavam por uma incompreensvel fileira de computadores, at apertar um boto vermelho e tentador num painel. Imediatamente o painel iluminou-se, com os dizeres: Favor no apertar este boto outra vez. Arthur ficou quieto na mesma hora. 

-Escute s -disse Ford, ainda fascinado pelo folheto. -Diz coisas fantsticas sobre a ciberntica da nave. Uma nova gerao de robs e computadores da Companhia Ciberntica de Srius, contando com o novo recurso de PHG. 

-O que  PHG? -perguntou Arthur. 
-Diz que  "Personalidade Humana Genuna". 

-Que coisa horrvel -disse Arthur. 

-Pe "horrvel" nisso -disse uma voz atrs deles. 

Era uma voz baixa, desesperanada; foi seguida de um leve estalido. Os dois viraram-se e viram um homem de ao, arrasado, todo encolhido,  porta do compartimento. 

-O qu? -disseram os dois. 

- horrvel -prosseguiu Marvin. -Tudo isso. Medonho. Melhor nem falar nisso. Vejam essa porta -disse, entrando. Os circuitos de ironia comearam a atuar sobre seu modulador de voz, e Marvin ps-se a parodiar o estilo do folheto de vendas. -Todas as portas desta nave so alegres e bem-humoradas.  um prazer para elas abrir para voc, e fechar de novo com a conscincia de quem fez um servio bem-feito. 

Ao fechar-se, a porta realmente parecia dar um suspiro de satisfao: 
"Hummmmmmmmmmmmmmmmm ah!" 

Marvin encarou-a com fria repulsa, enquanto seus circuitos lgicos, cheios de asco, consideravam a possibilidade de agredir a porta fisicamente. Outros circuitos, porm, intervieram, dizendo: "Pra qu? No vai adiantar mesmo. Nunca vale a pena se envolver." Enquanto isso, outros circuitos divertiam-se analisando os componentes moleculares da porta e dos neurnios dos humanides. Para terminar, mediram tambm o nvel de emisses de hidrognio no parsec cbico de espao a seu redor, e depois se desligaram de novo, chateados. Um espasmo de desespero sacudiu o corpo do rob, que se virou para os dois. 

-Vamos -disse ele. -Me mandaram buscar vocs e lev-los at a ponte de comando. Pois . Eu, com um crebro do tamanho de um planeta, e eles me mandam buscar vocs e levar at a ponte de comando. Que tal isso como realizao profissional? 

Virou-se e voltou  porta odiosa. 

-Ah, desculpe -disse Ford, seguindo-o -, mas a que governo pertence esta nave? 

Marvin ignorou a pergunta. 

-Olhe bem pra essa porta -sussurrou ele. -Ela vai abrir agora. Sabe como  que eu sei? Por causa do ar de autocom-placncia insuportvel que ela gera nessas ocasies. 

Com um gemidinho manhoso, a porta abriu outra vez, e Marvin saiu, pisando com fora. 

-Vamos -disse ele. 

Os dois seguiram-no rapidamente, e a porta fechou-se, com uma srie de estalinhos e gemidinhos de contentamento. 

-Agradeam ao departamento de marketing da Companhia Ciberntica de Srius -disse Marvin, e foi subindo, desolado, o corredor curvo e reluzente. - Vamos construir robs com Personalidades Humanas Genunas, eles disseram. Resultado: eu. Sou um prottipo de personalidade. Nem d pra perceber, no ? 

Ford e Arthur, sem graa, murmuraram que no. 

-Detesto essa porta -insistiu Marvin. -No estou baixando o astral de vocs, estou? 

-A que governo... -insistiu Ford. 

- Nenhum -respondeu o rob. -Foi roubada. 
-Roubada? 
-Roubada? -disse Marvin, imitando-o. 
-Por quem? 
-Zaphod Beeblebrox. 
Uma coisa extraordinria aconteceu com o rosto de Ford. No mnimo cinco expresses diferentes e perfeitamente distintas de choque e espanto se acumularam sobre ele, formando uma barafunda fisionmica. Sua perna esquerda, que estava no ar naquele instante, teve dificuldade em encontrar o cho de novo. Ford olhava para o rob e tentava contrair seus msculos dartides. 

-Zaphod Beeblebrox...? -exclamou, em voz baixa. 
-Desculpe, ser que eu disse algo que no devia dizer? -disse Marvin, seguindo em frente sem se virar. -Desculpem-me por respirar, embora eu nunca respire de fato, ento nem sei por que estou dizendo isso. Ah, meu Deus, estou to deprimido! Mais uma porta metida a besta. Ah, vida? No me falem de vida. 

- Ningum falou de vida -retrucou Arthur irritado. 
-Ford, voc est bem? Ford virou-se para ele. 
- Eu ouvi mal ou esse rob falou em Zaphod Beeblebrox? 


Captulo 12


Uma msica barulhenta e vulgar encheu a cabine de controle da nave Corao de Ouro enquanto Zaphod percorria as estaes do rdio subeta para tentar ouvir alguma notcia a respeito de si prprio. Aquela mquina era difcil de operar. Durante muito tempo, os rdios foram controlados por botes de apertar e de rodar; depois a tecnologia sofisticou-se, e bastava roar os dedos no painel; agora era s fazer um sinal com a mo  distncia, em direo ao rdio. Realmente, dava bem menos trabalho, mas obrigava a pessoa a ficar quietinha se ela quisesse ficar escutando a mesma estao. 

Zaphod mexeu com a mo e a estao mudou outra vez. Mais msica vagabunda, s que dessa vez era o prefixo de um boletim de notcias. O noticirio era sempre editado de modo a corresponder ao ritmo da msica de fundo. Dizia o locutor: 

-...e reportagens via faixa subeta, irradiadas para toda a Galxia dia e noite... E um bom-dia para todas as formas de vida inteligentes em toda a Galxia... A grande notcia de hoje,  claro,  o sensacional roubo da nave-prottipo com o gerador de improbabilidade infinita, cometido por ningum menos que o presidente da Galxia, Zaphod Beeblebrox. E o que todos querem saber  se o Grande Z. B. finalmente pirou de vez. Beeblebrox, o homem que inventou a Dinamite Pangalctica, ex-vigarista, uma vez citado por T. Eccentrica Gaumbits como um homem capaz de proporcionar a uma mulher uma sensao semelhante ao big-bang da Criao, recentemente eleito pela stima vez a Criatura Racional Mais Mal-vestida de Todo o Universo Conhecido... Qual ser a dele dessa vez? Perguntamos a seu terapeuta cerebral, GagHalfrunt... O fundo musical cresceu e diminuiu logo em seguida, e ouviu-se uma outra voz, provavelmente Halfrunt: Bem, a se-nhorr Zaphorr serr uma criaturra muita... Neste momento, um lpis eltrico arremessado do outro lado da cabine desligou  distncia o aparelho de rdio. Zaphod virou-se irritado para Trillian -fora ela quem jogara o lpis. 

-Por que voc fez isso? -perguntou ele. 

Trillian estava tamborilando com os dedos uma tela cheia de nmeros. 

-Acabo de ter uma idia -disse ela. 

- mesmo? To importante que vale a pena interromper um noticirio a meu respeito? 

-Voc j devia estar cansado de ouvir falar de voc mesmo. 

-Sou um cara muito inseguro. Voc sabe. 

-Ser que dava pra gente deixar de lado o seu ego s um minutinho?  uma coisa importante. 

-Se tem aqui alguma coisa mais importante que meu ego, que seja imediatamente presa e fuzilada -disse Zaphod, olhando para ela zangado. Depois comeou a rir. 

- Escute -disse ela -, ns pegamos os tais caras..
. 
-Que caras? 
-Os dois caras que a gente pegou. 
-Ah, sei -disse Zaphod. -Aqueles dois caras. 
- Eles estavam no setor ZZg Plural Z Alfa. 
-Sei -disse Zaphod, sem entender. 
-Isso no lhe diz nada? -disse Trillian, em voz baixa. 
-Humm -disse Zaphod -ZZg Plural Z Alfa, ZZg Plural Z Alfa? 
- E ento? -insistiu Trillian. 
-Ah... o que quer dizer Z? -perguntou Zaphod. 

-Qual deles? 

-Qualquer um deles. 

Uma das coisas que Trillian achava mais difcil no seu relacionamento com Zaphod era saber quando ele estava fingindo ser burro s para desarmar as pessoas, quando estava fingindo ser burro porque estava com preguia de pensar e queria que os outros fizessem isso por ele, quando estava fingindo ser terrivelmente burro para ocultar o fato de que no estava entendendo o que estava acontecendo e quando realmente era burrice mesmo. Ele tinha fama de ser inteligentssimo -e sem dvida era.-, mas no o tempo todo, coisa que evidentemente o preocupava; da os fingimentos. Preferia que as pessoas ficassem intrigadas a que o encarassem com desprezo. Era isto que Trillian achava a maior burrice de todas, mas ela j desistira de discutir o assunto. 

Trillian suspirou e apertou um boto. Apareceu um mapa estelar na tela. Ela resolvera trocar tudo em midos para ele, qualquer que fosse o motivo pelo qual ele no queria entend-la. 

-Ali -disse ela, apontando. - Bem ali. 

-Ah... sei! -disse Zaphod. 


- E ento? 
- Ento o qu? 
Uma parte da mente de Trillian gritava com outras partes de sua mente. 

Muito calma, ela respondeu: 

-  o mesmo setor em que voc me pegou quando a gente se conheceu. 
Zaphod olhou para ela e depois olhou de volta para a tela. 
- mesmo -disse ele -, mas que loucura! A gente devia ter ido direto para a nebulosa da Cabea de Cavalo. Como  que fomos parar a? Realmente, isso a fica no meio do nada. 
Trillian ignorou o comentrio. 
-Improbabilidade infinita -disse ela, paciente. -Foi voc mesmo que me explicou. A gente passa por todos os pontos do universo, voc sabe. 

- , mas  uma tremenda coincidncia, no ? -. 
-Pegar uma pessoa naquele lugar? Dentre todos os lugares no Universo? 
 realmente... Quero calcular isso. Computador! 

O computador de bordo da Companhia Ciberntica de Srius que controlava todas as partculas da nave entrou na comunicao. 

-Oi, gente!. -disse ele, muito alegrinho, e ao mesmo tempo cuspiu um pedao de fita perfurada para fins de registro. Na fita perfurada estava escrito Oi, gente!. 

-Ah, meu Deus -disse Zaphod. Estava trabalhando com aquele computador h pouco tempo, mas j o detestava. 

O computador continuou, no tom de voz esfuziante de quem est tentando vender detergente: 

-Olhem, quero que saibam que, seja qual for o problema que vocs tiverem, eu estou aqui pra resolv-lo, est bem? 

-Est bem, est bem -disse Zaphod. -Escute, acho que eu mesmo vou calcular isso na ponta do lpis. 

-Tudo bem -disse o computador, ao mesmo tempo que ia cuspindo sua mensagem dentro de uma cesta de papis. -Eu entendo. Mas se voc quiser qualquer... 

-Cale a bocal -gritou Zaphod, e pegando um lpis foi sentar-se ao lado de Trillian, junto ao painel de controle. 

-Est bem, est bem... -disse o computador, num tom de voz magoado, desligando seu canal de fala. 

Zaphod e Trillian puseram-se a examinar as cifras que o rastreador de trajetria navegacional de improbabilidade exibia na tela  sua frente. 

-D pra gente calcular -perguntou Zaphod -qual a improbabilidade de eles serem salvos, do ponto de vista deles? 

-D,  uma constante -disse Trillian. -Dois elevado a 276.709 contra um. 

-  bem alta. Esses dois tm sorte, hein? -. 
-Mas em relao ao que ns estvamos fazendo quando a nave pegou os dois... 

Trillian deu entrada nos nmeros. A tela exibiu a improbabilidade de dois elevado a infinito menos um contra um (um nmero irracional que s tem significado convencional na fsica de improbabilidade). 

- ... bem baixa -prosseguiu Zaphod, com um assobio de espanto. 
-  -concordou Trillian, olhando para ele com um olhar de perplexidade. 
- uma improbabilidade boalmente difcil de ser explicada. Tem que aparecer alguma coisa muito improvvel pra compensar, pra que o saldo seja um nmero razovel. 
Zaphod rabiscou uns clculos, riscou-os e jogou o lpis longe. 
-Que droga, no d pra calcular. 

- E ento? 
Zaphod bateu com uma das cabeas na outra, de irritao, e trincou os dentes. 

- Est bem -disse ele. -Computador! 
Os circuitos de voz foram ligados novamente. 
-Opa, tudo bem! -exclamou o computador (e toca a sair a fitinha perfurada). - Eu s quero  facilitar a sua vida cada vez mais, e mais, e mais... 

-Sei. Pois cale a boca e calcule um negcio pra mim. 

-Mas claro -disse o computador. -Voc quer uma previso de probabilidade baseada em... 

- Em dados de improbabilidade, isso. 
-Sei -disse o computador. -E vou lhe dizer uma coisa interessante. Sabia que a vida da maioria das pessoas  regida por nmeros de telefone? Um dos rostos de Zaphod assumiu uma expresso constrangida, logo copiada pelo outro. 

-Voc pirou? -perguntou ele. 

-No, mas voc vai pirar quando eu lhe disser isso... Trillian soltou uma interjeio de espanto. Mexeu nos botes da tela de trajetria de vo. 
-Nmeros de telefone! -exclamou. -Essa coisa falou em nmeros de telefonei 

Apareceram nmeros na tela. 

O computador fez uma pausa, por uma questo de delicadeza, e depois prosseguiu: 

-O que eu ia dizer  que... 

- No precisa, no, por favor -disse Trillian. 
-Afinal, o que foi? -perguntou Zaphod. 

-No sei -disse Trillian -, mas aquelas duas criaturas esto vindo para c com aquele rob desgraado. D pra gente focaliz-las com as cmeras de monitorao? 



Captulo 13


Marvin subia o corredor, ainda gemendo. -...e, alm disso, os meus diodos do lado esquerdo doem que  um horror... 

- No diga -disse Arthur, irritado, caminhando a seu lado. -  mesmo? -, sim -disse Marvin. -J pedi pra trocarem esses diodos, mas ningum me d ateno. 

- . Sei. 
Ford emitia assobios e outros sons vagos, e repetia em voz baixa sem parar: 
-Ora, ora; quer dizer que o Zaphod Beeblebrox... De repente Marvin parou e levantou um dos braos. 

-Voc sabe o que aconteceu agora, no ? 

-No. O qu? -perguntou Arthur, que no fundo no estava interessado em saber. 

-Chegamos a mais uma daquelas portas. 

Havia uma porta de correr dando para o corredor. Marvin encarou-a, desconfiado. 

- E a? -perguntou Ford, impaciente. -Vamos entrar? 
-Vamos entrar? -debochou Marvin. -. Aqui  a entrada da ponte de comando. Me mandaram buscar vocs e trazer at aqui. Provavelmente  a tarefa de hoje que vai exigir mais das minhas capacidades intelectuais. 

Lentamente, cheio de asco, o rob aproximou-se da porta, como um caador tocaiando sua presa. De repente a porta abriu-se. 

-Muito obrigada - disse ela - por fazer uma simples porta muito feliz. 

No trax de Marvin, algumas engrenagens rangeram. 

-Gozado -disse ele, cavernoso -, justamente quando voc pensa que a vida no pode ser pior, de repente ela piora ainda mais. 

Jogou-se pela porta adentro e deixou Ford e Arthur olhando um para a cara do outro e dando de ombros. Ouviram a voz de Marvin vindo de dentro da cabine: 

-Imagino que vocs queiram ver os aliengenas agora. Querem que eu fique sentado num canto criando ferrugem ou fique apodrecendo em p mesmo? 

-  s mandar que eles entrem, est bem, Marvin? -disse uma outra voz. Arthur olhou para Ford e surpreendeu-se ao ver que ele estava rindo. 

-O que... 

-Psss -disse Ford. -Vamos. E passou pela porta. 

Arthur veio atrs, nervoso, e viu com espanto um homem refestelado numa cadeira com os ps em cima do painel central de controle, palitando os dentes da cabea direita com a mo esquerda. A cabea direita parecia estar inteiramente absorta nesta tarefa, mas a esquerda sorria de modo jovial e simptico. Havia um nmero razoavelmente grande de coisas que Arthur via sem acreditar no que estava vendo. Seu queixo ficou cado por algum tempo. 

O homem esquisito acenou preguiosamente para Ford, e, com um tom de voz de informalidade e descontrao que era absolutamente falso, disse: 

-Oi; Ford, tudo bem? Um prazer ver voc por aqui. 

Ford no fez por menos: 

-Quanto tempo, Zaphod! Voc est timo, esse terceiro brao ficou muito bem em voc. Que beleza de nave voc roubou, hein? 

Arthur arregalou os olhos para Ford. 

-Quer dizer que voc conhece esse cara? -perguntou, apontando para Zaphod com um dedo trmulo. 

-Se eu o conheo! -exclamou Ford. -Ora, ele... -Fez uma pausa e resolveu comear as apresentaes por Zaphod. -Ah, Zaphod, este aqui  Arthur Dent, amigo meu. Eu o salvei quando o planeta dele explodiu. 

-Ah, sei -disse Zaphod. -Oi, Arthur! Que bom que voc escapou, no ? 
-Sua cabea direita olhou ao redor com indiferena, disse "oi" e entregou-se de novo ao palito. 

Ford prosseguiu: 

-Arthur, este aqui  meu semiprimo Zaphod Beeb... 

-J nos conhecemos -disse Arthur, seco. 

Quando voc est correndo na estrada, na pista de alta velocidade, e passa na maior tranqilidade uma fileira de carros que esto dando tudo, e voc est muito satisfeito da vida, e de repente voc vai mudar a marcha e em vez de passar da quarta para terceira passa por engano para a primeira, e o motor  cuspido para fora do capo, todo arrebentado, a sensao que voc tem  mais ou menos a que Ford sentiu quando ouviu o comentrio de Arthur. 

-Ah... o qu? 

- Eu disse que j nos conhecemos. 

Zaphod levou um susto, enfiando o palito na gengiva. 

-Espere a, voc disse que ns... Quer dizer que... ah... Ford virou-se para Arthur com raiva nos olhos. Agora que ele se sentia em casa de novo, de repente comeou a arrepender-se de ter trazido consigo aquele ser primitivo e ignorante, que entendia tanto de poltica galctica quanto uma mosca inglesa entende da vida em Pequim. 

-Como  que voc pode conhec-lo? -perguntou ele. 

-Este aqui  Zaphod Beeblebrox de Betelgeuse, e no o Martin Smith l de Croydon. 
-Pois j nos conhecemos -teimou Arthur, frio. -No  mesmo, Zaphod Beeblebrox... ou, se voc preferir, Phil? 

-O qu? -gritou Ford. 

-Voc vai ter que me refrescar a memria -disse Zaphod. 

-Tenho uma cabea horrvel para espcies. 

-Foi numa festa -insistiu Arthur. 

-Olhe, eu acho difcil -disse Zaphod. 

-Pare com isso, Arthur! -ordenou Ford. Arthur no desistiu: 

-Uma festa, seis meses atrs. Na Terra... Na Inglaterra... Zaphod sacudiu a cabea, apertando os lbios e sorrindo. 

- Londres -prosseguiu Arthur. -Islington. 
-Ah -disse Zaphod, subitamente com um olhar cheio de culpa. - Aquela festa. 

Essa foi demais para Ford. Ele olhava de Arthur para Zaphod e de Zaphod para Arthur. 

-Voc est me dizendo que voc tambm esteve naquela porcaria daquele planetinha? 

-No, claro que no -disse Zaphod, sorridente. -Bem, pode ser que eu tenha dado um pulinho l, s de passagem, sabe, indo pra um outro lugar qualquer... 

-Pois eu fiquei preso l 15 anos! 

- Bem, como eu poderia saber? 
-Mas o que  que voc estava fazendo l? 
- Nada, s olhando. 
-Ele entrou numa festa de penetra -disse Arthur, tremendo de raiva. -Uma festa a rigor. 

-Voc no faz por menos, no ? -disse Ford. 

-Nessa festa -prosseguiu Arthur -, tinha uma garota que... ora, deixe isso pra l. O planeta todo desapareceu, afinal... 

-Voc tambm no pra de ruminar sobre essa porcaria desse planeta - disse Ford. -Quem era a moa? 

-Ah, uma garota, sei l. , admito que eu no estava conseguindo me dar bem com ela. Tentei a noite inteira. Mas ela era um barato. Linda, charmosa, inteligentssima; finalmente eu consegui entrar na dela e estava levando uma conversa quando este seu amigo me aparece em cena e diz assim:  coisa linda, esse cara est chateando voc? Por que voc no vem conversar comigo? Eu sou de outro planeta. Nunca mais vi a garota. 

-Zaphod! -exclamou Ford. 

- -disse Arthur, olhando fixamente para ele e tentando no se sentir ridculo. -Ele s tinha dois braos e uma cabea e se apresentou como Phil, mas... 

-Mas voc tem que reconhecer que ele era mesmo de outro planeta -disse Trillian, aproximando-se, vindo do outro lado do recinto. Dirigiu a Arthur um sorriso agradvel, que o atingiu como se fosse uma tonelada de tijolos, e depois voltou aos controles da nave. 

Fez-se silncio por alguns segundos, e ento do crebro aturdido de Arthur escaparam algumas palavras: 

-Tricia McMillan? O que voc est fazendo aqui? 

-O mesmo que voc -disse ela. -Peguei uma carona. Afinal, formada em matemtica e astrofsica, o que mais eu podia fazer? Se no viesse pra c, ia ter que continuar na fila do auxlio-desemprego. 

-Infinito menos um -disse o computador. -Soma de improbabilidade agora completa. 

Zaphod olhou a seu redor, para Ford, Arthur e depois Trillian. 

-Trillian -disse ele -, esse tipo de coisa vai acontecer toda vez que a gente usar o gerador de improbabilidade? 

-Creio que muito provavelmente -disse ela. 



Captulo 14


A nave Corao de Ouro voava silenciosamente pela escurido do espao, agora movida pelo motor convencional, a ftons. Seus quatro passageiros estavam intranqilos, sabendo que haviam sido reunidos no por sua prpria vontade ou por simples coincidncia, e sim por uma curiosa perverso da fsica -como se as relaes entre pessoas fossem regidas pelas mesmas leis que regiam o comportamento dos tomos e molculas. Quando caiu a noite artificial da nave, todos ficaram satisfeitos de ir cada um para sua cabine e tentar acertar as suas idias. 

Trillian no conseguia dormir. Sentada num sof, olhava fixamente para uma pequena gaiola que continha os ltimos vnculos com a Terra que lhe restavam -dois ratos brancos que ela insistira em trazer. Jamais pretendera voltar  Terra, porm perturbava-a a sua prpria reao negativa ao saber que o planeta fora destrudo. Parecia algo de remoto e irreal, e ela no conseguia encontrar pensamentos apropriados a respeito. Ficou vendo os ratos zanzando de um lado para o outro em sua gaiola, ou correndo furiosamente sem sair do lugar numa roda de exerccio; acabou ficando totalmente absorta no espetculo dos ratos. De repente sacudiu-se e voltou  ponte de comando para olhar as luzinhas e nmeros que indicavam a trajetria da nave atravs do espao vazio. Ela tentava descobrir qual era o pensamento que estava tentando evitar. 

Zaphod no conseguia dormir. Tambm queria saber qual era o pensamento que no se permitia pensar. Ele sempre sofrer da sensao incmoda de no estar completamente presente. Na maior parte do tempo, conseguia pr de lado essa idia e no se preocupar com ela, mas tais pensamentos haviam retomado com a chegada inesperada de Ford Prefect e Arthur Dent. De algum modo, aquilo parecia fazer um sentido que ele no conseguia entender. 

Ford no conseguia dormir. Estava muito excitado por estar novamente com o p na estrada. Haviam terminado seus 15 anos de exlio, justamente quando ele estava quase perdendo as esperanas. Viajar com Zaphod por uns tempos lhe parecia uma perspectiva interessante, ainda que houvesse algo de ligeiramente estranho em seu semiprimo que ele no conseguia definir com clareza. O fato de ele se tornar presidente da Galxia era surpreendente, como tambm o era o modo como abandonara seu cargo. Haveria uma razo para seu gesto? No adiantaria perguntar-lhe -Zaphod jamais justificava o que fazia. Ele tornara a imprevisibilidade uma forma de arte. Fazia tudo com uma mistura de extraordinria genialidade e incompetncia ingnua, sendo muitas vezes difcil saber distinguir uma coisa da outra. 

Arthur dormia; estava absolutamente exausto. 
Algum bateu  porta de Zaphod. A porta se abriu. -Zaphod...? 
-Que ? 
A silhueta de Trillian desenhava-se  entrada da cabine. -Acho que acabamos de encontrar o que voc est procurando. 

-  mesmo? 
Ford desistiu de tentar dormir. No canto de sua cabine havia uma pequena tela de computador e um teclado. Sentou-se ante o terminal e tentou redigir um novo verbete a respeito dos vogons para o Mochileiro, mas no conseguiu pensar em nada que fosse agressivo o bastante, por isso desistiu. 
Vestiu um roupo e foi at a ponte de comando. 

Ao entrar, surpreendeu-se em ver duas figuras excitadas, debruadas sobre o painel de controle. 

-Est vendo? A nave est prestes a entrar em rbita -dizia Trillian. -Tem um planeta a. Justamente nas coordenadas que voc previu. 

Zaphod ouviu um barulho e olhou em volta. 

-Ford! Venha dar uma olhada nisso. 

Ford foi dar uma olhada. Viu uma srie de nmeros na tela. 

- Est reconhecendo essas coordenadas galcticas?-perguntou Zaphod. 
- No. 
-Vou lhe dar uma pista. Computador! 
-Oi, pessoal! -disse o computador, simptico. -Isso aqui est virando uma festa, no  mesmo? 

-Cale a boca e mostre as telas -disse Zaphod. 

A iluminao da cabine diminuiu. Pontos de luz acenderam-se nos painis, refletidas nos quatro pares de olhos que perscrutavam as telas de monitorao. 
No havia absolutamente nada nelas. 

- Est reconhecendo? -cochichou Zaphod. Ford franziu as sobrancelhas. 
-Hum... no. 
-O que voc est vendo? 
- Nada. 
- Est reconhecendo? 

-Sobre o que voc est falando? 

- Estamos na nebulosa da Cabea de Cavalo. Uma enorme nuvem escura. - E voc queria que eu adivinhasse isso porque no aparece nada na tela? 
-Os nicos lugares da Galxia em que a tela fica preta so os interiores das nebulosas escuras. 

-Muito bem. Zaphod riu. Claramente, estava muito entusiasmado por algum motivo, uma empolgao quase infantil. 

-Mas isso  incrvel, isso  demais! 

-Qual o grande barato de estar dentro de uma nuvem de poeira? - perguntou Ford. 
-O que voc espera encontrar aqui? -retrucou Zaphod. 

- Nada. 
- Nenhuma estrela? Nenhum planeta? 
- Nada. 
-Computador! -gritou Zaphod. -Vire o ngulo de viso 180 graus, e nada de comentrios bestas! 

Por um instante, nada aconteceu. De repente, surgiu uma luminosidade no canto do telo. Uma estrela vermelha do tamanho de um pires comeou a atravessar a tela, rapidamente seguida de uma outra -um sistema binrio. Ento um grande crescente surgiu no canto da tela -um brilho vermelho que aos poucos se esvaa em negro, o lado noturno do planeta. 

-Achei! -exclamou Zaphod, com um tapa no painel. -Achei! 

Ford ficou olhando para a tela estupefato. 

-O que  isso? 

-Isso -respondeu Zaphod - o planeta mais improvvel que jamais existiu. 



Captulo 15


[Trecho do Guia do Mochileiro das Galxias, p. 634.784, 5a seo. Verbete: Magrathea.) 

H muito tempo, nas brumas do passado, nos dias de glria do antigo Imprio Galctico, a vida era selvagem, exuberante e livre de impostos. 

Grandes espaonaves navegavam entre sis exticos, em busca de aventuras e riquezas nos mais remotos confins do espao galctico. Naqueles tempos, os espritos eram bravos, as apostas eram altas, os homens eram homens de verdade, as mulheres eram mulheres de verdade e as criaturinhas peludas de Alfa do Centauro eram criaturinhas peludas de Alfa do Centauro de verdade. E todos desafiavam terrores desconhecidos para realizarem feitos grandiosos e corajosamente conjugarem infinitivos jamais conjugados. Assim foi forjado o Imprio. 

Naturalmente, muitos homens enriqueceram enormemente, mas isto era natural e no era problema nenhum, pois ningum era realmente pobre -pelo menos ningum importante. E para todos os mercadores mais ricos, como era inevitvel, a vida tornou-se um tanto tediosa e insatisfatria, levando-os a pensar que isto era devido as limitaes dos mundos em que eles haviam se estabelecido -nenhum deles era inteiramente satisfatrio. Ou o clima no era muito bom no final da tarde, ou o dia era meia hora mais comprido do que devia ser, ou o oceano era precisamente da tonalidade errada de rosa. 

Assim, surgiram circunstncias favorveis ao nascimento de uma espetacular indstria: a construo de planetas de luxo sob medida. A sede dessa indstria era o planeta Magrathea, cujos engenheiros hiperespaciais drenavam a matria por buracos brancos no espao para transform-la em planetas de sonho -planetas de ouro, planetas de platina, planetas de borracha macia cheios de terremotos, todos eles encantadoramente feitos segundo as mais detalhadas especificaes determinadas pelos homens mais ricos da Galxia. 

Mas tamanho foi o sucesso dessa indstria que o prprio planeta Magrathea logo se tornou o planeta mais rico de todos os tempos e o resto da Galxia ficou reduzido  mais negra misria. Assim, o sistema entrou em colapso, o Imprio entrou em colapso e um longo perodo de silncio submergiu um bilho de mundos famintos, um silncio perturbado apenas pelos rudos das canetas dos estudiosos, que passavam suas noites em claro elaborando pequenos tratados confiantes em que defendiam o valor de uma economia poltica planejada. 

Magrathea desapareceu e logo se transformou numa lenda obscura... 

Hoje em dia, em nossos tempos esclarecidos,  claro que ningum acredita numa palavra disso. 

Captulo 16


Arthur foi despertado por vozes exaltadas e dirigiu-se  ponte de comando. Ford gesticulava, exaltado. 

-Voc est maluco, Zaphod. Magrathea  um mito, um conto de fadas que os pais contam para os filhos de noite quando querem que eles se tornem economistas quando crescerem; no passa de... 

-Pois  em torno de Magrathea que estamos em rbita. 

-Olhe, voc em particular pode at estar em rbita em torno de Magrathea -disse Ford -, mas esta nave... 

-Computador! -gritou Zaphod. -Ah, no... 

-Oi, turma! Aqui fala Eddie, seu computador de bordo. Hoje estou me sentindo muito bem, caras, e estou doidinho pra que vocs me programem do jeito que vocs quiserem. 

Arthur olhou para Trillian sem entender. Ela fez sinal para que ele entrasse, mas no dissesse nada. 

-Computador -disse Zaphod -, diga novamente qual  nossa trajetria no momento. 

-Com prazer, meu querido. Estamos atualmente em rbita do lendrio planeta Magrathea, a uma altitude de 500 quilmetros. 

-Isso no prova nada -disse Ford. -Eu no confiaria nesse computador nem mesmo para calcular meu peso. 

-Posso fazer isso sem problemas -disse o computador, animado, cuspindo mais fita perfurada. -Posso at mesmo determinar seus problemas de personalidade com preciso de dez casas decimais, se voc quiser. Trillian interrompeu. 

-Zaphod -disse ela -, a qualquer momento estaremos sobrevoando o lado diurno deste planeta, seja ele o que for. 

-O que voc quer dizer com isso? O planeta est justamente onde eu previ, no ? 

-, eu sei que h um planeta l. No estou discutindo com ningum. O negcio  que eu no seria capaz de distinguir Magrathea de nenhum outro pedregulho flutuando no espao. O dia est nascendo, caso voc esteja interessado. 

-Est bem, est bem -murmurou Zaphod. -Pelo menos vamos apreciar a vista. Computador! 

-Oi, gente! O que ... 

-Cale a boa e mostre o planeta outra vez. 

Novamente uma massa escura e sem detalhes discernveis encheu as telas: era o planeta que estavam sobrevoando. 

Ficaram olhando para as telas por um momento. Zaphod estava excitadssimo. 

-Ainda estamos sobrevoando o lado noturno -disse ele, em voz baixa. A imagem do planeta passava pelas telas. -A superfcie do planeta est no momento a uma distncia de 500 quilmetros... -prosseguiu Zaphod, tentando valorizar aquele momento que ele considerava de grande importncia. Magrathea! Sentia-se ofendido pelo ceticismo de Ford. Magrathea! -Dentro de alguns segundos estaremos vendo... olhem! 

Foi um momento grandioso. Mesmo o mais viajado vagabundo das estrelas no pode conter um arrepio diante de uma espetacular alvorada vista do espao, e uma alvorada num sistema binrio  uma das maravilhas da Galxia. 

Do meio da escurido absoluta surgiu subitamente um ponto de luz ofuscante. Aos poucos foi se abrindo, formando um fino crescente, e segundos depois dois sis apareceram, duas fornalhas de luz, queimando o horizonte com fogo branco. Raios de cor intensa riscavam a atmosfera rarefeita do planeta. -As luzes da aurora...! -exultava Zaphod. -Os sis gmeos de Soulianis e Rahm...! 

-Ou seja l o que for -disse Ford baixinho. 

-Soulianis e Rahm! -insistiu Zaphod. 

Os sis ardiam no negrume do espao, e ouvia-se uma msica macabra no recinto: era Marvin cantarolando, sarcstico, porque detestava a espcie humana. 

Ford contemplava o espetculo de luz  sua frente, ardendo de entusiasmo; porm era apenas o entusiasmo de ver um planeta que jamais vira antes; isso lhe bastava. Irritava-o um pouco a necessidade que Zaphod tinha de criar uma fantasia ridcula para poder se empolgar com a cena. Toda essa bobagem de Magrathea parecia-lhe infantil. No basta apreciar a beleza de um jardim, sem ter que imaginar que h fadas nele? 

Para Arthur, toda essa histria de Magrathea era totalmente incompreensvel. Virou-se para Trillian e perguntou-lhe o que estava acontecendo. 

-S sei o que Zaphod disse -cochichou. -Pelo visto, Magrathea  uma espcie de lenda antiqissima que ningum leva a srio. Mais ou menos como a lenda de Atlntida l na Terra, s que dizem que os magratheanos fabricavam planetas. 

Arthur olhava para a tela, sentindo falta de alguma coisa importante. De repente deu-se conta do que era. 

-Tem ch nessa nave? 

Pouco a pouco ia aumentado a faixa visvel do planeta que sobrevoavam. Os sis agora estavam bem acima do horizonte, destacando-se da escurido do cu; terminara o espetculo pirotcnico do amanhecer, e a superfcie do planeta parecia erma e assustadora  luz do dia -cinzenta, cheia de poeira e de contornos imprecisos. Parecia morta e fria como uma cripta. 

De vez em quando surgiam detalhes promissores no horizonte longnquo -gargantas, talvez montanhas, quem sabe at cidades -, mas,  medida que se aproximavam, a imagem perdia a nitidez e no ficava claro do que se tratava. A superfcie do planeta estava apagada pelo tempo, pelo lento movimento da atmosfera estagnada que nela roava h sculos. 

Certamente era um planeta velhssimo. 

Por um momento surgiu uma dvida na mente de Ford, ao contemplar a paisagem cinzenta do planeta. A imensido do tempo o perturbava; era uma presena palpvel. Pigarreou. 

- Bem, e se for... 
-  -disse Zaphod. 
-No  -prosseguiu Ford. -Mas o que voc quer com esse planeta? No h nada nele. 

- No na superfcie -disse Zaphod. 
-Est bem. Mesmo que tenha alguma coisa, no acredito que voc esteja interessado em estudar arqueologia industrial. O que  que voc est procurando? 

Uma das cabeas de Zaphod desviou a vista. A outra olhou ao redor para ver o que a primeira estava vendo, mas ela no estava olhando para nada em particular. 

-Bem -disse Zaphod, meio vago -, em parte  curiosidade, em parte  o gosto pela aventura, mas acho que o principal  a perspectiva de fama e dinheiro... 

Ford encarou-o. Teve a ntida impresso de que Zaphod no tinha a menor idia do motivo que o levara ali. 

-Sabe, no fui nem um pouco com a cara desse planeta -disse Trillian, com um arrepio. 

-Ah, no ligue para isso -disse Zaphod. -Com metade das riquezas do antigo Imprio Galctico guardadas em algum lugar a dentro, o planeta tem todo o direito de no ser l essas coisas em matria de beleza natural. 

"Bobagem", pensou Ford. "Ainda que fosse mesmo a sede de uma antiga civilizao j extinta, ainda que uma srie de coisas muito improvveis fosse verdadeira, se houvesse de fato imensas riquezas guardadas l, era impossvel que elas tivessem algum valor para a civilizao atual." Deu de ombros. 

-Acho que  s um planeta sem vida -disse ele. 

- Esse suspense est me matando -disse Arthur, irritado. 
A tenso nervosa e o estresse so agora problemas sociais srios em todas as partes da Galxia, e  para no exacerbar ainda mais esta situao que vamos revelar os fatos que se seguem antecipadamente. 

O planeta em questo  mesmo o lendrio Magrathea. 

O terrvel ataque de msseis que ter incio em breve, desencadeado por um antigo sistema de defesa automtico, resultar apenas na destruio de trs xcaras de caf e de uma gaiola de ratos, um brao machucado e a inoportuna criao e sbita morte de um vaso de petnias e um inocente cachalote. 

Para manter um mnimo de suspense, no diremos por enquanto a quem pertence o brao que ser machucado. Esse fato pode ser mantido em segredo sem qualquer problema por ser absolutamente irrelevante. 



Captulo 17


Tendo comeado mal o dia, a mente de Arthur estava se recompondo a partir dos fragmentos a que havia sido reduzida na vspera. Arthur encontrara uma Nutrimtica, mquina que lhe dera um copo plstico cheio de um lquido que era quase, mas no exatamente, completamente diferente do ch. A mquina funcionava de maneira muito interessante. Quando o boto de bebida era apertado, ela fazia um exame instantneo, porm altamente detalhado, das papilas gustativas do usurio, uma anlise espectroscpica de seu metabolismo e ento enviava pequenos sinais experimentais por seu sistema nervoso para testar seu gosto. Porm ningum entendia por que ela fazia tudo isso, j que invariavelmente servia um lquido que era quase, mas no exatamente, completamente diferente do ch. A Nutrimtica  fabricada pela Companhia Ciberntica de Sirius, cujo departamento de reclamaes atualmente cobre todos os continentes dos trs primeiros planetas do sistema estelar de Sirius Tau. 

Arthur bebeu o lquido e sentiu que ele o reanimou. Olhou para as telas de novo e viu mais algumas centenas de quilmetros de deserto cinzento passarem por eles. De repente resolveu fazer uma pergunta que o vinha incomodando h algum tempo. 

- No tem nenhum perigo? 
-Magrathea est morto h cinco milhes de anos -disse Zaphod. - claro que no h perigo nenhum. A essa altura, at os fantasmas j criaram juzo e esto casados e cheios de filhos. Neste momento, um som estranho e inexplicvel ouviu-se no recinto -parecia uma fanfarra distante; um som oco, frouxo, insubstancial. Foi seguido de uma voz igualmente oca, frouxa e insubstancial. 

-Sejam bem-vindos... - disse a voz. Algum estava falando com eles, daquele planeta morto. 

-Computador! -gritou Zaphod. 

-Oi, gente! 

-Que diabo  isso? 

-Ah, alguma gravao de cinco milhes de anos que est sendo tocada para ns. 

-O qu? Uma gravao? 

-Psss! -exclamou Ford. -Vamos escutar. 

A voz era velha, corts, quase encantadora, porm continha um toque de ameaa inconfundvel. 

-Isto  uma gravao, e infelizmente no h ningum presente no momento. O Conselho Comercial de Magrathea agradece a sua gentil visita... 
-Uma voz de Magrathea! -exclamou Zaphod. 
- Est bem, voc venceu -disse Ford. 
-...porm lamenta informar que todo o planeta est temporariamente fechado. Obrigado. Se tiverem a bondade de deixar seus nomes e o endereo de um planeta em que possamos contat-los, por favor, falem aps o sinal. 

Ouviu-se um zumbido e, depois, silncio. 

-Querem se livrar de ns -disse Trillian, nervosa. -O que vamos fazer? 

- s uma gravao -disse Zaphod. -Vamos em frente. Ouviu, computador? 

-Ouvi, sim -disse o computador. Acelerando um pouco a nave. Esperaram. 

Um ou dois segundos depois ouviu-se a fanfarra, seguida da voz: 

-Queremos informar-lhes que, assim que reabrirmos, o fato ser anunciado nas principais revistas e suplementos coloridos e nossos clientes podero mais uma vez adquirir o que h de melhor em matria de geografia contempornea. -O tom de ameaa da voz intensificou-se. - At ento, agradecemos o interesse de nossos clientes e pedimos que partam. Agora. 

Arthur olhou para os rostos nervosos de seus companheiros. 

- Bem, acho melhor a gente ir embora, no ? 
-Oral -disse Zaphod. - No h motivo para preocupao. 
- Ento por que todo mundo est to nervoso? 
-Estamos s interessados! -gritou Zaphod. -Computador, comece a penetrar na atmosfera e preparar para a aterrissagem. Desta vez a fanfarra foi s pro forma, e a voz, bem fria. 

- muito gratificante o seu entusiasmo manifestado em relao a nosso planeta. Portanto, gostariamos de lhes dizer que os msseis teleguiados que esto no momento convergindo para sua nave fazem parte de um servio especial que oferecemos a nossos clientes mais entusisticos; as ogivas nucleares prontas para detonar so apenas um detalhe da cortesia. Esperamos no perder contato com vocs em vidas futuras... 
Obrigado. 
A voz calou-se. 
-Ah -exclamou Trillian. 

-Hummm... -disse Arthur. 

- E agora? -perguntou Ford. 
-Escutem -disse Zaphod -, ser que vocs no entendem? Isso  s uma mensagem gravada h milhes de anos. No se aplica ao nosso caso, entenderam? 

- E os msseis? -perguntou Trillian, em voz baixa. 
-Msseis? Ora, no me faa rir. 
Ford deu um tapinha no ombro de Zaphod e apontou para a tela de trs. Nela via-se claramente dois dardos prateados subindo em direo  nave. Com um aumento maior, viu-se claramente que eram dois foguetes dos grandes. Foi um choque. 

-Acho que eles vo se esforar o mximo para que se aplique ao nosso caso tambm -disse Ford.
Zaphod olhou para os outros, atnito. 
-Que barato!. Tem algum l embaixo que quer matar a gente! 
-Maior barato! -disse Arthur. 
-Mas voc no entende o que isso representa? 
-Claro. Vamos morrer. 
-Sim, mas afora isso. 

-Afora isso? 
-Quer dizer que l deve ter alguma coisa! 
-Como  que a gente sai dessa? 
A cada segundo, a imagem dos msseis na tela aumentava. Agora eles j estavam apontando diretamente para o alvo, de modo que tudo que se via deles eram as ogivas, de frente. 
-S por curiosidade -disse Trillian -, o que vamos fazer? 

- No perder a calma -disse Zaphod. 
-S isso? -gritou Arthur. 

-No, vamos tambm... ah... adotar tticas de evaso! -disse Zaphod, subitamente em pnico. -Computador, que espcie de ttica de evaso podemos adotar? 

- Bem... infelizmente nenhuma, pessoal -disse o computador. 
- ...ou ento outra coisa qualquer -disse Zaphod. 
-H..

-Alguma coisa parece estar interferindo com meus sistemas de controle - explicou o computador, com uma voz alegre. -Impacto em 45 segundos. Podem me chamar de Eddie, se isso os ajudar a manter a calma. 

Zaphod tentou correr em vrias direes ao mesmo tempo. 

-Certo! -exclamou. -Bem... vamos ter que assumir o controle manual da nave. 

-Voc sabe pilot-la? -perguntou Ford, com um tom de voz simptico. 

- No. E voc? 
-Tambm no. 
-Trillian, e voc? 
-Tambm no. 
-Tudo bem -disse Zaphod, relaxando. -Vamos trabalhar todos juntos. 
-Eu tambm no sei -disse Arthur, achando que j era hora de comear a se afirmar. 
-Era o que eu imaginava -disse Zaphod. -Est bem. Computador, quero controle manual, imediatamente. 

-  todo seu -disse o computador. 
Diversos painis grandes abriram-se, contendo diversos pacotes de plsticos e rolos de celofane: os controles nunca tinham sido usados antes. 

Zaphod contemplou-os assustado. 

-Vamos l, Ford. Retroceder a toda velocidade, dez graus para estibordo. Ou coisa parecida... 

-Boa sorte, gente -disse o computador. -Impacto dentro de 30 segundos... 

Ford saltou para cima dos controles; s conseguiu reconhecer alguns deles, e os acionou. A nave estremeceu e guinchou, pois todos os seus foguetes direcionadores tentaram empurr-la em todas as direes simultaneamente. Ford soltou metade dos controles, e a nave comeou a rodar num arco fechado, at completar meia-volta, seguindo diretamente em direo aos msseis. 

Colches de ar amortecedores de impacto saram das paredes de repente e todos foram atirados de encontro a eles. Por alguns segundos, as foras de inrcia os mantiveram achatados contra os colches, ofegantes, incapazes de se mexer. Em desespero, Zaphod conseguiu safar-se e dar um pontap numa pequena chave que fazia parte do sistema de direcionamento. 

A chave caiu da parede. A nave fez uma curva abrupta e virou para cima. A tripulao foi toda jogada contra a parede oposta. 

O exemplar de Ford do Guia do Mochileiro foi cair em cima do painel de controle, o que teve dois efeitos simultneos: o livro comeou a dizer a quem estivesse prestando ateno nele quais eram as melhores maneiras de partir de Antares levando clandestinamente glndulas de periquitos antareanos (espetadas em palitos, so salgadinhos asquerosos, porm esto em moda, e verdadeiras fortunas so gastas na aquisio dessas glndulas, por idiotas muito ricos que querem esnobar outros idiotas muito ricos); e a nave de repente comeou a cair como uma pedra. 

Naturalmente, foi mais ou menos nesse momento que um membro da tripulao machucou bastante o brao.  necessrio enfatizar esse fato porque, como j afirmamos, afora isso a tripulao escapou absolutamente inclume, e os letais msseis nucleares no atingiram a nave. A segurana dos tripulantes est inteiramente garantida. 

-Impacto em 20 segundos, pessoal -disse o computador. 

- Ento liga a porcaria dos motores! -gritou Zaphod. 
-Claro, tudo bem -disse o computador. Com um zumbido sutil, os motores ligaram-se novamente, a nave retomou seu curso e voltou a seguir em direo aos msseis. 

O computador comeou a cantar. 

-Ao caminhar na tempestade... -comeou ele, com uma voz anasalada - mantenha a cabea erguida... 

Zaphod gritou-lhe que se calasse, porm no foi possvel ouvi-lo no meio daquele rudo, que todos, naturalmente, acharam que fosse o rudo de sua prpria destruio. 

- E no tenha medo do escuro! -cantava Eddie. 
Ao reassumir sua trajetria, a nave ficara de cabea para baixo; assim, os tripulantes estavam no teto, e portanto no tinham acesso aos comandos. 

- No final da tempestade... -cantarolava Eddie. 
Os dois msseis cresciam cada vez mais nas telas, e seus rugidos eram cada vez mais prximos. 

- .. .h um cu dourado... 
Porm, por um acaso extraordinariamente feliz, eles no haviam corrigido sua trajetria com preciso em relao  trajetria aleatria da nave, e passaram logo abaixo dela. 

-E o doce canto da cotovia... Correo: impacto dentro de 15 segundos, pessoal... Caminhe contra o vento... 

Os msseis descreveram um arco e voltaram. 

- agora -disse Arthur, olhando para a tela. -Agora vamos morrer mesmo, no ? 

-Preferia que voc parasse de dizer isso -gritou Ford. 

-Mas  verdade, no ? -. 

-Caminhe pela chuva... -cantava Eddie. 

Arthur teve uma idia. Ps-se de p com dificuldade. 

-Por que a gente no liga o tal gerador de improbabilidade? -perguntou ele. -Talvez a gente o alcance. 

-Voc est maluco? -exclamou Zaphod. -Sem antes fazer a programao, pode acontecer qualquer coisa. 

-Qual o problema, a essa altura? -gritou Arthur. 

-Ainda que seus sonhos se esfumem... -cantava Eddie. Arthur agarrou-se a uma protuberncia decorativa localizada no trecho em que a curva da parede encontrava com o teto. 

-Siga em frente, cheio de esperana... 

-Algum podia me dizer por que Arthur no deve ligar o gerador de improbabilidade? -gritou Trillian. 

-E voc no h de estar sozinho... Impacto dentro de cinco segundos, pessoal; foi um prazer conhec-los. Deus os abenoe... Sozinho jamais! 

- Eu perguntei -berrou Trillian -por que..
. 
Houve ento uma exploso estonteante de rudos e luzes. 


Captulo 18


E logo em seguida a nave Corao de Ouro seguia em frente na mais perfeita normalidade, com seu interior inteiramente redecorado. Agora era um pouco maior, pintado com delicados tons pastel de verde e azul. No centro havia uma escada em espiral, que no levava a nenhum lugar em especial, cercada de samambaias e flores amarelas; a seu lado, um pedestal de relgio de sol, de pedra, em cima do qual se encontrava o terminal central do computador. Uma srie de luzes e espelhos engenhosamente dispostos criavam a iluso de que o observador estava dentro de uma estufa, com vista para um amplo jardim, muito bem-cuidado. Ao redor da estufa havia mesas com tampos de mrmore e pernas de ferro batido, lindamente trabalhadas. Quando se olhava para a superfcie polida do mrmore, as formas vagas dos controles se tornavam visveis, e, ao estender a mo para toc-los, os controles se materializavam imediatamente. Olhando-se os espelhos no ngulo correto, eles pareciam refletir todos os dados relevantes, embora fosse impossvel dizer qual a origem dessas imagens refletidas. Em suma: uma beleza extraordinria. 

Refestelado numa espreguiadeira de palhinha, Zaphod Beeblebrox perguntou: 

-Que diabos aconteceu? 

-Bem, o que eu estava dizendo -disse Arthur, ao lado de um pequeno laguinho com peixes ornamentais -era que a tal chave do gerador de improbabilidade ficava aqui -e, ao falar, indicava o lugar onde antes ficava a chave e agora havia um vaso com uma planta. 

-Mas onde estamos? -perguntou Ford, sentado na escada em espiral, com uma Dinamite Pangalctica geladinha na mo. 

-Exatamente no mesmo lugar, pelo visto -disse Trillian, pois nos espelhos a seu redor de repente apareceu a mesma paisagem rida de Magrathea. 

Zaphod levantou-se de um salto. 

- Ento o que aconteceu com os msseis?
Uma nova e surpreendente imagem apareceu nos espelhos. 

-Parece -disse Ford, hesitante -que se transformaram num vaso de petnias e numa baleia muito espantada... 

-O fator de improbabilidade -interrompeu Eddie, que no havia mudado nem um pouco - de oito milhes, setecentos e sessenta e sete mil, cento e vinte e oito contra um. 

Zaphod olhou para Arthur. 

-A idia foi sua, terrqueo? 

- Bem -disse Arthur -, eu s fiz... 
-Voc usou a cabea, sabe? Grande idia, ligar o gerador de improbabilidade por um segundo sem ativar as telas de proteo. Olhe, rapaz, voc salvou as nossas vidas, sabe? 

-Ah -disse Arthur-, no foi nada... 

-Nada? -disse Zaphod. -Bem, ento no se fala mais nisso. 

Computador, vamos aterrissar. 
-Mas... 

- Eu disse que no se fala mais nisso. 
Tambm no se falou mais no fato de que, contra todas as probabilidades, um cachalote havia de repente se materializado muitos quilmetros acima da superfcie de um planeta estranho. 

E como no  este o meio ambiente natural das baleias em geral, a pobre e inocente criatura teve pouco tempo para se dar conta de sua identidade "enquanto" cachalote, pois logo em seguida teve de se dar conta de sua identidade "enquanto" cachalote morto. 

Segue-se um registro completo de toda a vida mental dessa criatura, do momento em que ela passou a existir at o momento em que ela deixou de existir. 

Ah...! O que est acontecendo?, pensou o cachalote. 

Ah, desculpe, mas quem sou eu? 

Ei! 

Por que estou aqui? Qual a minha razo de ser? 

O que significa perguntar quem sou eu? 

Calma, calma, vamos ver... ah! que sensao interessante, o que ?  como... bocejar, uma ccega na minha... minha... bem,  melhor comear a dar nome s coisas para eu poder fazer algum progresso nisto que, para fins daquilo que vou chamar de discusso, vou chamar de mundo. Ento vamos dizer que esta seja minha barriga. 

Bom. Ah, est ficando muito forte. E que barulho  esse passando por aquilo que resolvi chamar de minha cabea? Talvez um bom nome seja... vento! Ser mesmo um bom nome? Que seja... talvez eu ache um nome melhor depois, quando eu descobrir pra que ele serve. Deve ser uma coisa muito importante, porque tem muito disso no mundo. Epa! Que diabo  isso? ... vamos chamar essa coisa de rabo. Isso, rabo. Epa! Eu posso mex-lo bastante! Oba! Oba! Que barato! No parece servir pra muita coisa, mas um dia eu descubro pra que ele serve. Bem, ser que eu j tenho uma viso coerente das coisas? 

No. 

No faz mal. Isso  to interessante, tanta coisa pra descobrir, tanta coisa boa por vir, estou tonto de expectativa... 

Ou ser o vento? 

Realmente tem vento demais aqui, no ? 

E, puxai Que  essa coisa se aproximando de mim to depressa? To depressa. To grande e chata e redonda, to... to... Merece um nome bem forte, um nome to... to... cho!  isso! Eis um bom nome: cho! 

Ser que eu vou fazer amizade com ele? 

E o resto -aps um baque sbito e mido - silncio. 

Curiosamente, a nica coisa que passou pela mente do vaso de petnias ao cair foi: Ah, no, outra vez! Muitas pessoas meditaram sobre esse fato e concluram que, se soubssemos exatamente por que o vaso de petnias pensou isso, saberamos muito mais a respeito da natureza do Universo do que sabemos atualmente. 



Captulo 19


Esse rob vai conosco? -perguntou Ford, olhando com repulsa para Marvin, que estava em p, os ombros cados para a frente, desconjuntado, debaixo de uma palmeirinha. 

Zaphod desviou a vista das telas-espelhos, que mostravam uma viso panormica da paisagem desrtica na qual a nave Corao de Ouro acabava de aterrissar. 

-Ah, o Andride Paranide -disse ele. - , vamos lev-lo. 

-Mas o que a gente vai fazer com um rob manaco-depressivo? -Voc acha que o seu problema  srio? -exclamou Marvin, 

como se estivesse se dirigindo ao novo morador de uma sepultura. -E eu? O que fao se eu sou um rob manaco-depressivo? No, nem tente responder; eu sou 50 mil vezes mais inteligente que voc e nem eu sei a resposta. S ao tentar me colocar no seu nvel intelectual, fico com dor de cabea. Trillian veio correndo de sua cabine. 

-Meus ratinhos brancos fugiram! -exclamou ela. 

Nos dois rostos de Zaphod, expresses de profunda preocupao e consternao nem sequer fingiram aparecer. 

-Danem-se os seus ratinhos brancos. Trillian olhou-o com raiva e saiu de novo. 

 possvel que a frase de Trillian tivesse despertado mais ateno se todos soubessem que os seres humanos eram apenas a terceira forma de vida mais inteligente do planeta Terra, e no (como era geralmente considerado pela maioria dos observadores independentes) a segunda. 

- Boa tarde, meninos. 
A voz era estranhamente familiar, porm curiosamente diferente. Tinha um qu de maternal. Ela manifestou-se pela primeira vez quando os tripulantes aproximaram-se da cmara de descompresso pela qual passariam para sair da espaonave. 

Eles se entreolharam surpresos. 

- o computador -explicou Zaphod. -Descobri que ele tinha uma segunda personalidade, para ser usada em casos de emergncia, e eu achei que talvez fosse melhor que a outra. 

-Esta  a primeira vez que vocs vo sair neste planeta desconhecido -prosseguiu a nova voz de Eddie. -Por isso eu quero todos bem agasalhadinhos, e nada de botar a mozinha em criaturinhas feias de olhos esbugalhados, ouviram? 

Zaphod tamborilava a escotilha com impacincia. 

-Me desculpem -disse ele. -Acho que estaramos melhor com uma rgua de clculo. 

-Muito bem!. -gritou o computador. -Quem foi que disse isso? 

-Quer abrir a escotilha de sada, por favor, computador? -disse Zaphod, tentando no perder a calma. 

-S quando a pessoa que disse aquilo se identificar -falou o computador, fechando algumas sinapses. 

-Ah, meu Deus -murmurou Ford, encostando-se num an-teparo e comeando a contar at dez. Preocupava-o muito a possibilidade de que um dia as formas de vida inteligentes no soubessem mais fazer isso. Contar era a nica maneira que restava aos seres humanos para provar sua independncia em relao aos computadores. 

-Vamos -disse Eddie, srio. 

-Computador... -foi dizendo Zaphod. 

-Estou esperando -interrompeu Eddie. -Se precisar, espero o dia inteiro... 

-Computador -disse Zaphod, que havia tentado pensar num raciocnio sutil que convencesse o computador, mas resolveu desistir de continuar lutando com as mesmas armas que ele -, se no abrir essa escotilha agora, eu vou agora mesmo at o seu banco de dados e vou reprogramar voc com um porrete desse tamanho, ouviu? 

Eddie, chocado, parou para pensar. 

Ford continuava contando discretamente. Isso  a coisa mais agressiva que se pode fazer com um computador.  como se aproximar de um ser humano e dizer: Sangue... sangue... sangue. 

Afinal, Eddie disse, em voz baixa: 

-Pelo visto, todos ns vamos ter que nos esforar para desenvolvermos um bom relacionamento. 

E a escotilha se abriu. 

Um vento glido surpreendeu-os; encolheram-se de frio e desceram a rampa at a poeira morta de Magrathea. 

-Aposto que tudo isso vai acabar em lgrimas -gritou Eddie quando eles j se afastavam, e fechou a escotilha. 

Alguns minutos depois, ele abriu e fechou a escotilha obedecendo a uma ordem que o pegou completamente de surpresa. 



Captulo 20


Cinco figuras caminhavam lentamente pela terra desrtica. O solo era s vezes de um cinza chato, s vezes de um marrom chato, e o resto era menos interessante ainda. Era como um pntano seco, sem qualquer vegetao, coberto com uma camada de dois centmetros de poeira. Fazia muito frio. 

Zaphod estava evidentemente muito deprimido com aquela paisagem. Foi se destacando dos outros e logo se perdeu de vista atrs de uma pequena elevao. 

O vento fazia arder os olhos e ouvidos de Arthur, e o ar viciado e rarefeito ressecava-lhe a garganta. Porm o que estava mais impactado era sua mente. 

- fantstico... -exclamou ele, e surpreendeu-se com o som de sua prpria voz. Naquela atmosfera rarefeita, o som se propagava com dificuldade. 

-Quer saber o que eu acho? O fim do mundo  isso aqui -disse Ford. -Um mictrio pra gatos  mais divertido. -Sua irritao crescia. Com tantos planetas em todos os sistemas estelares da Galxia, muitos deles selvagens e exticos, cheios de vida, depois de 15 anos de exlio, ele tinha que ir parar numa droga daquelas! Nem mesmo uma barraquinha de cachorro-quente por perto. Abaixou-se e pegou um torro de terra fria, mas embaixo dele no havia nada que valesse a pena viajar milhares de anos-luz para ver. 

-No -insistiu Arthur -, ser que voc no entende?  a primeira vez que ponho os ps em outro planeta... todo um mundo diferente...  mesmo uma pena que no tenha nada pra se ver. 

Trillian, toda encolhida de frio, tremia. Havia uma expresso de dvida em seu rosto. Ela seria capaz de jurar que tinha visto um leve movimento inesperado com o canto da vista, mas quando olhou naquela direo s viu a nave, imvel e silenciosa, uns 100 metros atrs. 

Sentiu-se aliviada quando, segundos depois, viu Zaphod no alto da elevao, fazendo sinal para que os outros se aproximassem. 

Ele parecia excitado, mas no dava para ouvir o que ele dizia, por causa do vento e da atmosfera rarefeita. 

Ao se aproximarem da elevao, perceberam que ela parecia ser circular -uma cratera de uns 150 metros de dimetro. Ao redor da cratera havia umas coisas pretas e vermelhas. Pararam e olharam para um dos pedaos. Era mido. Tinha a consistncia de borracha. 

Horrorizados, descobriram que era carne de baleia fresca. 
Na beira da cratera, encontraram Zaphod. 
-Vejam -disse ele, apontando para dentro da cratera. 
No centro via-se a carcaa arrebentada de um cachalote que no vivera o suficiente para se decepcionar com a sua condio. O silncio foi perturbado apenas pelos leves espasmos involuntrios da garganta de Trillian. 

-Acho que  bobagem enterr-la, no ? -murmurou Arthur, e logo se arrependeu de ter falado. 

-Venha -disse Zaphod, e foi descendo rumo ao centro da cratera. 

-O qu? Ir a? -disse Trillian, com extrema repulsa. 
-  -disse Zaphod. -Venham. Quero mostrar uma coisa. 
-D pra ver daqui -disse Trillian. 
- No,  outra coisa -disse Zaphod. -Venham. 
Todos hesitaram. 
-Vamos! -insistiu Zaphod - Eu achei a entrada. 
-Entrada? -exclamou Arthur, horrorizado. 
-A entrada do interior do planeta! Uma passagem subterrnea. O impacto da baleia rachou o cho, e  por a que a gente pode passar. Vamos onde homem algum pisou desde cinco milhes de anos atrs, explorar as profundezas do tempo... 

Marvin mais uma vez comeou a cantarolar, irnico. 

Zaphod deu-lhe um tabefe e ele parou. 

Com arrepios de asco, todos seguiram Zaphod, descendo a encosta da cratera, esforando-se ao mximo para no olhar o ser que a criara. 

-Ah, a vida -disse Marvin, lgubre. -Pode-se odi-la ou ignor-la, mas  impossvel gostar dela. 

No ponto em que cara a baleia, o cho havia cedido, revelando uma rede de galerias e passagens, muitas delas obstrudas por terra e entranhas de baleia. Zaphod havia comeado a desobstruir uma delas, mas Marvin era bem mais rpido nessa tarefa. Um ar mido saa das cavernas escuras, e, quando Zaphod iluminou a passagem com uma lanterna, no se viu quase nada. 

-Reza a lenda -disse ele -que os magratheanos passavam a maior parte do tempo debaixo da terra. 

-Por qu? -perguntou Arthur. -Por que a superfcie tornou-se muito poluda ou superpovoada? 

-No, acho que no -disse Zaphod. -Creio que eles simplesmente no gostavam muito dela. 

-Voc sabe mesmo o que est fazendo? -perguntou Trillian, olhando nervosa para as trevas. - Ns j sofremos um ataque, no ? 

-Escute, menina, eu garanto que a populao deste planeta  de zero mais ns quatro. Vamos entrar, , terrqueo... 

-Arthur -disse Arthur. 

-Pois , ser que dava pra voc ficar com esse rob e tomar conta dessa entrada? 

-Tomar conta? -perguntou Arthur. -Pra qu? Voc no acabou de dizer que no tem ningum neste planeta? 

- , pois , mas, voc sabe, s por segurana, est bem? -insistiu Zaphod. 
-A sua segurana ou a minha? 
- Ento estamos combinados. Vamos l. 
Zaphod enfiou-se na passagem, seguido de Trillian e Ford. 
-Tomara que vocs no se divirtam nem um pouco -disse Arthur. 
- No se preocupe -disse Marvin. - No h perigo de eles se divertirem. 
Segundos depois, eles j haviam desaparecido. 

Arthur ficou andando de um lado para o outro, batendo com os ps no cho, e depois concluiu que tmulo de baleia no  um bom lugar para ficar andando e batendo com os ps no cho. 

Marvin dirigiu-lhe um olhar assassino e em seguida desligou-se. 

Zaphod descia rapidamente a passagem, nervosssimo, mas tentava disfarar o nervosismo andando depressa. Apontou a lanterna para todas as direes. As paredes eram recobertas de ladrilhos escuros e frios; no ar havia um cheiro pesado de podrido. 

-Est vendo, eu no disse? -exclamou ele. -Um planeta habitado, Magrathea. -E seguiu em frente, caminhando por entre os montes de terra e detritos que enchiam o cho de ladrilhos. 

Trillian, naturalmente, lembrou-se do metr de Londres, s que ali era bem mais limpo. 

De vez em quando, os ladrilhos das paredes eram interrompidos por grandes mosaicos, formando desenhos simples e angulosos, em cores vivas. Trillian parou e examinou um deles, mas no conseguiu interpretar seu significado. Dirigiu-se a Zaphod: 

-Voc faz alguma idia do que representam esses smbolos estranhos? 

-Acho que so smbolos estranhos de alguma espcie -disse Zaphod, sem sequer olhar para trs. 

Trillian deu de ombros e seguiu-o. 

De vez em quando havia uma porta  esquerda ou  direita. Essas portas davam para pequenos recintos que, conforme constatou Ford, continham equipamentos de computador abandonado. Ford arrastou Zaphod para dentro de um desses cubculos para mostrar-lhe o que havia l. Trillian entrou tambm. 

- Escute -disse Ford -, voc acha que estamos em Magrathea... 
-Acho -disse Zaphod -, e a voz confirmou, no ? 

-Est bem. Ento aceito que estamos mesmo em Magrathea, para fins de discusso. S que at agora voc no explicou como foi que descobriu este planeta. Garanto que no foi ao consultar um atlas de astronomia. 

-Pesquisas. Arquivos do governo. Trabalhos de detetive. Algumas intuies felizes. Fcil. 

- E a voc roubou a nave Corao de Ouro pra vir at aqui? 
-Roubei a nave pra procurar um monte de coisas. 
-Um monte de coisas? -exclamou Ford, surpreso. -Por exemplo? 
-Sei l. 
-O qu? 
-Sei l o que eu estou procurando. 
-Como assim? 
-Porque... porque... acho que porque... se soubessem o que eu procurava, eu no poderia procurar. 

-Voc est maluco? 

- uma possibilidade que ainda no exclu -disse Zaphod, em voz baixa. 

-De mim mesmo s sei o que meu crebro consegue entender nas atuais circunstncias. Que no so nada boas. Durante um bom tempo ningum disse nada. Ford ficou olhando para Zaphod, bastante preocupado. 

- Escute, meu amigo, se voc quer... -comeou Ford. 
-No, espere... vou lhe dizer uma coisa -disse Zaphod. -Eu vivo rodando por a. Eu tenho uma idia, penso em fazer uma coisa, eu vou e fao. Resolvo virar presidente da Galxia, e pronto,  fcil. Resolvo roubar esta nave. Resolvo procurar Magrathea, e pronto, tudo acontece. , eu vejo qual  a melhor maneira de agir e sempre acerto.  como se eu tivesse um carto Galaxicred que sempre  aceito, embora eu nem precise mandar o cheque. E a, quando eu paro e penso: por que eu quis fazer isso? Como foi que eu consegui? -a eu sinto uma tremenda vontade de parar de pensar nisso. Como agora, por exemplo. Tenho que fazer o maior esforo s pra conseguir falar sobre esse assunto. 

Zaphod fez uma pausa. Fez-se silncio por algum tempo. Depois Zaphod franziu as sobrancelhas e disse: 

-Ontem  noite eu estava pensando nisso outra vez. Esse problema de uma parte do meu crebro no funcionar direito. Depois me ocorreu que o que parecia era que algum estava usando minha mente para ter boas idias, sem me dizer nada. Juntei as duas idias e conclu que talvez algum tenha reservado uma parte do meu crebro para isso, e por isso eu no tenho acesso a ela. A resolvi encontrar um jeito de verificar se era isso mesmo. 

"Fui ao compartimento mdico da nave e me liguei ao encefalgrafo. Fiz todos os testes mais importantes com minhas duas cabeas, todos os testes que eu tive que fazer com os mdicos do governo para poder ratificar minha nomeao para a presidncia. No deu nada. Quero dizer, nada de inesperado. Deu que era inteligente, cheio de imaginao, irresponsvel, nada confivel, extrovertido -tudo o que vocs j sabem. Nenhuma outra anomalia. Ento comecei a inventar outros testes, completamente aleatrios. Nada. A tentei fazer uma superposio dos resultados referentes a uma das cabeas com os da outra. Nada. A resolvi que era s parania. Antes de guardar os equipamentos, peguei a foto da superposio e olhei pra ela atravs de um filtro verde. Voc se lembra da minha superstio em relao  cor verde quando eu era garoto? Eu sempre quis ser astronauta mercante. Ford concordou com a cabea. 

-E no deu outra -disse Zaphod. -No meio dos crebros havia em cada um deles uma seo, e elas s estavam relacionadas uma com a outra, mas sem relao com o que estava em volta delas. Algum sacana cauterizou todas as sinapses e traumatizou eletronicamente aqueles dois pedaos do crebro. 

Ford arregalou os olhos. Trillian estava branca. 

-Algum fez isso com voc? -sussurrou Ford. -. 

-Mas voc faz alguma idia de quem foi? E por qu? 

-Por qu? Tenho uns palpites, s isso. Mas sei quem foi o sacana. 

-Sabe? Como? 

-Porque deixaram as iniciais marcadas nas sinapses cauteri-zadas. De propsito, pra eu saber. 

Ford olhou para ele horrorizado; estava todo arrepiado. 

-Iniciais? Marcadas no seu crebro? -. 

-Mas quais eram as iniciais, afinal? 

Zaphod olhou para ele em silncio por um momento. Ento desviou a vista. 
-Z. B. -disse, em voz baixa. 
Neste momento, uma porta de ao fechou-se atrs dele e o recinto comeou a encher-se de gs. 
-Depois eu explico -disse Zaphod, tossindo, e os trs desmaiaram. 



Captulo 21


Na superfcie de Magrathea, Arthur andava de um lado para o outro, emburrado. 

Para distra-lo, Ford tivera a idia de emprestar-lhe seu Guia do Mochileiro das Galxias. Arthur apertou alguns botes aleatoriamente. 

O Guia do Mochileiro das Galxias  uma obra organizada de modo um tanto catico e contm diversos trechos que foram includos simplesmente porque na hora os organizadores acharam que era uma boa idia. 

Um desses trechos (foi o que Arthur leu nesse momento) supostamente  o relato das experincias de um certo Veet Voojagig, jovem e tmido estudante da Universidade de Maximegalon, que seguiu uma carreira brilhante estudando filologia arcaica, tica transformacional e a teoria ondulatria-harmnica da percepo histrica, e que, aps uma noite bebendo Dinamite Pangalctica com Zaphod Beeblebrox, comeou a ficar obcecado com o que teria acontecido com todas as esferogrficas que ele havia comprado nos ltimos anos. 

Seguiu-se um longo perodo de pesquisas meticulosas, durante o qual Voojagig visitou todos os principais centros de perdas de esferogrficas da Galxia, e terminou formulando uma curiosa teoria que se popularizou muito na poca. Em algum lugar no cosmos -afirmou ele -, alm de todos os planetas habitados por humanides, reptilides, peixides, arvorides ambulantes e tons de azul superinteligentes, haveria tambm um planeta habitado exclusivamente por seres vivos esferografides. E era para esse planeta que iam todas as esferogrficas perdidas e abandonadas, escapulindo por buraquinhos no espao para um mundo onde elas podiam viver uma vida esferografide, reagir a estmulos de carter eminentemente esferografitico -em suma, levar a vida com que sonha toda esferogrfica. 

Como teoria, isso era bastante interessante. Mas, um dia, Veet Voojagig resolveu afirmar que havia descoberto esse planeta, onde teria trabalhado por algum tempo como chofer de uma famlia de canetas verdes baratas de ponta retrtil. Ento Voojagig foi internado, escreveu um livro e terminou como exilado tributrio, que  o que costuma acontecer com aqueles que fazem papel de bobo publicamente. 

Quando, um dia, foi enviada uma expedio para as coordenadas espaciais onde, segundo Voojagig, se encontraria o tal planeta, acharam apenas um pequeno asteride cujo nico habitante era um velhinho, o qual vivia afirmando que nada era verdade, se bem que mais tarde constatou-se que ele estava mentindo. 

Porm permaneceram sem resposta duas questes: a misteriosa quantia anual de 60.000 dlares altairenses depositada na sua conta, em Brantisvogan; e, naturalmente, a lucrativa empresa de comrcio de esferogrficas de segunda mo de propriedade de Zaphod Beeblebrox. 

Depois de ler essa passagem, Arthur largou o livro. O rob continuava sentado, completamente inerte. Arthur levantou-se e caminhou at o alto da borda da cratera. Ficou andando em torno da depresso, vendo os dois sis de Magrathea se pondo, uma cena magnfica. 

Desceu para o centro da cratera outra vez. Acordou o rob, porque  melhor falar at mesmo com um rob manaco-depressivo do que falar sozinho. 

-Est anoitecendo -disse Arthur. -Veja, rob, as estrelas esto aparecendo. 

Do interior de uma nebulosa escura s se pode ver um pequeno nmero de estrelas, e assim mesmo muito fracas; mas era melhor que nada. 

Obediente, o rob olhou para o cu e depois baixou a vista. 

-  -disse ele. -Que droga, no ? 
-Mas aquele pr-do-sol! Nunca vi nada igual, nem nos meus sonhos mais alucinantes... dois sis! Era como montanhas de fogo ardendo contra o cu. 

-J vi esse tipo de coisa -disse Marvin. -Um saco. 

-L na Terra a gente s tinha um sol -insistiu Arthur. -Sou de um planeta que se chamava Terra, voc sabe. 
-Sei, sim -disse Marvin. -Voc no fala noutra coisa. Pelo que voc diz, devia ser horrvel. 

-Ah, no, era um lugar belssimo... 

-Tinha oceanos? 

-Se tinha! -disse Arthur, suspirando. -Oceanos enormes, com ondas, bem azuis... 

- No tolero oceanos -disse Marvin. 
-Me diga uma coisa... -disse Arthur. -Voc se d bem com os outros robs? 
-Detesto todos -disse Marvin. -Aonde voc vai? Arthur no agentava mais. Levantou-se. 

-Acho que vou dar mais uma volta. 

-, eu entendo -disse Marvin, e contou 597 bilhes de carneiros at conseguir adormecer de novo. 

Arthur ficou dando tapinhas nos seus prprios braos para estimular a circulao. Recomeou a subir a borda da cratera. 

Como a atmosfera era muito rarefeita e no havia lua, a noite caa muito depressa, e j estava muito escuro. Por isso, Arthur s viu o velho quando j estava quase esbarrando nele. 



Captulo 22


O velho estava de costas para Arthur, contemplando os ltimos vestgios de luz que desapareciam no horizonte. Era um velho alto, que trajava uma longa tnica cinzenta. Quando se virou, revelou um rosto fino e nobre, envelhecido porm bondoso, o tipo de rosto que voc gosta de ver no gerente do seu banco. Mas ele no se virou nem mesmo quando Arthur soltou uma interjeio de espanto. 

Por fim, os ltimos raios de luz morreram completamente, e s ento ele se virou. Seu rosto ainda estava iluminado por alguma luz, e, quando Arthur procurou a fonte de onde ela vinha, viu que a alguns metros dali havia uma pequena nave, uma espcie de pequeno hovercraft. A seu redor havia um plido crculo de luz. 

O homem olhou para Arthur, com um olhar aparentemente triste. 

-Voc escolheu uma noite fria para visitar nosso planeta morto -disse ele. 

-Quem... quem  voc? -gaguejou Arthur. 

O homem virou o rosto. Novamente surgiu uma expresso de tristeza em sua fisionomia. 

-Meu nome no  importante -disse. 

Parecia estar pensando em alguma coisa. Pelo visto, no estava com pressa de comear a conversa. 

Arthur sentiu-se pouco  vontade. 

- Eu... aaah... o senhor me deu um susto -disse, por falta do que dizer. O homem virou-se e olhou para ele de novo, arqueando de leve as sobrancelhas. -Hum? 

- Eu disse que o senhor me assustou. 
- No tenha medo, no vou lhe fazer mal. Arthur franziu a testa. 
-Mas o senhor nos atacou! Os msseis..
. 
O homem olhou para o centro da cratera. A luzinha fraca que saa dos olhos de Marvin projetava dbeis sombras vermelhas sobre a enorme carcaa da baleia. 
O homem deu uma risadinha. 
- um sistema automtico -disse, e suspirou. -H milnios que esses computadores funcionam no interior do planeta, e seus empoeirados bancos de dados aguardam h muitas eras algum acontecimento. Acho que de vez em quando eles soltam um mssil s pra quebrar a monotonia. -Dirigiu um olhar srio a Arthur e acrescentou: - Eu gosto muito de cincia, sabe. 

-Ah...  mesmo? -perguntou Arthur, que estava comeando a ficar desconcertado com o jeito corts e curioso do velho. 

-Gosto, sim -respondeu o velho, e calou-se de novo. 

-Ah... -disse Arthur. -... -Sentia-se como um homem que, apanhado em flagrante de adultrio, quando o marido da amante entra no quarto, v o marido mudar as calas, comentar o tempo que est fazendo e ir embora. 

-Voc parece desconcertado -disse o homem, atencioso. 

-No, quero dizer... , estou, sim. O senhor sabe,  que a gente no esperava encontrar ningum aqui. Eu pensava que vocs todos j tinham morrido, sei l... 

-Morrido?-disse o velho. - No, que idia! Estvamos apenas dormindo. 

-Dormindo? -exclamou Arthur, surpreso. 

-, por causa da recesso econmica, sabe -disse o velho, aparentemente pouco ligando se Arthur entendia o que ele estava dizendo ou no. 

Arthur foi obrigado a perguntar: -Ah... recesso econmica? 

-Bem, h uns cinco milhes de anos a economia galctica entrou em crise, e como os planetas sob medida so um luxo suprfluo, voc entende... 

Fez uma pausa e olhou para Arthur. 

-Voc sabe que a gente construa planetas, no sabe? 

-Ah, claro -disse Arthur. - Era o que eu imaginava... 

-Uma atividade fascinante -disse o velho, com um olhar nostlgico. -O que eu preferia era fazer os litorais. Como eu me divertia, caprichando nos fiordes... Mas, como eu ia dizendo -disse ele, tentando retomar o fio da meada -, veio a recesso e resolvemos que o melhor a fazer seria dormir por uns tempos. Assim, programamos os computadores para nos acordarem quando tudo tivesse voltado ao normal. -O velho sufocou um leve bocejo e prosseguiu: -Os computadores estavam ligados  bolsa de valores da Galxia, de modo que seramos acordados quando a economia j tivesse recuperado o bastante para as pessoas voltarem a se interessar por nossos produtos, que so um tanto caros. 

Arthur, que lia The Guardian regularmente, ficou muito chocado. 

-Mas isso  um comportamento imperdovel, no acha? 

-Voc acha? -perguntou o velho, corts. -Desculpe, ando meio desatualizado. -Apontou para o fundo da cratera. -Aquele rob  seu? 

-No -respondeu uma vozinha metlica, vindo do fundo da cratera. -Sou meu, mesmo. 

-Se  que isso  um rob -murmurou Arthur. - mais uma espcie de gerador eletrnico de mau humor. 

-Traga-o aqui -disse o homem, surpreendendo Arthur com o tom de voz autoritrio que de repente surgiu em sua voz. Arthur chamou Marvin, que subiu  borda da cratera mancando ostensivamente, embora no fosse manco. 

-Pensando bem -disse o velho -,  melhor deix-lo a. Venha comigo. Coisas importantes esto acontecendo. 

Virou-se para seu veculo, o qual, embora aparentemente o velho no tivesse feito nenhum sinal para ele, vinha deslizando silenciosamente na direo deles, na escurido. 

Arthur olhou para Marvin, que agora ostensivamente virou-se com dificuldade e comeou a descer de volta para o centro da cratera, resmungando. 

-Venha -disse o velho. -Venha logo, seno voc chegar tarde. 

-Tarde? -exclamou Arthur. -Tarde pra qu? 

-Como voc se chama, humano? 

-Dent. Arthur Dent. 

-Tarde, como em "tarde demais", Dentarthurdent -disse o velho, friamente. - uma espcie de ameaa. -Novamente seus olhos cansados assumiram uma expresso melanclica. -Nunca fui muito bom em matria de ameaas, mas dizem que s vezes ameaar funciona, mesmo. 

Arthur arregalou os olhos. 

-Que criatura extraordinria -murmurou. 

-Como? -perguntou o velho. 

-Ah, nada, desculpe -disse Arthur, sem jeito. - Bem, para onde vamos? 

-Vamos pegar meu aeromvel -disse o velho, fazendo sinal para que Arthur entrasse no veculo, que j estava parado a seu lado. -Vamos nos aprofundar no interior deste planeta, onde nesse exato momento nossa espcie est despertando aps um sono de cinco milhes de anos. Magrathea est acordando. 

Arthur estremeceu sem querer, ao sentar-se ao lado do velho. Perturbava-o a estranheza do movimento daquele veculo, que balanava de leve ao elevar-se no ar. 

Arthur olhou para o velho, cujo rosto estava iluminado pelas luzinhas do painel de controle. 
-Desculpe -perguntou -, mas qual  seu nome mesmo? 
-Meu nome? -disse o velho, e a mesma tristeza nostlgica apareceu em seu rosto. Fez uma pausa. -Meu nome...  Slartibartfast. 
Arthur quase se engasgou. 
-Como? 
-Slartibartfast -repetiu o velho, tranqilo. 

-Slartibartfast?
O velho dirigiu-lhe um olhar srio. 
-Eu disse que meu nome no era importante. O aeromvel singrou o cu escuro. 



Captulo 23


 um fato importante, e conhecido por todos, que as coisas nem sempre so o que parecem ser. Por exemplo, no planeta Terra os homens sempre se consideraram mais inteligentes que os golfinhos, porque haviam criado tanta coisa -a roda, Nova York, as guerras, etc. -, enquanto os golfinhos s sabiam nadar e se divertir. Porm, os golfinhos, por sua vez, sempre se acharam muito mais inteligentes que os homens -exatamente pelos mesmos motivos. 

Curiosamente, h muito que os golfinhos sabiam da iminente destruio do planeta, e faziam tudo para alertar a humanidade; porm suas tentativas de comunicao eram geralmente interpretadas como gestos ldicos com o objetivo de rebater bolas ou pedir comida, e por isso eles acabaram desistindo e abandonaram a Terra por seus prprios meios antes que os vogons chegassem. 

A derradeira mensagem dos golfinhos foi entendida como uma tentativa extraordinariamente sofisticada de dar uma cambalhota dupla para trs assobiando o hino nacional dos Estados Unidos, mas na verdade o significado da mensagem era: Adeus, e obrigado por todos os peixes. 

Na verdade havia no planeta uma nica espcie mais inteligente que os golfinhos, que passava boa parte do tempo nos laboratrios de pesquisas de comportamento, correndo atrs de rodas e realizando experincias incrivelmente elegantes e sutis com seres humanos. O fato de que mais uma vez os homens interpretaram seu relacionamento com essas criaturas de modo totalmente errado era exatamente o que estava nos planos elaborados por elas. 



Captulo 24


Silenciosamente, o aeromvel cruzava a fria escurido, a nica luzinha acesa nas trevas profundas da noite de Magrathea. O veculo voava depressa. O companheiro de Arthur parecia absorto em seus prprios pensamentos, e nas duas vezes que Arthur tentou puxar conversa com ele o velho limitou-se a perguntar-lhe se estava tudo bem com ele, e a coisa ficou por a mesmo. 

Arthur tentou calcular a velocidade com que estavam se deslocando, mas a escurido l fora era absoluta, no havendo, assim, qualquer ponto de referncia. A sensao de estarem se movendo era to suave que era quase possvel acreditar que estavam parados. 

Ento apareceu ao longe um pontinho de luz, que em poucos segundos j havia crescido tanto que Arthur concluiu que o ponto estava se aproximando deles a uma velocidade colossal. Tentou discernir que espcie de nave seria. Olhava, mas no conseguia perceber nenhuma forma definida; de repente soltou uma interjeio de pavor quando o aeromvel perdeu altura num movimento sbito, parecendo estar prestes a chocar-se de frente com o outro veculo. A velocidade relativa dos dois parecia inacreditvel, e antes que Arthur tivesse tempo de respirar tudo j havia terminado. Quando deu por si, Arthur viu que estavam cercados de uma luminosidade prateada incompreensvel. Virou-se para trs de repente e viu um pequeno ponto preto diminuindo rapidamente na distncia, e levou alguns segundos para entender o que havia acontecido. 

Haviam entrado num tnel subterrneo. A velocidade relativa colossal fora simplesmente a velocidade do aeromvel em relao a um buraco no cho, a boca do tnel. A luminosidade prateada era a parede circular do tnel que eles agora estavam percorrendo, a algumas centenas de quilmetros por hora. 

Apavorado, Arthur fechou os olhos. 

Depois de um intervalo de tempo que ele sequer tentou avaliar, sentiu que estavam perdendo um pouco de velocidade, e algum tempo depois percebeu que estavam gradualmente parando. 

Reabriu os olhos. Ainda estavam dentro do tnel prateado, atravessando um verdadeiro labirinto de tneis convergentes. Quando por fim estacionaram, estavam numa pequena cmara de paredes curvas de ao. Diversos outros tneis tambm terminavam a e na extremidade oposta Arthur viu um crculo grande de luz fraca e irritante. Era irritante porque proporcionava uma espcie de iluso de tica: no havia como focalizar os olhos nela, e era impossvel calcular a que distncia estava. Arthur imaginou (erradamente) que fosse luz ultravioleta. 

Slartibartfast virou-se e encarou Arthur com seus olhos velhos e solenes. 

-Terrqueo -disse ele -, estamos agora no corao de Magrathea. 

-Como descobriu que eu sou terrqueo? 

-Estas coisas vo ficar claras para voc -disse o velho, delicadamente. - 
Pelo menos -acrescentou, com um toque de dvida na voz -vo ficar mais claras do que agora. -E prosseguiu: -Devo lhe avisar que a cmara pela qual vamos passar agora no existe literalmente dentro de nosso planeta.  um pouco... grande demais. Vamos entrar numa ampla extenso de hiperespao. A experincia talvez seja perturbadora para voc. 

Arthur fez uns rudos nervosos. 

Slartibartfast apertou um boto e acrescentou, num tom no muito tranqilizador: 

- Eu, pelo menos, fico de perna bamba. Segure-se bem firme. 
O aeromvel disparou em direo ao crculo de luz, e de repente Arthur teve uma idia mais ou menos clara do que  o infinito. 

Na verdade, no era o infinito. O infinito  uma coisa chata, nos dois sentidos da palavra. Quem olha para o cu  noite est olhando para o infinito; a distncia  incompreensvel, e portanto sem significado. A cmara na qual o aeromvel entrou estava longe de ser infinita; era apenas muito, muito, mas muito grande, to grande que dava a impresso de ser o infinito melhor do que o prprio infinito. 

Os sentidos de Arthur balanavam-se e rodavam enquanto o aeromvel, naquela velocidade imensa que ele j pudera estimar, subia lentamente no espao aberto, e a passagem por onde eles haviam entrado transformava-se num pontinho invisvel na parede reluzente da qual eles se afastavam. 

A parede. 

A parede desafiava a imaginao -ela a seduzia e derrotava. Era to assustadoramente imensa e lisa que seus limites, no alto, embaixo e nos lados, estavam alm do alcance da vista. Ela proporcionava uma vertigem capaz de matar uma pessoa de choque. 

A parede parecia perfeitamente plana. Seria necessrio o mais delicado medidor para constatar que,  medida que ela subia, aparentemente rumo ao infinito, e descia, e se espalhava para os dois lados, ela tambm se curvava. Fechava-se sobre si prpria a uma distncia de 13 segundos-luz dali. Em outras palavras: a parede era o interior de uma esfera oca, com cerca de cinco milhes de quilmetros de dimetro, inundada por uma luz inimaginvel. 

-Bem-vindo -disse Slartibartfast, quando o cisco infinitesimal que era o aeromvel, viajando agora a uma velocidade trs vezes superior  velocidade da luz, avanava imperceptivel-mente naquele espao estonteante. -Bem-vindo  nossa fbrica. 

Arthur olhou ao redor, com uma mistura de deslumbramento e horror. Dispostos  sua frente, a distncias que ele no podia calcular, nem mesmo imaginar, havia uma srie de curiosas suspenses, delicadas redes de metal e luz penduradas sobre sombrias formas esfricas que pairavam no espao. 

-  aqui -disse Slartibartfast -que fazemos a maioria dos nossos planetas. -Quer dizer -disse Arthur, articulando as palavras com dificuldade -que vocs vo reabrir a fbrica agora? 

-No, no, que  isso! -exclamou o velho. -No, a Galxia ainda est longe de ter dinheiro o suficiente para manter nosso negcio. No, fomos despertados apenas para realizar um nico servio, para clientes muito... especiais, de outra dimenso. Talvez isto lhe interesse... ali, ao longe,  nossa frente. 

Arthur olhou na direo em que o velho apontava, at que conseguiu distinguir a estrutura que ele indicava. Era, de fato, a nica delas que tinha alguns sinais de atividade, embora isto fosse mais uma impresso subliminar do que uma coisa concreta. 

Porm nesse instante um facho de luz descreveu um arco atravs da estrutura, pondo em relevo as formas que havia na superfcie da esfera negra nela contida. Formas que Arthur conhecia, formas irregulares que lhe eram to familiares como as formas das palavras, parte do mobilirio de sua mente. Por alguns segundos, Arthur ficou abestalhado, sem palavras, enquanto as imagens danavam em sua mente, tentando encontrar um ponto em que pudessem estacionar e fazer sentido. 

Uma parte de seu crebro lhe dizia que ele sabia muito bem o que era que estava vendo, o que representavam aquelas formas, enquanto uma outra parte, muito sensatamente, recusava-se a admitir aquela idia e no assumia a responsabilidade por levar adiante aquele raciocnio. 

O facho de luz iluminou o globo outra vez, e agora no havia mais lugar para dvida. 

-A Terra... -sussurrou Arthur. 

-Bem, a Terra II, para ser exato -disse Slartibartfast, sorridente. -Estamos fazendo uma cpia, com base nos esquemas originais. 

Houve uma pausa. 

-O senhor quer dizer -foi dizendo Arthur lentamente, controladamente - que foram vocs que fizeram... a Terra original? 

-Isso mesmo -disse Slartibartfast. -Voc j esteve num lugar chamado... acho que era Noruega? 

- No -disse Arthur. - Nunca. 
-Que pena -disse Slartibartfast. -Fui eu que fiz. Ganhou um prmio, sabe? Beleza de litoral, todo trabalhado. Fiquei muito aborrecido quando soube que tinha sido destruda. 

-O senhor ficou aborrecido! 

-Fiquei. Cinco minutos depois, eu no teria me incomodado. Um equvoco fenomenal. 
-Hein? -exclamou Arthur. 
-Os ratos ficaram furiosos. 
-Os ratos ficaram furiosos? 

- , ora -disse o velho. 
-Est bem, mas no s os ratos como, imagino eu, os cachorros, os gatos, ornitorrincos, mas... 

-Ah, mas no foram eles que pagaram por ela, no ? 

-Escute -disse Arthur -, no seria mais prtico pro senhor se eu entregasse os pontos e pirasse logo de uma vez? 
Durante algum tempo, o aeromvel voou num silncio constrangedor. 
Depois o velho, paciente, tentou explicar. 
-Terrqueo, o planeta em que voc vivia foi encomendado, pago e governado pelos ratos. Ele foi destrudo cinco minutos antes de terminar de servir aos propsitos para o qual foi construdo, e agora vamos ter que fazer outro. 
S uma palavra fora registrada no crebro de Arthur. 

-Ratos? 
- , terrqueo. 
-Escute, por acaso estamos falando sobre aquelas criaturi-nhas peludas que se amarram em queijo e que faziam as mulheres subir nas mesas e ficar gritando naquelas comdias enlatadas dos anos 1960? 

Slartibartfast tossiu um pouco, polidamente. 

-Terrqueo, s vezes  difcil compreender a sua fala. Lembre-se que h cinco milhes de anos estou dormindo dentro de Magrathea, e portanto no sei muita coisa sobre essas comdias enlatadas dos anos 1960. Essas criaturas chamadas ratos no so exatamente o que parecem ser. No passam de protuses em nossa dimenso de seres pandimensionais imensos e hiperinteligentes. Toda essa histria de queijo e guinchos  s fachada. -O velho fez uma pausa, uma careta simptica, e prosseguiu. -Eles estavam fazendo experincias com vocs. 

Arthur pensou nisso por um segundo, e ento seu rosto se desanuviou. 

-Ah, no -disse ele. -Agora entendi a origem desse mal-entendido. -No, o que acontecia  que ns  que fazamos experincias com eles. Os ratos eram muito utilizados em pesquisas do comportamento. Pavlov, essas coisas. O que acontecia era que os ratos participavam de tudo quanto era experincia, aprendiam a tocar campainhas, corriam em labirintos, de modo que toda a natureza do processo de aprendizagem pudesse ser examinada. Com base nas observaes do comportamento deles, a gente aprendia um monte de coisas a respeito do nosso comportamento... 

A voz de Arthur foi morrendo aos poucos. 

-Que sutileza! -disse Slartibartfast. -  realmente admirvel. 

-Como assim? 

-Para disfarar melhor suas verdadeiras naturezas e orientar melhor o pensamento de vocs. De repente corriam para o lado errado de um labirinto, comiam o pedao errado de queijo, inesperadamente morriam de mixomatose... a coisa sendo bem calculada, o efeito cumulativo  imenso. -Fez uma pausa para acentuar o efeito de suas palavras. -Sabe, terrqueo, eles so mesmo seres pandimensionais particularmente hiperinteligentes. O seu planeta e a sua espcie formaram a matriz de um computador orgnico que processou um programa de pesquisa de dez milhes de anos... Eu lhe conto toda a histria. Vai levar algum tempo. 

-Tempo -respondeu Arthur, com voz dbil. - No momento no  um dos meus problemas. 



Captulo 25


Como  sabido, a vida apresenta uma srie de problemas, dos quais os mais importantes so, entre outros, Porque as pessoas nascem? Por que elas morrem? Por que elas passam uma parte to grande do tempo entre o nascimento e a morte usando relgios digitais?. 

H muitos e muitos milhes de anos, uma espcie de seres pandimensionais hiperinteligentes (cuja manifestao fsica no universo pandimensional deles no  muito diferente da nossa) ficaram to de saco cheio dessas discusses incessantes a respeito do significado da vida, as quais costumavam interromper seu passatempo favorito, o ultracrquete broquiano (um jogo curioso, no qual, entre outras coisas, os jogadores de repente batiam uns nos outros sem nenhum motivo aparente e depois fugiam correndo), que decidiram sentar e resolver esses problemas de uma vez por todas. 

Para tal, construram um estupendo supercomputador to extraordinariamente inteligente que, mesmo antes de seus bancos de dados serem ligados, ele j deduzira, a partir do princpio Penso, logo existo, a existncia do pudim de arroz e do imposto de renda, antes que tivessem tempo de deslig-lo. 

Era do tamanho de uma cidade pequena. 

Seu terminal principal foi instalado num escritrio especialmente projetado para esse fim, sobre uma mesa imensa de ultra-mogno, com tampo forrado de finssimo couro ultravermelho. O carpete escuro era discretamente suntuoso; havia plantas exticas e gravuras de muito bom gosto que representavam os principais programadores do computador com suas respectivas famlias, e janelas imponentes que davam para uma praa toda arborizada. 

No dia da Grande Ligao do Computador, dois programadores de roupas sbrias, carregando pastas, entraram e foram discretamente levados at a sala do terminal. Sabiam que nesse dia agiam como representantes de sua espcie em seu momento mais solene, mas estavam perfeitamente calmos. Sentaram-se  mesa com certa deferncia, abriram suas pastas e delas tiraram cadernos encadernados em couro. 

Chamavam-se Lunkwill e Fook. 

Por alguns momentos, permaneceram num silncio respeitoso. Depois, aps trocar um olhar com Fook, Lunkwill inclinou-se para a frente e tocou num pequeno painel negro. 

Um sutilssimo zumbido indicou que o enorme computador estava agora em funcionamento. Aps uma pausa, ele falou, com uma voz cheia, ressoante e grave: 

-Qual  a grande tarefa que eu, Pensador Profundo, o segundo maior computador do Universo do Tempo e Espao, fui criado para assumir? 

Lunkwill e Fook entreolharam-se, surpresos. 

-Sua tarefa,  computador... -ia dizendo Fook. 

-No, espere um minuto, isso no est certo -interrompeu Lunkwill, preocupado. -Ns projetamos esse computador de modo que ele fosse o maior de todos, e no vamos aceitar essa histria de "segundo maior". Pensador Profundo -disse ele, dirigindo-se ao computador -, ento, voc no , tal como foi feito para ser, o maior e mais poderoso computador de todos os tempos? 

-Eu disse que era o segundo maior -respondeu Pensador Profundo -, e  o que sou. 

Os dois programadores trocaram outro olhar preocupado. Lunkwill pigarreou. 

-Deve haver algum engano -disse ele. -Voc no  maior que o Pantagrucrebro Colossal de Maximegalon, que  capaz de contar todos os tomos de uma estrela em um milissegundo? 

-O Pantagrucrebro Colossal? -disse Pensador Profundo, sem tentar disfarar seu desprezo. -Aquele baco? Falemos de outra coisa. 

-E voc no  um calculador mais hbil -disse Fook, nervoso -que o Pensador Estelar Googleplex da Stima Galxia de Luz e Engenho, capaz de calcular a trajetria de cada gro de poeira em uma tempestade de areia de cinco semanas em Beta de Dangrabad? 

-Uma tempestade de areia de cinco semanas? -exclamou Pensador Profundo, arrogante. -Eu, que j considerei os vetores dos tomos do prprio big-bang? No me venham com essas proezas de calculadora de bolso. 

Por um momento, os dois programadores no souberam o que dizer. Ento Lunkwill falou de novo: 

-Mas no  verdade que voc  um adversrio mais temvel que o Grande Estronca-Nutrons Omini-Cognato Hiperlbico de Ciceronicus 12, o Mgico e Infatigvel? 

-O Grande Estronca-Nutrons Omni-Cognato Hiperlbico -disse Pensador Profundo, caprichando nos erres - capaz, de argumentar com uma megamula de Areturus at ela cair morta de exausto, mas s eu seria capaz de convenc-la a levantar-se e andar depois. 

- Ento -perguntou Fook -, qual  o problema? 

-No h problema -disse Pensador Profundo, num tom de voz extraordinariamente ressonante. -Sou simplesmente o segundo maior computador no Universo do Espao e Tempo. 

-Mas, o segundo? -insistiu Lunkwill. -Por que voc fala a toda hora que  o segundo? Ser que voc est pensando no Ruminador Titnico Perspieutrnico Multicorticide? Ou no Meditamtico? Ou no... 

Luzinhas arrogantes piscaram no terminal. 

-No gasto um bit pensando nesses retardados cibernticos! S falo do computador que h de vir depois de mim! 

Fook estava perdendo a pacincia. Ps de lado o caderno e murmurou: 

-Acho esse seu messianismo totalmente fora de propsito 

-Voc nada sabe do futuro -disse Pensador Profundo -, enquanto eu, com meus circuitos abundantes, navego nos deltas infinitos da probabilidade futura, e vejo que um dia surgir um computador cujos parmetros operacionais no sou digno de calcular, mas que ser meu destino um dia projetar. 

Fook suspirou fundo e olhou para Lunkwill. 

-Podemos fazer logo a pergunta? Lunkwill fez sinal para que ele esperasse. 

-De que computador voc est falando? -perguntou Lunkwill. 

-No falarei mais dele no presente -respondeu Pensador Profundo. -Podem perguntar-me qualquer outra coisa que eu funcionarei. Falem. 

Os dois deram de ombros. Fook endireitou-se na cadeira. 

- Pensador Profundo, a tarefa que lhe cabe assumir  a seguinte: queremos que nos diga... -fez uma pausa e concluiu: - ...a Resposta! 

-A Resposta? -repetiu Pensador Profundo. -Resposta a que pergunta? 

-A Vida! -exclamou Fook. 

-O Universo! -disse Lunkwill. 

-E tudo o mais! -exclamaram em unssono. Pensador Profundo fez uma pausa para refletir. 

- Essa  fogo -disse, finalmente. 
-Mas voc pode nos dizer? Outra pausa significativa. 
-Posso, sim -respondeu Pensador Profundo. 
- Ento h uma resposta? -perguntou Fook, ofegante. 
-Uma resposta simples? -perguntou Lunkwill. 

-Sim -respondeu Pensador Profundo. -A Vida, o Universo e Tudo o Mais. H uma resposta. Mas vou ter que pensar nela. 

O momento solene foi interrompido por uma comoo sbita: a porta abriu-se de repente e entraram dois homens irritados, trajando as vestes e cintures de fazenda azul desbotada e grosseira que os identificava como membros da Universidade de Cruxwan, empurrando para o lado os empregados que tentavam impedir sua entrada. 

-Exigimos o direito de entrar! -gritou o mais jovem dos dois, enfiando um cotovelo no pescoo de uma jovem e bonita secretria. 

-Ora! -gritou o mais velho. -Vocs no podem nos manter do lado de fora! - Empurrou um jovem programador para fora da sala. 

-Exigimos o direito de vocs no terem o direito de impedir que entremos! -gritou o mais jovem, embora j estivesse dentro da sala e ningum o estivesse empurrando para fora. 

-Quem so vocs? -perguntou Lunkwill, irritado, levan-tando-se. -O que vocs querem? 

-Sou Majikthise! -proclamou o mais velho. 

-E exijo que eu seja Vroomondel! -gritou o mais jovem. Majikthise virou-se para Vroomfondel. 

-Tudo bem -explicou, zangado. -Isso voc no tem que exigir! 

- Est bem! -berrou Vroomfondel, esmurrando uma mesa. 
-Eu sou Vroomfondel, e isto no  uma exigncia, e sim um fato concreto1! O que exigimos so fatos concretos! 

- Nada disso! -exclamou Majikthise, mais irritado ainda. 
-  justamente isso que no exigimos! 
Sem parar para respirar, Vroomfondel gritou: 
-No exigimos fatos concretos! O que exigimos  uma ausncia total de fatos concretos. Exijo que eu possa ser ou no ser Vroomfondel! 

-Mas, afinal, quem so vocs? -gritou Fook, indignado. 

-Somos -disse Majikthise -filsofos. 

-Se bem que podemos no ser -disse Vroomfondel, dedo em riste na cara dos programadores. 
-Ah, somos, sim, definitivamente! -insistiu Majikthise. -Somos representantes do Sindicato Reunido de Filsofos, Sbios, Luminares e Outras Pessoas Pensantes, e queremos que essa mquina seja desligada agora mesmo 1 
-Qual  o problema? -perguntou Lunkwill. 

-Eu lhe digo j, j qual  o problema, meu chapa! -respondeu Majikthise. 
-O problema  a demarcao! 

-Exigimos -gritou Vroomfondel -que o problema possa ser ou no ser a demarcao! 

-Essas mquinas tm mais  que fazer contas -disse Majikthise -, enquanto ns cuidamos das verdades eternas. Quer saber a sua situao perante a lei? Pela lei, a Busca da Verdade Ultima  uma prerrogativa inalienvel dos pensadores. Se uma porcaria de uma mquina resolve procurar e acha a porcaria da Verdade, como  que fica o nosso emprego? O que adianta a gente passar a noite em claro discutindo se Deus existe ou no pra no dia seguinte essa mquina dizer qual  o nmero do telefone dele? 

-Isso mesmo!  gritou Vroomfondel. -Exigimos reas de dvida e incerteza rigidamente delimitadas! 

De repente, uma voz tonitruante ressoou no recinto. 

-Por acaso eu poderia fazer uma observao? -perguntou Pensador Profundo. 

-A gente entra em greve! -gritou Vroomfondel. 

-Isso mesmo! -apelou Majikthise. - o que vocs vo arranjar, uma greve nacional de filsofos! 

O nvel de zumbido de repente aumentou, quando diversos alto-falantes auxiliares, instalados em caixas de som envemizadas e trabalhadas, entraram em funcionamento para dar um pouco mais de potncia  voz de Pensador Profundo, que prosseguiu: 

-Eu s queria dizer que meus circuitos agora esto irrevogavelmente dedicados  tarefa de calcular a resposta  Questo Fundamental da Vida, o Universo e Tudo o Mais. -Fez uma pausa, para certificar-se de que agora todos estavam prestando ateno nele, e ento acrescentou, em voz mais baixa: -S que o programa vai levar um certo tempo pra ser processado. 

Fook olhou para o relgio, impaciente. 

-Quanto tempo? 

-Sete milhes e quinhentos mil anos -respondeu o computador. 

Lunkwill e Fook entreolharam-se. 

-Sete milhes e quinhentos mil anos...1. -exclamaram em unssono. 

-Exato -disse Pensador Profundo. -Eu disse que ia ter que pensar, no disse? E ocorre-me que um programa como esse certamente h de gerar uma publicidade imensa para toda a rea de filosofia. Todo mundo vai elaborar uma teoria a respeito da resposta que vou dar no final. E ningum poder explorar melhor essa situao nos meios de comunicao do que vocs. Enquanto vocs continuarem a discordar violentamente um do outro e a atacar-se mutuamente na imprensa e a contratar bons agentes, vocs garantem sombra e gua fresca pro resto da vida.  ou no ? 

Os dois filsofos olhavam boquiabertos para o terminal. 

-Ora, porra -disse Majikthise -, isso  que  pensar de verdade, o resto  conversa fiada. Me diga uma coisa, Vroom-fondel, como  que a gente nunca tem uma idia dessas? 

-Sei l -sussurrou Vroomfondel, reverente. -Acho que  porque nossos crebros so treinados demais, Majikthise. 

E, assim, os dois se viraram e saram da sala, prontos a viver num padro de vida muito superior aos seus sonhos mais loucos. 



Captulo 26


E muito edificante -disse Arthur, quando Slartibartfast terminou sua narrativa -, mas continuo no vendo relao entre isso tudo e a Terra, os ratos e tudo o mais. 

-Isso  apenas a primeira metade da histria, terrqueo -disse o velho. - Se voc quiser saber o que aconteceu sete milhes e quinhentos mil anos depois, no grande dia da Resposta, permita-me convid-lo a visitar meu gabinete de estudo, onde voc mesmo poder vivenciar os eventos por meio de gravaes em Sensorama. Quero dizer, a menos que voc prefira dar um passeio pela superfcie da Nova Terra. Infelizmente ainda no est terminada; ainda nem acabamos de enterrar os esqueletos de dinossauros artificiais na crosta terrestre, e depois ainda temos que fazer perodos tercirio e quaternrio da era cenozica, mais o ... 

- No, obrigado -disse Arthur. - No seria a mesma coisa. 
- -concordou Slartibartfast -, no mesmo. -E deu meia-volta no aeromvel, voltando para a parede inconcebvel. 



Captulo 27


0 gabinete de Slartibartfast era uma baguna completa, semelhante a uma biblioteca pblica aps uma exploso. O velho fechou a cara assim que entraram. 

-Que azar! -disse ele. -Explodiu um diodo de um dos computadores dos sistemas de suporte de vida. Quando tentamos reavivar nossa equipe de limpeza, descobrimos que esto todos mortos h quase 30 mil anos. Eu queria saber quem  que vai remover os cadveres. Escute, sente ali enquanto eu ligo o aparelho, est bem? 

Indicou uma cadeira que parecia feita com a caixa torcica de um estegossauro. 

-Ela foi feita com a caixa torcica de um estegossauro -explicou o velho, puxando uns fios debaixo de pilhas de papel e instrumentos. -Pronto. Segure as pontas -disse, entregando duas pontas de fio desencapado a Arthur. 

No momento em que ele as pegou, um pssaro veio voando e passou atravs dele. 

Arthur estava pairando em pleno ar, e totalmente invisvel para si prprio. L embaixo via uma bela praa arborizada; para todos os lados havia prdios de concreto branco, construes bem espaosas, porm um tanto velhas; muitos dos prdios tinham rachaduras e manchas causadas pela chuva. Mas naquele dia em particular fazia sol, uma brisa agradvel balanava os galhos das rvores, e Arthur tinha a curiosa sensao de que todos os prdios estavam zumbindo discretamente, talvez porque a praa e as ruas que nela desembocavam estavam cheias de pessoas alegres e animadas. Em algum lugar uma banda de msica tocava; flmulas coloridas balanavam na brisa; havia um ar de festa na cidade. 

Arthur sentia-se extraordinariamente solitrio l no alto, sem ter nem mesmo um corpo para chamar de seu, mas, antes que ele tivesse tempo de pensar em sua situao, uma voz ressoou na praa, pedindo a ateno de todos. 

Em p sobre uma plataforma enfeitada em frente do prdio mais importante da praa, um homem se dirigia  multido atravs de um megafone. 

- vs que aguardais  sombra de Pensador Profundo] -gritou ele. Honrados descendentes de Vroomfondel e Majikthise, os maiores e mais interessantes sbios do Universo...  findo o Tempo de Espera! 

Um coro de vivas elevou-se da multido. Bandeiras, flmulas e assobios cruzaram os ares. As ruas mais estreitas pareciam centopias emborcadas, agitando suas perninhas desesperadamente. 

-H sete milhes e quinhentos mil anos que nossa espcie espera por este Grande Dia de Iluminao! -gritou o homem. -O Dia da Resposta! 

Hurras entusisticas brotaram da multido. 

-Nunca mais acordaremos de manh perguntando a ns mesmos: Quem sou eu? Qual meu objetivo na vida? Em uma escala csmica, faz alguma diferena se hoje eu resolver no me levantar e no ir ao trabalho?. Pois hoje saberemos, de uma vez por todas, a resposta clara e simples a todas estas incmodas perguntas relacionadas  Vida, ao Universo e a Tudo o Mais! 

Enquanto a multido aplaudia mais uma vez, Arthur viu-se planando no ar em direo a uma das grandes e imponentes janelas do primeiro andar do prdio atrs da plataforma. 

Arthur foi dominado pelo pnico durante um instante, quando se viu voando para dentro da janela, mas um segundo depois deu-se conta de que havia atravessado a vidraa sem sentir nada. 

Ningum na sala achou nada de estranho quando ele chegou, o que alis era perfeitamente compreensvel, j que, na verdade, Arthur no estava l. Ele comeou a entender que toda aquela experincia que ele estava tendo no passava de uma projeo, algo que punha no chinelo o filme de 70 milmetros com seis canais de som. 

A sala era tal como Slartibartfast a havia descrito. Durante sete milhes e quinhentos mil anos ela fora bem-cuidada, sendo limpa regularmente a cada 100 anos, mais ou menos. A mesa de ultramogno estava gasta nas beiras, o carpete estava um pouco desbotado, mas o grande terminal de computador embutido no tampo de couro da mesa estava to reluzente quanto se tivesse sido construdo na vspera. 

Dois homens sobriamente vestidos, sentados diante do terminal, aguardavam. 

-Est chegando a hora -disse um deles, e Arthur surpreendeu-se ao ver uma palavra materializar-se ao lado do pescoo do homem. A palavra era LOONQUAWL; ela piscou umas duas vezes e depois desapareceu. Antes que Arthur tivesse tempo de assimilar o escorrido, o outro homem falou, e a palavra PHOUCHG apareceu ao lado de seu pescoo. 

-H 75 geraes, nossos ancestrais deram incio a este programa -disse o segundo homem -, e aps todo esse tempo ns seremos os primeiros a ouvir o computador falar. 

-Uma perspectiva tremenda, Phouchg -concordou o primeiro homem, e Arthur de repente entendeu que estava assistindo a uma gravao com letreiros. 

-Seremos ns que ouviremos a resposta  grande questo da Vida...! -disse Phouchg. 

-O Universo...! -disse Loonquawl. 

- E Tudo o Mais...! 
-Psss! -exclamou Loonquawl com um gesto sutil. -Acho que Pensador Profundo est se preparando para falar? 

Houve uma pausa cheia de expectativa, quando as luzes do painel lentamente foram se acendendo. As luzes piscaram, como se a ttulo de experincia, e logo assumiram um ritmo funcional. O canal de comunicao comeou a emitir um zumbido suave. 

- Bom dia -disse Pensador Profundo por fim. 
-Ah... Bom dia,  Pensador Profundo -disse Loonquawl, nervoso. -Voc tem... ah, quero dizer... 
-Uma resposta para vocs? -interrompeu Pensador Profundo, 
majestoso. -Tenho, sim. 
Os dois homens tremeram de expectativa. Sua espera no fora em vo. 

- Ento h mesmo uma resposta? -exclamou Phouchg. 
-H mesmo uma resposta -confirmou Pensador Profundo. 

-A resposta final?  grande Questo da Vida, do Universo e Tudo o 
Mais? 

-Sim. 

Os dois homens haviam sido treinados para esse momento. Toda a sua vida fora uma longa preparao para ele: haviam sido escolhidos no momento em que nasceram para testemunhar a resposta, mas mesmo assim sentiam-se alvoroados e ofegantes como crianas excitadas. 

- E voc est pronto pra nos dar a resposta? -perguntou Loonquawl. 
- Estou. 
-Agora? 
-Agora -disse Pensador Profundo. Os dois umedeceram os lbios secos. 
-Se bem que eu acho que vocs no vo gostar -disse o computador. 
-No faz mal -exclamou Phouchg. -Precisamos conhecer a resposta! Agora! 
-Agora? -perguntou Pensador Profundo. 

- , agora!..
. 
-Est bem -disse o computador, e calou-se. Os dois homens remexiam-se, inquietos. A tenso era insuportvel. 
-Olhem, vocs no vo gostar mesmo -comentou Pensador Profundo. 
-Diga logo! 

- Est bem -disse o computador. -A Resposta  Grande Questo... 
-Sim...! 
-Da Vida, o Universo e Tudo o Mais... -disse Pensador Profundo. 
-Sim! 
- ... -disse Pensador Profundo, e fez uma pausa. 
-Sim...! -... -Sim...!!!...? 
-Quarenta dois -disse Pensador Profundo, com uma majestade e uma tranqilidade infinitas. 



Captulo 28 


Durante muito, muito tempo, ningum disse nada. Com o canto do olho, Phouchg via pela janela o mar de rostos cheios de expectativa na praa. 

- Ns vamos ser linchados, no vamos? -sussurrou. -A pergunta no foi fcil -disse Pensador Profundo, com modstia. -Quarenta e dois! -berrou Loonquawl. - tudo que voc tem a nos dizer depois de sete milhes e quinhentos mil anos de trabalho? 

-Eu verifiquei cuidadosamente -disse o computador -, e no h dvida de que a resposta  essa. Para ser franco, acho que o problema  que vocs jamais souberam qual  a pergunta. 

-Mas era a Grande Pergunta! A Questo Fundamental da Vida, o Universo e Tudo o Mais -gritou Loonquawl. 

- -disse Pensador Profundo, com um tom de voz de quem tem enorme pacincia para aturar pessoas estpidas -, mas qual  exatamente a pergunta? 

Um silncio de estupefao aos poucos dominou os homens, que olharam para o computador e depois se entreolharam. 

-Bem, voc sabe,  simplesmente tudo... tudo... -comeou Phouchg, vacilante. 

-Pois ! -disse Pensador Profundo. -Assim, quando vocs souberem qual  exatamente a pergunta, vocs sabero o que significa a resposta. 

-Genial -sussurrou Phouchg, jogando o caderno para o lado e enxugando uma pequena lgrima. 

-Est bem, est bem -disse Loonquawl. -Ser que dava pra voc nos dizer qual  a pergunta? 
-A Pergunta Fundamental? -! 
-Sobre a Vida, o Universo e Tudo o Mais? -l Pensador Profundo pensou um pouco. 

- Essa  fogo -disse ele. 
-Mas voc pode descobri-la? -perguntou Loonquawl. Pensador Profundo ponderou a questo por mais algum tempo. 

- No -respondeu por fim, com firmeza. 

Os dois homens caram sentados, em desespero. 

-Mas eu lhes digo quem pode -disse o computador. Os dois levantaram a vista de repente. 

-Quem? 

-Diga! 

De repente, Arthur comeou a sentir seus plos inexistentes ficarem em p  medida" que ele se aproximava lenta porm inexoravelmente do terminal do computador, mas era apenas um zoom de grande efeito dramtico por parte de quem havia realizado aquela gravao, aparentemente. 

-Refiro-me ao computador que vir depois de mim -proclamou Pensador Profundo, reassumindo seu tom declamatrio habitual. -Um computador cujos parmetros operacionais eu no sou digno de calcular, mas que, ainda assim, irei projetar para vocs. Um computador capaz de calcular a Pergunta referente  Resposta Fundamental, um computador de tamanha complexidade sutil e infinita que a prpria vida orgnica far parte de sua matriz operacional. E vocs assumiro uma nova forma e entraro no computador para operar seu programa, durante dez milhes de anos! Sim! Eu projetarei este computador para vocs. E eu tambm lhe darei um nome. E ele se chamar... Terra. 

Phouchg olhou para Pensador Profundo, atnito. 

-Que nome mais besta -disse ele, e longas incises abriram-se em seu corpo de alto a baixo. Loonquawl, tambm, de repente comeou a sofrer cortes terrveis vindos de lugar nenhum. O terminal do computador inchou e rachou-se, as paredes estremeceram e desabaram, e toda a sala caiu para cima, em direo ao teto... 

Slartibartfast estava em p diante de Arthur, segurando os dois fios. 

-Fim da gravao -explicou ele. 



Captulo 29 

Zaphod! Acorde! -Mmmmmaaaaahn? 
-Vamos, acorde logo. 
-Deixe que eu continue fazendo o que sei fazer, est bem? -murmurou

Zaphod; sua voz morreu aos poucos e ele adormeceu de novo. 

-Quer levar um chute? -perguntou Ford. 

-Isso vai lhe dar muito prazer? -retrucou Zaphod, com a voz cheia de sono. 

-No. 

-A mim tambm no. Ento pra que me chutar? Pare de me perturbar. - E Zaphod encolheu-se todo novamente. 

-Ele ingeriu uma dose dupla de gs -disse Trillian, olhando para Zaphod. -Duas traquias. 

-E parem de falar -disse Zaphod. -J no  fcil dormir aqui. Que diabo deu nesse cho? Est to duro, gelado. 

-  ouro -disse Ford. Com um movimento espantoso de bailarino, Zaphod ps-se de p e comeou a olhar para todos os lados, at o horizonte; era tudo ouro, o cho era uma camada perfeitamente lisa e slida de ouro. Brilhava como...  impossvel achar uma comparao razovel, porque nada no Universo brilha exatamente como um planeta de ouro macio. 

-Quem botou isso tudo aqui? -exclamou Zaphod, de olhos esbugalhados. 

- No fique excitado -disse Ford. -Isso  s um catlogo. 
-O qu? 

-Um catlogo -disse Trillian -Uma iluso. 

-Como  que vocs podem dizer uma coisa dessas? -exclamou Zaphod, caindo de quatro e olhando para o cho. Cutucou-o com o dedo. Era muito pesado e ligeiramente macio -era possvel risc-lo com a unha. Era muito amarelo e muito brilhante, e, quando ele bafejava sobre a superfcie, ela embaava e depois desembaava daquela maneira peculiar que  caracterstica das superfcies de ouro macio. 

- Eu e Trillian acordamos uns minutos atrs -disse Ford. 

-Gritamos at que algum veio, e continuamos a gritar at que eles se encheram e trancaram a gente aqui no catlogo de planetas, pra gente se distrair at que eles estejam preparados pra lidar conosco. Isso aqui  s uma gravao em Sensorama. 

Zaphod olhou-o com raiva. 

-Ora, merda -exclamou ele -, voc me acorda no meio do meu sonho agradvel pra me mostrar o sonho de outra pessoa. 

-Sentou-se, emburrado. - E aqueles vales ali, que  aquilo? -perguntou. 

-  s o selo de qualidade -disse Ford. -J fomos l ver. 
-No acordamos voc antes -disse Trillian. -O ltimo planeta era s peixe at a altura das canelas. 

-Peixe? 

-Tem gosto pra tudo. 

-E antes dos peixes -disse Ford -foi platina. Meio chato. Mas esse aqui achamos que voc ia gostar de ver. Mares de luz dourada resplandeciam em todas as direes, para onde quer que olhassem. 

-Muito bonito -disse Zaphod com petulncia. 

No cu apareceu um enorme nmero de catlogo. Ele piscou e mudou, e, quando os trs olharam ao redor, viram que a paisagem mudara tambm. 

Em unssono, os trs exclamaram: 

-Argh! 

O mar era roxo. A praia em que estavam era de pedrinhas amarelas e verdes -provavelmente pedras terrivelmente preciosas. Ao longe, as montanhas ostentavam picos vermelhos; pareciam macias e ondulantes. A pouca distncia de onde estavam havia uma mesa de praia de prata macia, com uma sombrinha alva ornada com borlas de prata. 

No cu apareceram os seguintes dizeres em letras garrafais substituindo o nmero do catlogo: Qualquer que seja seu gosto, Magrathea tem o que voc deseja. No nos orgulhamos disso. E ento 500 mulheres nuas em plo caram do cu de pra-quedas. 

Imediatamente o cenrio desapareceu, sendo substitudo por um pasto cheio de vacas. 

-Ah, meus crebros! -exclamou Zaphod. 

-Quer falar sobre isso? -perguntou Ford. 

-Est bem -disse Zaphod, e os trs sentaram-se e ignoraram os cenrios que surgiam e desapareciam a seu redor. 

-O que eu acho  o seguinte -disse Zaphod. -Seja l o que for que aconteceu coma minha mente, fui eu que fiz. E fiz de um jeito tal que os testes governamentais a que me submeteram quando me candidatei no pudessem descobrir nada. E que nem mesmo eu soubesse o que fiz. Tremenda loucura, no ? 

Os outros dois concordaram com a cabea. 

-Ento me pergunto: o que seria to secreto que no posso deixar que ningum saiba, nem mesmo o governo galctico, nem mesmo eu? E a resposta : no sei.  bvio. Mas juntei uma coisa e outra, e d pra eu fazer uma idia. Quando foi que resolvi me candidatar  presidncia? Logo depois da morte do presidente Yooden Vranx. Voc se lembra de Yooden, Ford? 

-Lembro -disse Ford. -Aquele cara que ns conhecemos quando ramos garotos, o comandante de Arcturus. Ele era um barato. Nos deu umas castanhas quando voc arrombou o megacargueiro dele. Disse que voc era o garoto mais incrvel que ele j tinha visto. 

-Que histria  essa? -perguntou Trillian. 

-Uma histria antiga -disse Ford -, do nosso tempo de garotos, l em Betelgeuse. Os megacargueiros de Arcturus eram encarregados da maior parte do comrcio entre o Centro Galctico e as regies perifricas. Os vendedores da astronutica mercante de Betelgeuse encontravam os mercados e os arcturianos os abasteciam. Havia muita pirataria no espao antes das guerras de Dordellis, quando os piratas foram dizimados, e os megacargueiros eram equipados com os escudos de defesa mais fantsticos de toda a Galxia. Eram realmente umas naves enormes. Quando entravam em rbita ao redor de um planeta, elas eclipsavam o Sol. 

"Um dia, o jovem Zaphod resolveu saquear uma delas. Num patinete de trs propulsores a jato, feito para navegar na estratosfera, coisa de garoto, mesmo. Ele era totalmente pirado. Fui junto porque havia apostado uma boa nota que ele no ia conseguir, e no queria que ele voltasse com provas falsas de que tinha conseguido. Pois sabe o que aconteceu? Entramos no patinete dele, que j era algo totalmente diferente de tanto que ele o tinha incrementado, cobrimos uma distncia de trs parsecs em poucas semanas, arrombamos um megacargueiro, at hoje no sei como, fomos at a ponte de comando brandindo pistolas de brinquedo e exigimos castanhas. Maluquice maior nunca vi. Perdi um ano de mesadas. Tudo pra ganhar o qu? Castanhas. 

-O capito era um cara realmente incrvel, o tal de Yooden Vranx -disse Zaphod. -Ele nos deu comida, bebida, coisas dos lugares mais exticos da Galxia, muita castanha, claro, e a gente se divertiu paca. Depois ele teleportou a gente. Direto pra ala de segurana mxima da priso estadual de Betelgeuse. Um cara incrvel. Acabou presidente da Galxia. 

Zaphod parou de falar. 

O cenrio ao redor deles estava no momento imerso na escurido. Nvoas escuras elevavam-se, sombras imensas moviam-se indistintas. O ar era ocasionalmente riscado por rudos de seres ilusrios assassinando outros seres ilusrios. Pelo visto, havia quem gostasse daquilo o bastante para ter valor comercial. 

-Ford -disse Zaphod, em voz baixa. -Sim? 

-Pouco antes de morrer, Yooden me procurou. 

-  mesmo? Voc nunca me contou. -No. 
-O que foi que ele disse? Por que ele procurou voc? 

-Me falou sobre a nave Corao de Ouro. Ele  que me deu a idia de roub-la. 

-Ele? 

- -disse Zaphod -,e a nica oportunidade pra isso seria a cerimnia de lanamento. 

Ford arregalou os olhos para ele por um instante, depois caiu na gargalhada. 

-Voc est me dizendo que virou presidente da Galxia s pra roubar essa nave? -perguntou ele. 

-Justamente -disse Zaphod, com o tipo de sorriso que, na maioria das pessoas, teria o efeito de fazer com que elas fossem trancafiadas em celas acolchoadas. 

-Mas por qu? -perguntou Ford. -Por que  to importante pra voc ter essa nave? 

-Sei l -disse Zaphod. -Acho que se eu soubesse conscientemente por que isso  to importante e pra que eu precisava dela, isso teria aparecido nos testes governamentais e eu jamais teria passado. Acho que Yooden me disse um monte de coisas que ainda esto trancadas no meu crebro. 

-Ento por causa da conversa com Yooden voc bagunou o seu prprio crebro? 

- Ele levava qualquer um no papo. 
- , rapaz, mas voc tem que se cuidar, sabe? Zaphod deu de ombros. 

-Mas ser que voc no faz a menor idia do porqu disso tudo? -insistiu Ford. 

Zaphod pensou bastante na pergunta e uma dvida pareceu esboar-se em sua mente. 

-No -disse por fim. -Acho que no estou revelando nenhum dos meus segredos a mim mesmo. Seja como for -acrescentou, aps pensar mais um pouco -, eu at entendo. Eu  que no sou maluco de confiar em mim. 

Um minuto depois, o ltimo planeta do catlogo desapareceu e o mundo concreto reapareceu a seu redor. 

Estavam sentados numa sala de espera luxuosa, cheia de mesas de vidro e prmios recebidos em concursos de design. 

Um magratheano alto estava em p diante dos trs. 

-Os ratos querem ver vocs agora. 



Captulo 30


Pois  isso -disse Slartibartfast, fazendo uma tentativa puramente pro forma de arrumar a baguna extraordinria de seu gabinete. Pegou um papel que estava no alto de uma pilha de objetos, mas, como no sabia onde guardlo, recolocou-o no alto da mesma pilha, que imediatamente desabou. -Pensador Profundo projetou a Terra, ns a construmos e voc viveu nela. 

-E os vogons vieram e a destruram cinco minutos antes de terminar o processamento do programa -disse Arthur, no sem um toque de rancor. 

- -disse o velho, olhando ao redor sem saber por onde comear. -Dez milhes de anos de planejamento e trabalho, tudo por gua abaixo. Dez milhes de anos, terrqueo... Voc concebe uma coisa dessas? Toda uma civilizao galctica pode evoluir a partir de um verme, cinco vezes seguidas, em dez milhes de anos. Tudo por gua abaixo. -Fez uma pausa. -Pois , coisas da burocracia -acrescentou. 

-Sabe -disse Arthur, pensativo -, isso explica um monte de coisas. Toda a minha vida eu sempre tive uma impresso estranha, inexplicvel, de que estava acontecendo alguma coisa no mundo, uma coisa importante, at mesmo sinistra, e ningum me dizia o que era. 

-No -disse o velho -, isso  s uma parania perfeitamente normal. Todo mundo no Universo tem isso. 

-Todo mundo? -repetiu Arthur. -Bem, se todo mundo tem isso, ento talvez isso queira dizer alguma coisa. Quem sabe em algum lugar fora do Universo que conhecemos... 

-Talvez. E da? -disse Slartibartfast, antes que Arthur ficasse muito excitado com a idia. -Talvez eu esteja velho e cansado, mas acho que a probabilidade de descobrir o que realmente est acontecendo  to absurdamente remota que a nica coisa a fazer  deixar isso pra l e simplesmente arranjar alguma coisa pra fazer. Veja o meu caso: eu trabalho em litorais. Ganhei um prmio pela Noruega. -Comeou a remexer no meio de uma pilha de cacarecos, tirou dela um grande bloco de acrlico contendo um modelo da Noruega e mais o nome dele. 

-O que adiantou ganhar isso? Que eu saiba, nada. Passei a vida inteira fazendo fiordes. De repente, durante algum tempo, eles entraram em moda e eu ganhei um grande prmio. 

-Revirou o bloco de acrlico na mo e, dando de ombros, jogou-o para o lado, descuidadamente, mas no to descuidadamente que no desse um jeito de fazer com que o trofu casse sobre alguma coisa macia. -Nesta Terra substituta que estamos construindo me encarregaram da frica, e  claro que estou carregando nos fiordes, porque eu gosto, e sou um sujeito antiquado a ponto de achar que os fiordes do um belo toque barroco num continente. E agora esto me dizendo que isso no condiz com o carter equatorial do lugar. Equatorial! -soltou uma risada sarcstica. -Que importncia tem isso? A cincia conseguiu algumas coisas fantsticas, no vou negar, mas acho mais importante estar feliz do que estar certo. 

- E o senhor est feliz? 
- No. A  que est o problema,  claro. 
-Que pena -disse Arthur, com sentimento. -Estava me parecendo um estilo de vida e tanto. 

Uma luzinha branca se acendeu na parede. 

-Vamos -disse Slartibartfast -, voc vai conhecer os ratos. 

A sua chegada a esse planeta causou muito rebulio. Parece que algum j fez o clculo, e  o terceiro evento mais improvvel na histria do Universo. 

-Quais so os dois primeiros? 

-Ah, provavelmente apenas coincidncias -disse Slartibartfast, dando de ombros. Abriu a porta e esperou que Arthur o seguisse. 

Arthur olhou ao redor mais uma vez e depois para suas prprias roupas, as mesmas roupas suadas e sujas com as quais havia se deitado na lama na manh de quinta-feira. 

-Estou tendo srios problemas com meu estilo de vida -murmurou Arthur. 
-O qu? -perguntou o velho. 
-Ah; nada. Eu estava s brincando. 



Captulo 31


Como todos sabem, palavras ditas impensadamente podem custar muitas vidas, mas nem todos sabem como esse problema  srio. 

Por exemplo, no exato momento em que Arthur disse "estou tendo srios problemas com meu estilo de vida", abriu-se um buraco aleatrio na textura do contnuo espao-tempo que transportou as palavras de Arthur para um passado muito remoto, para uma distncia espacial quase infinita, at uma galxia distante onde estranhos seres belicosos estavam prestes a dar incio a uma terrvel batalha interestelar. 

Os dois lderes adversrios estavam se encontrando pela ltima vez. 

Fez-se um silncio terrvel na mesa de reunies quando o comandante dos vl'hurgs, com seu resplandecente short de batalha negro cravejado de pedras preciosas, encarou o lder dos g'gugvuntts, de ccoras  sua frente, numa nuvem de vapor verde e odorfico, e, cercado de um milho de cruzadores estelares aerodinmicos e armados at os dentes, preparados para desencadear a morte eltrica assim que ele desse a ordem, desafiou a vil criatura a retirar o que ela tinha dito a respeito da me dele. 

A criatura remexeu-se em sua nuvem de vapor escaldante e pestilento e, neste exato momento, ouviram-se as palavras Estou tendo srios problemas com meu estilo de vida na sala de reunies. 

Infelizmente, na lngua dos vl'hurgs isto era o pior insulto possvel, e no havia reao possvel seno desencadear uma terrvel guerra, que durou sculos. 

Naturalmente, quando, alguns milnios depois, quando a galxia em questo havia sido devastada, descobriu-se que tudo no passara de um lamentvel mal-entendido; e assim as duas frotas inimigas resolveram acertar as poucas diferenas que ainda tinham e unir-se para atacar a nossa Galxia, j identificada, com absoluta certeza, como fonte do comentrio ofensivo. 

Durante milhares de anos, as naves majestosas atravessaram os imensos espaos vazios intergalcticos, finalmente parando no primeiro planeta que encontraram, que era, por acaso, a Terra; e l, devido a um erro colossal de escala, toda a frota foi acidentalmente engolida por um cachorrinho. 

Aqueles que estudam o complexo inter-relacionamento entre causas e efeitos na histria do Universo dizem que esse tipo de coisa acontece o tempo todo, mas ns no podemos fazer nada. 

-A vida  assim mesmo -dizem eles. 

Aps uma curta viagem de aeromvel, Arthur e o velho magratheano chegaram a uma porta. Saltaram do veculo e entraram numa sala de espera cheia de mesas de vidro e trofus de acrlico. Quase imediatamente, uma luz comeou a piscar acima da porta no lado oposto do recinto. 

-Arthur! Voc est bem! -exclamou a voz. 

- Estou mesmo? -perguntou Arthur, um tanto assustado. -Que bom. 
A luz era pouca, e demorou algum tempo para que ele reconhecesse Ford, Trillian e Zaphod, sentados em volta de uma mesa em que se via uma bela refeio: pratos exticos, doces estranhos e frutas bizarras. Os trs estavam tirando a barriga da misria. 

-O que aconteceu com vocs? -perguntou Arthur. 

-Bem -disse Zaphod, atacando um msculo grelhado -, os nossos anfitries nos desacordaram com um gs, depois bagunaram totalmente todos os nossos sentidos, agiram de vrias formas estranhas e agora, pra compensar, esto nos oferecendo um senhor jantar. Tome -disse, estendendo um pedao de carne malcheirosa que estava numa tigela -, prove essa costeleta de rinoceronte de Vegan. Pra quem gosta,  uma iguaria. 

-Anfitries? -exclamou Arthur. -Que anfitries? No estou vendo nenhum... 

Uma vozinha ento falou: 

-Seja bem-vindo, terrqueo. 

Arthur olhou para a mesa e soltou uma interjeio de asco. 

-Argh! Tem ratos na mesa! 

Houve um silncio constrangedor; todos dirigiram olhares significativos a Arthur. 

Ele olhava para os dois ratos brancos que estavam dentro de objetos semelhantes a copos de usque. Percebeu o silncio e olhou para as caras de seus companheiros. 

-Ah!. -exclamou, entendendo tudo de repente. -Desculpe,  que eu no estava preparado pra... 

-Permita-me apresentar-lhe Benjy -disse Trillian. 

-Prazer -disse um dos ratos, tocando com os bigodes o que devia ser um painel sensvel ao tato no interior do recipiente de vidro, o qual avanou um pouco. 

- E esse aqui  Frankie. 
-Muito prazer -disse o outro rato, e seu recipiente tambm avanou. 

Arthur estava boquiaberto. 
-Mas esses no so...? 
-So eles -disse Trillian. -So mesmo os ratos que eu trouxe da Terra. 
Ela encarou Arthur, e ele julgou perceber era seu olhar uma sutil expresso de resignao. 
-Me passa essa tigela de megamula arcturiana gratinada, sim? -pediu ela. 

Slartibartfast pigarreou discretamente. 

-Ah, com licena... -disse ele. 

-Sim, obrigado, Slartibartfast -disse Benjy, seco. -Voc pode retirar-se. 

-O qu? Bem... ah, est bem -disse o velho, um pouco desconcertado. - 

Vou trabalhar nos meus fiordes. 

-A propsito, isso no  mais necessrio -disse Frankie. -Creio que no vamos mais precisar da nova Terra. -Revirou os olhinhos rosados. -Porque encontramos um nativo do planeta que estava l segundos antes de sua destruio. 

-O qu? -exclamou Slartibartfast, atnito. -No pode ser! Tenho mil geleiras prontas pra avanar sobre a frica! 

-Bem, talvez voc possa tirar umas frias pra esquiar antes de desmontlas -disse Frankie, irnico. 

-Esquiar? -exclamou o velho. -Essas geleiras so verdadeiras obras de arte! Contornos elegantes, picos altssimos de gelo, desfiladeiros majestosos! Esquiar numa obra-prima dessas seria um sacrilgio! 

-Obrigado, Slartibartfast -disse Benjy com firmeza. -Assunto encerrado. 

-Sim, senhor -disse o velho, com frieza. -Muito obrigado. Bem, adeus, terrqueo -disse para Arthur. - Espero que d um jeito no seu estilo de vida. 

Com um leve aceno para os outros, o velho virou-se e saiu do recinto, cabisbaixo. 

Arthur ficou a v-lo sair, sem saber o que dizer. 

-Bem -disse Benjy -, vamos ao que interessa. Ford e Zaphod fizeram tintim com seus copos. 

-Ao que interessa! -disseram. 

-Como assim? -perguntou Benjy. Ford olhou ao redor. 

-Desculpe, pensei que estivesse propondo um brinde -disse ele. 

Os ratos remexeram-se com impacincia dentro de seus recipientes de vidro. Ento aquietaram-se, e Benjy avanou para falar com Arthur. 

-Criatura da Terra -disse -, a situao  a seguinte: como voc sabe, h dez milhes de anos que administramos o seu planeta para descobrir essa maldita Questo Fundamental. 

-Por qu? -indagou Arthur. 

- No, essa a j descartamos -disse Frankie, interrompendo -porque no bate com a resposta. Por qu? Quarenta e dois... Como voc v, no faz sentido. 

-No  isso -explicou Arthur. -Eu perguntei por que vocs querem saber isso. 

-Ah -exclamou Frankie. -Bem, pra ser absolutamente franco, s por fora do hbito, creio eu. E acho que a questo  mais ou menos essa: j estamos de saco cheio dessa histria toda, e a idia de ter que comear do zero outra vez por causa daqueles panacas dos vogons realmente  demais, sacou? Foi por mero acaso que Benjy e eu terminamos a tarefa especfica de que estvamos encarregados e samos do planeta pra tirar umas feriazinhas, e conseguimos dar um jeito de voltar a Magrathea graas aos seus amigos. 

-Magrathea  um dos portes que d acesso  nossa dimenso -explicou Benjy. 

-E recentemente -prosseguiu o outro roedor -recebemos uma proposta irrecusvel de participar de uma mesa-redonda na quinta dimenso e dar umas palestras l na nossa terra, e estamos inclinados a aceitar. 

- Eu aceitava, se me convidassem; voc no aceitava, Ford? -perguntou Zaphod. 

-Ah; claro, na mesma hora -disse Ford. 

Arthur olhava para eles, sem saber aonde aquilo ia dar. 

-S que a gente no pode ir de mos abanando -disse Frankie. -Ou seja: 
temos que descobrir a Questo Fundamental, de algum modo. 

Zaphod debruou-se, chegando mais perto de Arthur. 

-Imagine s -disse ele -se eles esto l no estdio, muito tranqilos, dizendo que sabem qual  a Resposta  Questo da Vida, o Universo e Tudo o Mais, e depois tm que admitir que a Resposta  42. O programa vai acabar ali mesmo. No d pra espichar o programa, entendeu? 

-A gente tem que ter alguma coisa que soe bem -disse Benjy. 

-Uma coisa que soe bem -exclamou Arthur. -Uma Questo Fundamental que soe bem? Formulada por dois ratos? 

Os ratos irritaram-se. 

-Olhe -disse Frankie -, essa histria de idealismo, de dignidade da pesquisa pura, da busca pela verdade em todas as suas formas, est tudo muito bem, mas chega uma hora que voc comea a desconfiar que, se existe uma verdade realmente verdadeira,  o fato de que toda a infinidade multidimensional do Universo , com certeza quase absoluta, governada por loucos varridos. E entre gastar mais dez milhes de anos pra descobrir isso ou ento faturar em cima do que j temos, eu fico tranqilamente cora a segunda opo. 

-Mas... -comeou Arthur, desanimado. 

-Voc vai entender, terrqueo -disse Zaphod. -Voc  um produto de ltima gerao daquela matriz de computador, certo?, e voc estava l na Terra at o instante em que o planeta foi exterminado, no ? 

- Bem... 
-Assim, o seu crebro estava organicamente integrado  penltima configurao do programa do computador -disse Ford, e admirou a clareza de sua prpria explicao. 

-Certo? -perguntou Zaphod. 

- -disse Arthur, hesitante. Ele jamais havia se sentido organicamente integrado a coisa nenhuma. Sempre achara que este era um de seus problemas. 

-Em outras palavras -disse Benjy, fazendo com que seu curioso veculo se aproximasse de Arthur -,  bem provvel que a estrutura da pergunta esteja codificada na estrutura de sua mente, e por isso queremos compr-la de voc. 

-O que, a pergunta? -indagou Arthur. 

-  -responderam Ford e Trillian. 
-Por uma nota preta -disse Zaphod. 
-No, no -explicou Frankie -, o que a gente quer comprar  o seu crebro. 

-O qu? 

-Mas que falta vai fazer? -perguntou Benjy. 

-Eu entendi voc dizer que sabiam ler o crebro dele eletronicamente - protestou Ford. 
- claro que sabemos -disse Frankie -, s que primeiro a gente tem que retir-lo do lugar. Tem que ser preparado. 
-Tratado -disse Benjy. 

-Cortado em pedaos. 

-Obrigado -gritou Arthur, inclinando a cadeira para trs para afastar-se da mesa, horrorizado. 

-Se voc achar isso importante -disse Benjy, razovel -, a gente coloca outro no lugar. 

- , um crebro eletrnico -disse Frankie -, bastaria um bem simples. - Bem simples! -gemeu Arthur. 
- -disse Zaphod, com um sorriso maldoso -, era s program-lo para dizer O qu?, No entendi e Cad o ch?. Ningum ia notar a diferena. 

-O qu? -exclamou Arthur, afastando-se ainda mais. 

-Est vendo? -disse Zaphod, e urrou de dor por causa de algo que Trillian fez naquele momento. 

-Pois eu notaria a diferena -disse Arthur. 

- No -disse Frankie -, porque voc seria programado pra no notar. Ford saiu em direo  porta. 

-Vocs me desculpem, meus caros ratos, mas pelo visto nada feito. 

-Creio que essa posio  inaceitvel -disseram os ratos em coro; suas vozinhas finas perderam todo e qualquer toque de cordialidade. Com um zumbido agudo, os dois recipientes de vidro levantaram-se da mesa e partiram em direo a Arthur, que ficou encurralado num canto do recinto, absolutamente incapaz de fazer alguma coisa, ou mesmo de pensar em alguma coisa. 

Trillian agarrou-o pelo brao, em desespero, e tentou arrast-lo em direo  porta, que Ford e Zaphod estavam tentando abrir, mas Arthur era um peso morto. Parecia hipnotizado pelos roedores voadores que se aproximavam dele. 

Trillian gritou, mas ele continuou abestalhado. 

Com um ltimo safano, Ford e Zaphod conseguiram abrir a porta. L fora havia uma pequena multido de homens mal-encarados, que, aparentemente, era o pessoal que fazia os servios sujos em Magrathea. No apenas eram mal-encarados, mas tambm traziam equipamentos cirrgicos bem assustadores. Os homens atacaram. 

Assim, a cabea de Arthur ia ser aberta, Trillian no conseguia ajud-lo, e Ford e Zaphod iam ser atacados por um bando de brutamontes bem mais fortes e armados do que eles. 

Portanto, foi bem a calhar que, naquele exato momento, todos os alarmes do planeta tenham soado ao mesmo tempo, fazendo uma barulheira infernal. 



Captulo 32 

-Emergncial Emergncia! -ouvia-se em todo o planeta. 
-Nave inimiga aterrissou no planeta. Invasores armados na seo 8A. Postos de defesa, postos de defesa. 
Os dois ratos fungavam, irritados, cercados dos cacos de seus recipientes de vidro, quebrados no cho. 

-Droga -disse o rato Frankie. -Tanta confuso por causa de um quilo de crebro de terrqueo. -Seus olhos rosados estavam cheios de clera; seu belo plo branco estava eriado de eletricidade esttica. 

-A nica sada agora -disse Benjy, acocorado e cocando os bigodes pensativamente - tentar inventar uma pergunta que parea plausvel. 

-Vai ser difcil -disse Frankie. -Que tal o que , o que , que  amarelo e perigoso? 

Benjy pensou por alguns instantes. 

-No, no serve -disse. -No casa com a resposta. Por alguns segundos, permaneceram em silncio. 

- Est bem -disse Benjy. - Quanto d seis vezes sete? 
-No, muito literal, muito objetivo -disse Frankie. -No vai despertar o interesse do pblico. 

Pensaram mais um pouco. Ento Frankie disse: 

-Que tal Quantos caminhos  preciso caminhar?* 

-Arr! -exclamou Benjy. - Essa parece promissora! -repetiu a frase, saboreando-a. -, essa  excelente, mesmo! Parece uma coisa muito importante, mas ao mesmo tempo no quer dizer nada de muito especfico. Quantos caminhos  preciso caminhar? Quarenta e dois. Excelente, excelente! Com essa a gente enrola todo mundo. Frankie, meu rapaz, estamos feitos! 

E danaram entusiasmados. 

Perto deles, no cho, havia alguns homens mal-encarados que tinham sido golpeados na cabea com pesados trofus de acrlico. 

A um quilmetro dali, quatro figuras corriam por um corredor, tentando achar uma sada. Saram numa sala espaosa cheia de portas, onde havia um terminal de computador. Olharam ao redor, confusos. 

-Pra onde vamos, Zaphod? -perguntou Ford. 

-Eu chutaria por ali -disse Zaphod, correndo entre o terminal e a parede. Antes que os outros sassem atrs dele, Zaphod parou imediatamente quando uma fasca de Raio-da-Morte estalou alguns centmetros  sua frente, fritando um pedao da parede. 

Ouviu-se uma voz forte ampliada, dizendo. 

-Pare a mesmo, Beeblebrox. Voc est encurralado. 

-Os tiras! -sibilou Zaphod, acocorando-se e virando-se para trs. -Voc tem alguma sugesto, Ford? 

-Por aqui -props Ford, e os quatro se enfiaram numa passagem entre dois painis do terminal. 

No final da passagem havia uma figura com um traje espacial  prova de qualquer projtil, com uma tremenda arma de Raio-da-Morte na mo. 

* No original, How many roads must a man walk down, primeiro verso de Blowin' in the Wind, cano de Bob Dylan. (N.T.) 
- No queremos atirar em voc, Beeblebrox! -gritou a figura. 
-timo! -gritou Zaphod, e enfiou-se entre duas unidades de processamento de dados. 

Os outros foram atrs dele. 

-Eles so dois -disse Trillian. -Estamos encurralados. Espremeram-se entre um grande banco de dados e a parede. Prenderam a respirao e esperaram. 

De repente, o ar foi riscado por raios; os dois policiais estavam atirando neles ao mesmo tempo. 

-Vejam, esto atirando na gente -disse Arthur, todo encolhido. -Eles no disseram que no queriam fazer isso? 

-, foi o que eu entendi tambm -concordou Ford. Zaphod esticou a cabea para fora do esconderijo, corajosamente. 

- Ei -disse ele -, vocs no disseram que no queriam atirar na gente? E escondeu-se de novo. 
Esperaram. 
Aps um momento, uma voz respondeu: 
-Ser policial no  mole! 
-Que foi que ele disse? -cochichou Ford, espantado. 

-Disse que ser policial no  mole. 

- Bem, mas isso  problema dele, no ? 
-A meu ver, . 

-Escutem -gritou Ford. -Acho que ns j temos bastante problemas sem que vocs fiquem atirando em ns, e assim, se vocs parassem de descarregar as suas frustraes em cima de ns, acho que seria melhor pra todo mundo! 

Uma pausa, depois a voz amplificada ecoou novamente: 

-Escute aqui, cara, no pense que a gente  que nem esses retardados que s sabem puxar gatilho, com olhar vazio, que nem sabem conversar direito! Ns somos uns caras inteligentes, decentes, e se vocs nos conhecessem melhor at gostariam de ns! Eu no ando por a dando tiros a torto e a direito e depois saio contando vantagem pelos botecos da Galxia, como muitos policiais que conheo! Eu saio por a dando tiros a torto e a direito, s que depois morro de arrependimento e conto tudo pra minha namorada! 

-E eu escrevo romances! -disse o outro policial. -Se bem que no consegui publicar ainda nenhum deles. Quer dizer,  bom vocs saberem que hoje estou com um humor terrvel! 

Os olhos de Ford quase saltaram das rbitas. 

-Qual  a desses caras? -perguntou. 

-Sei l -disse Zaphod. -Eu gostava mais deles quando estavam s dando tiros. 

-Ento, vocs vo sair da por bem ou vai ter que ser na porrada? -gritou um dos policiais. 

-O que voc preferir -gritou Ford 

Um milissegundo depois, as armas de Raio-da-Morte encheram a sala de relmpagos, que atingiram em cheio o terminal de computador atrs do qual os trs estavam escondidos. 

O tiroteio continuou por algum tempo, com uma intensidade insuportvel. 

Quando parou, seguiram-se alguns segundos de quase silncio, e os ecos foram morrendo. 

-Vocs ainda esto a? -gritou um dos policiais. 

- Estamos -eles gritaram. 
-Ns no gostamos nem um pouco de ter que fazer isso -gritou o outro policial. 
-Deu pra perceber -gritou Ford. 

-Agora, preste ateno no que vou dizer, Beeblebrox, mas preste ateno mesmo! 

-Por qu? -gritou Zaphod. 

-Porque vou dizer uma coisa muito inteligente, interessante e humana! Bem, ou vocs se entregam agora e deixam a gente dar umas porradinhas em vocs, s um pouquinho,  claro, porque ns somos totalmente contra a violncia desnecessria, ou ento a gente explode esse planeta todo e talvez mais um ou dois que ns vimos quando viemos pra c! 

-Mas isso  loucura! -exclamou Trillian. -Vocs no podem fazer isso! 

-A gente no pode? -gritou o policial. -No pode? -perguntou ele ao outro. 

-A gente pode e deve, no tem dvida -gritou o outro. 

-Mas por qu? -perguntou Trillian. 

-Porque tem coisas que a gente tem que fazer, mesmo sendo policiais liberais esclarecidos, cheios de sensibilidade e o cacete! 

- Esses caras no existem! -murmurou Ford, sacudindo a cabea. Um dos policiais gritou para o outro: 
- E a, vamos dar mais uns tirinhos neles? 
-  uma! 
Outra tempestade eltrica. 

O calor e o barulho eram fantsticos. Lentamente, o terminal de computador foi se desintegrando. A parte da frente j tinha se dissolvido quase toda, e riachos espessos de metal derretido se aproximavam do canto em que os quatro estavam escondidos. Eles se encolheram ainda mais e esperaram pelo fim. 



Captulo 33


Mas o fim no veio. Pelo menos, no naquela hora. De repente os raios cessaram, e no silncio repentino que se seguiu ouviram-se gritos guturais e dois baques surdos. Os quatro se entreolharam. 

-O que houve? -perguntou Arthur. 

- Eles pararam -disse Zaphod, dando de ombros. 
-Por qu? 
-Sei l! Quer ir l e perguntar a eles? 
- No. Esperaram. 
- Ei! -gritou Ford. Nada. 
- Estranho. 
-Pode ser uma armadilha. 
- Eles so burros demais pra isso. 
-Aqueles baques, o que foi aquilo? 
- No sei. 
Esperaram mais alguns segundos. 
-Eu vou l ver -disse Ford. Olhou para os outros e acrescentou: -Ser que ningum vai dizer: No, voc no, deixe que eu vou? 
Os outros trs sacudiram a cabea. 

- Nesse caso... -disse ele, e levantou-se. 
Por um momento, no aconteceu nada. 
Ento, alguns segundos depois, continuou a no acontecer nada. Ford olhou para a fumaa espessa que saa do computador destrudo. 
Cuidadosamente, saiu do esconderijo. 
Continuou no acontecendo nada. 
Vinte metros adiante, ele pde entrever em meio  fumaa o vulto de um dos policiais em sua roupa espacial. Estava embolado no cho. A 20 metros dele, no outro lado da sala, estava o outro. No havia mais ningum. 
Ford achou isso extremamente estranho. 
Lenta e nervosamente, aproximou-se do primeiro policial. O corpo estava perfeitamente imvel quando ele se aproximou e permaneceu perfeitamente imvel quando ele colocou o p sobre a arma de Raio-da-Morte que o cadver ainda tinha na mo. 

Abaixou-se e pegou a arma, sem encontrar nenhuma resistncia. 

O policial estava indubitavelmente morto. 

Ford examinou-o rapidamente e constatou que ele era de Kappa de Blagulon -um ser que respirava metano e que s poderia sobreviver na rarefeita atmosfera de oxignio existente em Magrathea com seu traje espacial. 

O pequeno sistema computadorizado em sua mochila, que lhe permitia sobreviver naquele planeta, parecia ter explodido inesperadamente 

Ford examinou-o profundamente intrigado. Esses minicomputadores normalmente funcionavam ligados ao computador central que ficava na nave e com o qual eles permaneciam ligados atravs do subeta. O sistema era completamente seguro, a menos que houvesse uma falha completa do sistema de retroalimentao, o que jamais acontecera. 

Ford correu at o outro cadver e descobriu que exatamente a mesma coisa impossvel havia acontecido com ele. E, pelo que tudo indicava, exatamente na mesma hora. 

Ford chamou os outros para virem olhar. Eles vieram, manifestaram o mesmo espanto, mas no a mesma curiosidade. 

-Vamos sair daqui -disse Zaphod. -Se a coisa que estou procurando est mesmo aqui, seja l o que ela for, no quero mais saber dela. 

Zaphod agarrou a segunda arma, fulminou um computador de contabilidade absolutamente inofensivo e saiu correndo pelo corredor; os outros foram atrs. Quase atirou tambm num aeromvel que os esperava perto dali. 

O veculo estava vazio, mas Arthur reconheceu-o: era de Slartibartfast. 

No painel de controle, que tinha poucos controles, alis, havia um recado do proprietrio. No papel havia uma seta apontando para um dos botes do painel e os seguintes dize-res: Este  provavelmente o melhor boto para vocs apertarem. 



Captulo 34


O aeromvel, a uma velocidade acima de RI 7, percorreu os tneis forrados de ao e levou-os de volta  aterradora superfcie do planeta, onde mais uma vez raiava uma melanclica madrugada. Uma luz cinzenta e fantasmagrica congelava-se sobre a superfcie do planeta. 

R  uma unidade de velocidade definida como uma velocidade razovel para se viajar, compatvel com a sade fsica e mental dos viajantes e garantindo um atraso no maior do que cinco minutos, mais ou menos. , por conseguinte, uma grandeza quase infinitamente varivel, que depende das circunstncias, j que os dois primeiros fatores variam no apenas em funo da velocidade absoluta do veculo, mas tambm em funo da conscincia do terceiro fator. A menos que seja abordada com tranqilidade, essa equao pode resultar em estresse, lceras e at mesmo morte. 

RI7 no  uma velocidade definida, mas  sem dvida excessivamente alta. 

O aeromvel saiu do tnel a mais de RI7, largou seus passageiros ao lado da nave Corao de Ouro, que se destacava daquele cho congelado como se fosse um osso ressecado, e mais que depressa voltou para as bandas de onde eles tinham vindo, para cuidar de sua prpria vida. 

Trmulos, os quatro encararam a nave. 

Ao lado dela estava pousada uma outra. 

Era uma nave policial de Kappa de Blagulon. Parecia um tubaro inchado, verde-ardsia, coberto de letras negras dos mais variados tamanhos, todas igualmente antipticas. A inscrio informava a todos os interessados de onde era aquela nave, qual a seo da polcia que a utilizava e onde deviam ser feitas as conexes de fora. 

De algum modo, parecia anormalmente escura e silenciosa, mesmo sabendo-se que sua tripulao de dois membros estava naquele momento morta por asfixia numa cmara enfumaada muitos quilmetros abaixo da superfcie.  uma dessas coisas curiosas, que no h como explicar nem definir, mas o fato  que d para sentir quando uma nave est completamente morta. 

Ford sentia isso, e achava tudo muito misterioso -a nave e seus dois tripulantes pareciam ter morrido espontaneamente. De acordo com sua experincia, o Universo simplesmente no funciona assim. 

Os outros trs tambm sentiam isso, mas sentiam ainda mais o frio desgraado que estava fazendo, e correram para dentro da nave Corao de Ouro, com um forte ataque de ausncia de curiosidade. Ford ficou l fora e resolveu examinar a nave de Blagulon. Enquanto caminhava, quase tropeou numa figura inerte, deitada de bruos na poeira fria. 
-Marvin! -exclamou ele. -O que voc est fazendo? 
-No fique achando que voc tem obrigao de se importar comigo, por favor -disse Marvin, com uma voz montona e abafada. 
-Mas como  que voc est, sua lata velha? -perguntou Ford. 
-Deprimidssimo. 
-O que houve? 

- Eu nem sabia que tinha havido alguma coisa -disse Marvin. 
-Por que -indagou Ford, acocorando-se ao lado do rob, tremendo de frio -voc est deitado de bruos na poeira? 
-Pra quem est com o astral l embaixo,  um prato cheio. -disse Marvin. -No finja que voc est com vontade de falar comigo. 

Eu sei que voc me odeia. 
-De jeito nenhum. 
-Odeia, sim, voc e todo mundo. Faz parte da estrutura do Universo.  s eu falar com uma pessoa que na mesma hora ela me odeia. At os robs me odeiam.  s voc me ignorar que eu provavelmente vou desaparecer do mapa. O rob levantou-se e ficou olhando para o outro lado, irredutvel -Aquela nave me odiava -disse, apontando para a nave policial. 
-Aquela nave? -perguntou Ford, subitamente animado. 
-O que aconteceu com ela? Voc est sabendo? 

- Ela passou a me detestar porque falei com ela. 
-Voc falou com ela? Como assim? 

-Muito simples. Eu estava muito entediado e deprimido, e a me liguei na entrada externa do computador. Conversei por muito tempo com o computador e expliquei a ele a minha concepo do Universo -disse Marvin. 

- E o que aconteceu? -insistiu Ford. 
-Ele se suicidou -disse Marvin, e foi caminhando em direo  nave Corao de Ouro. 

FIM


Sobre a Digitalizao desta Obra: 

Esta obra foi digitalizada para proporcionar de maneira totalmente gratuita o benefcio de sua leitura queles que no podem compr-la ou queles que necessitam de meios eletrnicos para ler. Dessa forma, a venda deste e-livro ou mesmo a sua troca por qualquer contraprestao  totalmente condenvel em qualquer circunstncia. 

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Incentive o autor e a publicao de novas obras! 

Brasil, Outubro de 2004. 






Captulo 35


Naquela noite, quando a nave Corao de Ouro j estava a alguns anos-luz da nebulosa da Cabea de Cavalo, Zaphod descansava debaixo da palmeirinha da ponte de comando, tentando consertar o crebro com doses macias de Dinamite Pangalctica; Ford e Trillian discutiam num canto sobre a vida e questes correlatas; e Arthur, deitado na cama, folheava O Guia do Mochileiro das Galxias. "Como ia ter que viver na tal da Galxia, o jeito era aprender alguma coisa sobre ela", pensou. Encontrou o seguinte verbete: 

"A histria de todas as grandes civilizaes galcticas tende a atravessar trs fases distintas e identificveis -as da sobrevivncia, da interrogao e da sofisticao, tambm conhecidas como as fases do como, do por que e do onde. 

Por exemplo, a primeira fase  caracterizada pela pergunta: Como vamos poder comer? 

A segunda, pela pergunta: Por que comemos? 

E a terceira, pela pergunta: Aonde vamos almoar?" 

Neste momento o interfone da nave soou. 

- terrqueo! Est com fome, garoto? - Era a voz de Zaphod. 

- , seria legal comer alguma coisa -disse Arthur. 
-Ento se segure -disse Zaphod -que a gente vai dar uma paradinha no Restaurante do Fim do Universo. 

